Conrad, Carolina

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Conrad, Carolina

(1960-)

Carolina Conrad é o pseudónimo da escritora alemã Bettina Haskamp (1960-), nascida em Oldenburgo no estado da Baixa Saxónia. Trabalhou em diferentes estações de rádio na Alemanham e sob o seu nome escreveu sobre a viagem que efectuou com o marido entre a Alemanha e o Brasil. Iniciada em 1998, esta viagem durou três anos e deu origem ao seu primeiro livro Untergehen werden wir nicht. Ein vertracktes Paar, ein selbstgebautes Boot und ein gemeinsamer Traum (2002 [Não nos afundaremos. Um casal complicado, um barco construido pelos próprios e um sonho comum]. Escreveu também vários romances na categoria que a editora Rowohlt classifica de ‘Frauenromane’ [romances de mulheres]. Vive atualmente em Portugal e em Hamburgo.

Em 2009 publica Alles wegen Werner [Tudo por causa do Werner], obra que descreve a vida da protagonista Clara, a viver numa vivenda em Portimão, até que o marido, após 30 de casamento, se vai embora com uma jovem brasileira. Clara vai viver para o Alentejo, para uma quinta isolada, perto da aldeia de Hortinhas. Casou com Rui, acabado de regressar de Osnabrück, onde trabalhou na indústria automóvel, e ficaram a viver na quinta, entretanto preparada para o turismo rural. Em Azorenhoch (2014 [Anticiclone dos Açores]) descreve-se a vida de Marco Müller que quer restaurar com Lena uma velha aldeia na ilha de São Miguel. É um romance sobre os sonhos e o luto. Em 2016 publica Tief durchatmen beim abtauchen [Respirar fundo ao mergulhar], umas férias de duas amigas numa ilha atlântica.

Foi em 2018 que começou a escrever, sob pseudónimo, policiais ‘algarvios’ à volta da alemã luso-descendente Anabela Silva. Já publicou dois volumes: Mord an der Algarve [Assassínio no Algarve] e, em 2019, Letzte Spur Algarve [Último indício Algarve]. São livros próximos da linha da literatura trivial, desta feita à volta de alguns crimes e também de envolvimento emocional da personagem principal. Contrariamente a alguns outros romancistas, o local da acção está longe do Algarve turístico, mas no interior oriental, perto da fronteira espanhola. Um dos interesses destes romances é o que está para além da trama policial. São as relações das pessoas entre si e as localidades visitadas, a culinária portuguesa, os costumes, a mentalidade, a geografia social. Conrad utiliza também muitas vezes ditos portugueses, citados em português e sempre seguidos das respectivas traduções (‘De Espanha, nem bom vento nem bom casamento’, ‘Tal mãe, tal filha’, ‘Deus me dê paciência e um pano para a embrulhar’, ‘brandos costumes’ etc.),. As formas de tratamento ‘Pai’, ‘Mãe’ e Filha’ causam alguma estranheza estando inseridas num texto em alemão. Mas cedo o leitor habitua-se a elas. A nível de costumes a narradora refere o hábito dos portugueses de darem dois beijos ao cumprimentarem as pessoas (‘Küsschen Küsschen’), como tantas vezes é referido nos romances, mais no primeiro do que no segundo, acompanhando desse modo a habituação de Anabela à vida portuguesa. Interessante é igualmente o modo como a autora introduz informações do passado histórico-social da zona, como a época de Salazar, o contrabando, o tráfego de crianças no passado ditatorial, a guerra colonial, os fogos florestais, a calçada portuguesa, o fado, o facto de não haver nomes nas caixas de correio em Portugal (como também aparece nos policiais de Gil Ribeiro (vd. verbete de Teresa Martins de Oliveira)), o ‘tou’ das chamadas telefónicas (factos normais para os portugueses, mas estranhos para alemães), a doença das palmeiras e das vacas loucas, tudo informações que não são aprofundadas, mas que não deixam de ser ditas, como marcas da realidade. É como que se o leitor acompanhasse a narradora ao longo das suas deslocações pelo Algarve. Uma das figuras de Letzte Spur Algarve é apresentada como sendo tão bonita como Sara Sampaio. Estas e outras referências fazem inserir a narrativa ficcional num contexto histórico real que acompanham a mudança progressiva da identidade da personagem principal. Assiste-se ao seu ‘aportuguesamento’: “Portugal era o país da minha família, ser o meu ainda tinha de se tornar” (Letzte Spur Algarve, 19).

Anabela Silva, sendo alemã e portuguesa ao mesmo tempo, transmite um olhar ‘simpático’ sobre Portugal, nessa dupla perspectiva, a de estranhamento de uma alemã face à maneira de ser portuguesa e a duma família bem ancorada na realidade portuguesa.
Anabela nasceu e viveu até agora em Hannover. Os pais regressaram entretanto a Portugal, vivendo na aldeia de Balurcos, perto de Alcoutim, junto ao Guadiana (não se pode perceber qual a razão da editora para publicar na foto uma fotografia tipificado do sotavento algarvio, a não ser, eventualmente, por razões de marketing, aproveitando paisagens habituais em guias de viagem e anúncios!). Anabela é jornalista, mas escreve somente ‘colunas’ em revistas femininas, mas a sua grande curiosidade e empenho na investigação residem na sua formação e na sua grande curiosidade, na sua perspicácia e no forte poder de observação, apesar de ser muito teimosa e, por vezes, ingénua. Resolve vir a Portugal passar umas férias com a família, pois os pais não se encontram bem de saúde, mas também para terminar definitivamente com o seu marido alemão Justus. Acaba por ficar definitivamente no Algarve, como se sabe no segundo romance, para dar apoio aos pais e para experimentar algo diferente do que estava habituada na Alemanha e aproveitando o facto de ter herdado a casa dos avós. Não é o Algarve idílico dos panfletos turísticos, mas uma zona onde, de facto, vivem pessoas, com as suas alegrias e dificuldades, onde abunda a população mais idosa, longe do Algarve costeiro, amplamente estragado pela construção civil, como se vê numa comparação entre fotos antigas e a realidade de Monte Gordo hoje (ver Mord an der Algarve, 89).

É uma figura simpática para o leitor, apresentada sem grande profundidade psicológica, como aliás as outras personagens, vistas quase sempre na perspectiva da própria personagem principal. Trata-se de romances policiais lentos, com o suspense a ir-se introduzindo discretamente, mostrando pouca violência, mas apontando para ela. Não são guias de viagem, mas são certamente livros bem informativos, indo um pouco mais longe do que os clichés habituais dos estrangeiros sobre os portugueses, presentes em muitos guias de viagem.

No primeiro romance, Anabela Silva dá-se conta da morte em quatro meses de sete pessoas idosas, três das quais da mesma família, Como eram idosos ninguém suspeitou de algo anormal, nem mesmo a médica responsável. Anabela inicia as suas inquirições, mas depara-se com um muro de silêncio relativamente à família Alves. Até que acontece mais um assassínio insuspeitável. Um alemão foi morto, Anabela é convocada pela polícia como tradutora. Era um estrangeiro que queria investir no interior do Algarve, no turismo pedestre. Aqui começa uma relação com o inspetor João Almeida, que continua no segundo romance e está ainda longe de se concretizar, o que pode apontar para a continuação da série. Como mandam as regras do policial Mord an der Algarve termina com a captura dos assassinos do alemão.

Letzte Spur de Algarve segue duas linhas narrativas: a criminalística (a morte de uma dinamarquesa no estábulo junto ao seu cavalo, em Castro Marim), seguindo linhas, nomeadamente a relativa a uma sociedade protectora de animais e o envolvimento de estrangeiros nessa actividade, e também com ligações ao tráfego de drogas, e outra linha, a procura de um primo desaparecido (teria sido dado para adoção para evitar problemas por os pais serem comunistas e em risco de serem presos) e que terá ido para Trás-os Montes. A autora aproveita esta situação para ir conhecer melhor o resto do país, mas o facto é que para além de algumas localidades alentejanas, nada aparece até chegarem a Chaves, para onde se desloca com o inspector João Almeida, que promete ajudá-la, se ela fizer um pouco de ‘espionagem’ junto de um grupo de protecção de animais, perto de Castro Marim, com a qual a dinamarquesa estava relacionada. Esta linha acaba por se esvanecer, vindo ao de cima motivos emocionais entre uma mulher portuguesa, a assassina, e a dinamarquesa. As duas linhas não se juntam diegeticamente, somente no facto de Anabela Silva e João Almeida serem os protagonistas de ambas as linhas. Não me parece uma ligação totalmente conseguida, mas há leitores que apreciam a conjunção das duas linhas neste romance. As dificuldades das populações ligam-se à política de austeridade causada pela tróica. A ligação ao real é feita, por exemplo, por referências ao partido PAN, aos incêndios em Monchique, aos despejos na Ilha da Culatra, entre muitas outras já referidas anteriormente e que são relativas aos dois romances.

São policiais de fácil leitura, próximos da literatura trivial, com traços da literatura de viagens e de romances de amor. Estão bem escritos e estruturados, têm algum humor, são boa leitura de praia, como dizem algumas críticas, mas também fora desse ambiente.

Passagens

Portugal, Alemanha

Citações

Esta luz! Logo que saí do estaleiro de construção chamado Aeroporto, tive que fechar os olhos por um segundo. Estava tão claro. E tão quente. Quando os voltei a abrir, parecia-me que uma autêntica bateria de holofotes estava direccionada a mim. Incompreensível que eu tenha renunciado durante todos estes anos à luz que aquece qualquer alma, no país dos meus pais. (Mord an der Algarve, 21; tradução minha)

Agora chega. Lá isso das férias. Lá por causa do sol e do mar, vinho verde gelado, leituras e passeios. Se isto continuar assim, o meu biquíni ficaria em pó, antes de eu arranjar tempo para ir até ao mar. A minha mãe acaba de me informar que tínhamos de ir a um enterro em Alcoutim, depois de irmos a uma consulta médica dela. (Mord an der Algarve, 48; tradução minha)

Menos de meia hora depois o enterro estava terminado e eu estava no carro com a minha mãe. Nem bolachas de manteiga nem café. Ainda me lembrava bem que os meus pais detestavam aquele costume de se organizar um pequeno encontro com café e bolos, depois das cerimónias fúnebres, quando uma vez foram convidados para o funeral de um colega de trabalho do meu pai. Eu achava bem aquele encontro depois do enterro. Mas hoje fiquei contente por os portugueses terem outros costumes e que podíamos ir para casa directamente. (Mord an der Algarve, 62; tradução minha)

Assassínio por amor não correspondido? Provavelmente não. Almeida não deu importância a esse comentário. “Onde é que se pode comer razoavelmente aqui nas redondezas?”, perguntou Pinto, interrompendo os meus pensamentos. “Acho que todos precisamos duma pausa.” Olha, olha, será um lampejo de sensibilidade no meio daqueles músculos todos? “Você conhece bem a zona”. “Em Foz de Odeleite, é só seguir o rio alguns quilómetros. O Arcos do Guadiana é o restaurante preferido dos meus pais. Há muito tempo que não vou lá, esperava que a cozinha fosse agora tão boa como antes. (Mord an der Algarve, 142; tradução minha)

Não sou uma pessoa religiosa. Para grande tristeza dos meus pais. Para eles o mundo dera uma cambalhota quando eu tinha 23 anos e saí da igreja católica. Ainda os ouço a cochichar: “O que é que fiz mal?” Mas nos 15 minutos que precisei de Guerreiro do Rio até Balurco, rezei como nunca. Por cautela rezei a todas as divindades que me vieram à cabeça.” (Mord an der Algarve, 216; tradução minha)

 

O pátio cercado de ciprestes estava fechado com fitas amarelas e brancas, dois carros patrulha da GNR estavam à frente da barreira. As portas dum deles estava aberta, no assento de trás estava uma senhora de cabelo cinzento, sem se mexer, a olhar para as suas mãos no regaço. (Letzte Spur Algarve, 8; tradução minha)

“Exatamente”. Tal mãe, tal filha [em português no original]. Obviamente: Quem criou esta frase não era definitivamente da minha família. A minha mãe e eu somos tão parecidas como – olhei pela janela para um rebanho que ali pastava, e pensei: como um carneiro e uma cabra. (Letzte Spur Algarve,15; tradução minha)

Deixei a minha carteira no carro. Que chatice. De repente nada poderia ser mais rápido. Comecei a correr. Almeida atendeu logo após o primeiro toque. “João? Ainda está por perto? Tenho que lhe falar. Ele já estava quase em Tavira, a meio caminho de Faro. Pensei. Até Tavira, se tudo correr bem, demoro uma meia hora. “Poderia parar em Tavira? Eu vou aí ter.” Ele queria alguma coisa de mim, portanto que esperasse. “Não, não quero falar disto ao telefone.” Ele hesitou, propôs então um café na N125, mesmo antes da cidade. Demorei exatamente 38 minutos. (Letzte Spur Algarve, 32-33; tradução minha)

Há umas semana telefonei-lhe a dizer que estava de novo no país. Parecia que tinha ficado contente. Mas possivelmente só estava a ser delicado, penso agora. Esquecia-me sempre que os portugueses não gostam de dizer não diretamente. Isso não condiz com os brandos costumes [em português e itálico no original]. No final do telefonema combinámos um encontro numa ocasião qualquer. Por exemplo hoje mesmo. (Letzte Spur Algarve, 53; tradução minha)

Na caixa do correio figurava o nome de Gerda Schneider. Um nome bem alemão. E não o único sinal, de que não estava num local exclusivamente português. Os portugueses não escrevem normalmente os seus nomes nas caixas do correio. Ou nas campainhas das casas. Tanto quanto sei, é uma prática que ficou do tempo da muito receada PIDE, durante o tempo de Salazar. (Letzte Spur Algarve, 104; tradução minha)

[Em Chaves] Alguns minutos depois fumegava um expresso à minha frente e num copo brilhava um Fim de Século cor de âmbar, o melhor brandy que ali havia. Almeida optou por uma aguardente São Domingos, uma aguardente da região da Bairrada. (Letzte Spur Algarve, 176; tradução minha)

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje [em português no original]. Mais um desses ditados da minha infância. Vamos lá, Bela, não podes beliscar-te eternamente. Eternamente não, mas mais um bocado. Na cozinha preparei um prato com tomates, pão, queijo e azeitonas, abri uma garrafa de vinho e fui para a sala com este jantar bem cedinho. Depois de acender a lareira olhei para o relógio. Ainda era cedo, poderia telefonar à Amália. Atendeu ao sétimo toque, quando eu estava para desligar. “Tou?” (Letzte Spur Algarve, 226; tradução minha)

Bibliografia Ativa Selecionada

CONRAD, Carolina  (2018), Mord an der Algarve, Reinbek bei Hamburg, Rowohlt (rororo).

— (2019), Letzte Spur Algarve, Reinbek bei Hamburg, Rowohlt (rororo).

HASKAMP, Bettina  ([2009] 2017), Alles wegen Werner, Berlin, Ullstein.

Bibliografia Crítica Selecionada

ERDMANN, Eva (2009), «Nationality International: Detective Fiction in the Late Twentieth Century», in Krajenbrink, Marieke e Kate M. Quinn, Investigating Identities. Questions of Identity in Contemporary. Questions of Identity in Contemporary International Crime Fiction, Amsterdam, New York, Rodopi.

Gonçalo Vilas-Boas

Como citar este verbete:
VILAS-BOAS, Gonçalo (2020), “Carolina Conrad”, in Ulyssei@s: Enciclopédia Digital. ISBN 978-989-99375-2-9.

Conrad, Carolina