Alejandra Pizarnik

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Alejandra Pizarnik

(1936-1972)

Alejandra Pizarnik foi uma escritora, poetisa e pintora argentina. Filha de emigrantes judeus da Europa de Leste, a autora nasceu em Avellaneda, na região metropolitana de Buenos Aires. Estudou, na Universidade de Buenos Aires, filosofia, literatura e jornalismo, mas dedicou-se sobretudo à poesia e à pintura.

Em 1960 mudou-se para Paris, onde residiu durante quatro anos. Alejandra Pizarnik optou pelo exílio e experienciou a condição de estrangeira, numa busca pelo ambiente artístico parisiense, pois a França e a língua francesa, na América Latina, eram estão consideradas o epicentro para todos os artistas. Na realidade, esse autoexílio revelar-se-ia determinante para o seu processo criativo, ao permitir-lhe contactar com autores das mais variadas áreas, bem como colaborar em revistas e traduzir escritores como Antoine Artaud e Henri Michaux. Aliás, a poesia da autora iria dialogar frequentemente com poetas e artistas quer contemporâneos – como é o caso dos surrealistas franceses –, quer modernos e clássicos da literatura inglesa, francesa e alemã, de que são exemplo poemas como “Para Emily Dickinson” (Pizarnik, 2020: 29) e “Caroline de Gunderole” (idem: 65).

Em Paris, relacionar-se-ia, também, com autores da América Latina, nomeadamente, Julio Cortázar – de quem se tornará amiga íntima – e Octavio Paz, que escreveu o prólogo da obra Árbol de Diana, composta em Paris e publicada em Buenos Aires em 1962. Por essa ocasião, o poeta mexicano ofereceria a Pizarnik um exemplar da antologia de Fernando Pessoa, como refere Pablo López, no artigo “Pessoa, Paz, Pizarnik: fragmentos para un diálogo”:

en 1963, Octavio Paz envió a Alejandra Pizarnik un ejemplar de su antología pessoana. La publicación de este libro y su valioso prefacio, “El desconocido de sí mismo”, generaron la curiosidad necesaria para que Fernando Pessoa se afincara en el mundo de habla hispana (López, 2014: 252).

Nos diários da autora, por sua vez, encontram-se passagens sobre a leitura da antologia pessoana:

[l]as marcas de lectura de Alejandra sobre las palabras de Paz y las del propio Pessoa, y sus heterónimos, son vestigios de existencia, fragmentos de identidad, afirmación material de un alma gemela. En las referencias explícitas e implícitas que Alejandra hace a Pessoa (o a Pessoa-Paz), en especial en sus Diarios[…], es posible advertir una filiación íntima que los une, que parece tan cercana como auténtica (López, 2014: 252).

Embora PizarniK tenha crescido entre dois idiomas – o iídiche (língua materna) e o espanhol – a língua francesa entranhar-se-ia na sua escrita, mas grande parte do trabalho produzido em francês ainda se encontra disperso no arquivo da autora. Entretanto, no artigo “Where the voice of Alejandra Pizarnik was queen”, é referida uma interessante comparação entre o arquivo de Alejandra Pizarnik e o arquivo de Fernando Pessoa:

[l]ike that of the great Fernando Pessoa (a key figure in European modernism recently published by New Directions, whose posthumous works are still being discovered at the National Library of Portugal), the Pizarnik archive contains hidden and scattered treasures. There are scores of creative texts, visual works, and biographical information available to anyone willing to make the journey to Princeton (Ferrari, 2018: s/p).

Já no livro Poesía completa, surgem poemas com o título em francês, mas escritos em espanhol, tais como “Nuit du coeur” e “Tête de jeune fille (odilon redon)” – poema que evoca, como é visível pelo título, um quadro do pintor simbolista francês Odilon Redon. Assim, a passagem por Paris e pela cultura francesa parece ter perdurado de várias formas na escrita desta autora argentina, dando origem inclusive a auto-traduções, como realça Patricio Ferrari:

[i]n fact, nearly a dozen Spanish texts included in books from Árbol de Dianato El infierno musical (A Musical Hell, 1971), and the posthumous Textos de sombra y ultimos poemas (Shadow texts and last poems, 1982) contain passages that Pizarnik first wrote in French and later translated into Spanish (Ferrari, 2018: s/p).

Sublinhe-se, contudo, que a ânsia de partir era já visível em poemas anteriores ao autoexílio parisiense. Por exemplo, no livroLa última inocencia(1956) encontramos o seguinte poema homónimo:

Partir
em corpo e alma
partir.
Partir
desfazer-se dos olhares
pedras opressoras
que dormem na garganta.
Hei-de partir
já não a inércia debaixo do sol
já não o sangue aniquilado
já não entrar na fila para morrer.
Hei-de partir
Mas ala, viajante! (Pizarnik, 2020: 27)

Observemos a parte final do poema e a importância da adversativa: há uma evidente distinção entre um partir que se projeta para o futuro, enquanto afirmação de uma intenção (“hei-de partir”), e a interpelação ao partir imediato (“ala, viajante”). A autora expõe uma ânsia de partir, quer no sentido físico, quer no sentido mais figurativo, usando a linguagem enquanto lugar de refúgio e fuga. Por outro lado, a problemática da partida manifesta-se, também, através da morte, sobretudo na obra Extracción de la piedra de locura(1968) – note-se a relação que é estabelecida com a pintura homónima do artista holandês Hieronymus Bosch (c. 1450-1516) –, onde a autora revela uma desconcertante autoconsciência da morte:

“[t]oda a noite escuto o chamamento da morte, toda a noite escuto o canto da morte junto ao rio, toda a noite escuto a voz da morte que me chama […]. Junto ao rio a morte chama-me. Desoladamente rasgada no coração escuto o canto da mais pura alegria (Pizarnik, 2020: 113).

Assim, a incessante procura de um lugar mostra-nos que Alejandra Pizarnik viveu em permanente estado de deslocada, e a passagem por Paris reforça muito o sentimento de não-pertença e a sensação de in-between, que perseguiu a autora ao longo da sua vida, visto que, “[s]he didn’t feel at home in her birth place and intense feeling of displacement and dispossession haunts her as a nightmare. Gradually she sought solace in poems and created homes in it” (Poozhikkal, 2018: 322). Aliás, as línguas que a autora dominava, desde o iídiche, ao espanhol e ao francês, reforçam essa sensação de deslocação e de “dispossesseion”, desempenhando um papel fundamental nas inquietações da poesia alejandrina: “[s]he was obsessed with the in-between, with the lyrical subject between cultures and between languages; she explored both sides of the mirror (Ferrari, 2018: s/p). Poder-se-á então dizer que, para Alejandra Pizarnik, o mundo da escrita representava um lugar neutro preenchido por uma linguagem que mergulha nas neuroses de um ou vários “eu” poéticos em constante tensão, em constante deslocação. Vocábulos como “barco” e “vento” são determinantes para essa tensão poética: “[…] [e]u choro debaixo do meu nome. / Eu agito lenços na noite / e barcos sedentos de realidade / dançam comigo / Eu escondo pregos / para escarnecer dos meus sonhos doentes” (Pizarnik, 2020: 33); “[c]omo o vento sem asas encerrado nos meus olhos / é o chamamento da morte. / Só um anjo me abraçará ao sol […]” (idem: 34); “um vento débil / cheio de rostos dobrados / que recorto na forma de objectos para amar” (idem: 49); “explicar com palavras deste mundo / que partiu de mim um barco levando-me” (idem: 50). Donde se poderá concluir que existe nesta autora uma fragmentação do(s) “eu” poético(s) alinhada com uma angústia do partir.

Alejandra Pizarnik suicidou-se em 1972 – numa saída de fim de semana do hospital psiquiátrico onde se encontrava internada –, mas na sua poesia permanece a artista desconcertante, eternamente a “procurar a vida” (Pizarnik, 2020: 26).

 

Passagens

Argentina, França

 

Citações

Exilio

Esta manía de saberme ángel,
sin edad,
sin muerte en que vivirme,
sin piedad por mi nombre
ni por mis huesos que lloran vagando.

¿ Y quién no tiene un amor?
¿ Y quién no goza entre amapolas?
¿ Y quién no posee un fuego, una muerte,
un miedo, algo horrible,
aunque fuere com plumas,
aunque fuere con sonrisas?

Siniestro delirio amar a una sombra.
La sombra no muere.
Y mi amor
sólo abraza a lo que fluye
como lava del infierno:
una logia callada,
fantasmas en dulce erección,
sacerdotes de espuma,
y sobre todo ángeles,
ángeles bellos como cuchillos
que se elevan en la noche
y devastan la esperanza. (Pizarnik, 2016: 79)

Días en que una palabra lejana se apodera de mí. Voy por esos días so-
námbula y transparente. La hermosa autómata se canta, se encanta, se
cuenta casos y cosas: nido de hilos rígidos donde me danzo y me lloro
en mis numerosos funerales. (Ella es su espejo incendiado, su espera en
hogueras frías, su elemento místico, su fornicación de nombres cre-
ciendo solos en la noche pálida.) (idem: 119)

Destrucciones

Del combate con las palabras ocúltame
y apaga el furor de mi cuerpo elemental. (idem: 158)

Tête de jeune fille (odilon redon)

de música la lluvia
de silencio los años
que pasan una noche
mi cuerpo nunca más
podrá recordarse. (idem: 228)

L’obscurité des eaux

Escucho resonar el agua que cae en mi sueño. Las palabras caen
como el agua yo caigo. Dibujo en mis ojos la forma de mis ojos, nado
en mis aguas, me digo mis silencios. Toda la noche espero que mi len-
guaje logre configurarme. Y pienso en el viento que viene a mí, per-
manece en mí. Toda la noche he caminado bajo la lluvia desconocida.
A mí me han dado un silencio pleno de formas y visiones (dices). Y co-
rres desolada como el único pájaro en el viento. (idem: 285)

Sous la nuit

Los ausentes soplan grismente y la noche es densa. La noche tiene
el color de los párpados del muerto.
Huyo toda la noche, encauzo la persecución y la fuga, canto un
canto para mis males, pájaros negros sobre mortajas negras.
Grito mentalmente, el viento demente me desmiente, me confino,
me alejo de la mano crispada, no quiero saber outra cosa que este cla-
mor, este resolar en la noche, esta errancia, este no hallarse.

Toda la noche hago la noche.
Toda la noche me abandonas lentamente como el agua cae lenta-
mente. Toda la noche escribo para buscar a quien me busca.
Palabra por palabra yo escribo la noche. (idem: 420)

Unicamente

já compreendo a verdade

estala nos meus desejos

e nos meus desgostos
nos meus desencontros
nos meus desequilíbrios
nos meus delírios

já compreendo a verdade

agora
procurar a vida (Pizarnik, 2020: 26)

Só um nome

alejandra alejandra
debaixo estou eu
alejandra (idem: 30)

Fronteiras inúteis

um lugar
não digo um espaço
falo de
quê
falo do que não é
falo do que não conheço

não o tempo
apenas todos os instantes
não o amor
não
sim
não

um lugar de ausência
um fio de miserável união (idem: 78)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

PIZARNIK, Alejandra (2016), Poesía completa, Barcelona, Lumen.

— (2020), Antologia poética, Lisboa, Tinta da China.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

FERRARI, Patricio (2018), “Where the Voice of Alejandra Pizarnik Was Queen”, The paris review, 25 de julho <https://www.theparisreview.org/blog/2018/07/25/where-the-voice-of-alejandra-pizarnik-was-queen/> (último acesso em 10/1/2021).

LÓPEZ, Pablo Javier Pérez (2014), “Pessoa, Paz, Pizarnik: fragmentos para un diálogo”,Pessoa Plural, 6, pp. 250-264.

POOZHIKKAL, Sumayya (2018), “Homes in poems: the legacy of Alejandra Pizarnik”, Literary Endeavour, vol. 6, pp. 322-324.

Maria  Reis

 

Como citar este verbete:
REIS, Maria (2021), “Alejandra Pizarnik”, in Ulyssei@s: Enciclopédia Digital. ISBN 978-989-99375-2-9.
https://ulysseias.ilcml.com/pt/termos/alejandra-pizarnik/