Ribeiro, Gil

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Ribeiro, Gil

(1965-)

Gil Ribeiro é o pseudónimo do conhecido e reconhecido guionista e romancista alemão Holger Karsten Schmidt que com o seu verdadeiro nome assinou cerca de quatro centenas de filmes e quatro séries policiais, sendo ainda criador de importantes figuras de detetives e colaborador em séries de renome como Tatort. Além deste seu trabalho para as mais importantes cadeias televisivas alemãs (ZDF, SWF, ARD, RTL, ProSieben), que lhe valeu destacados prémios (p. ex. Grimme Preis), escreveu para o cinema e aventurou-se, a partir de 2011, no mundo do romance policial (Isenhart (2011); Auf kurze Distanz (2015)).

Originário de Hamburgo, HKS estudou germanística e ciência política, com especial enfoque em ciência dos media, ao mesmo tempo que trabalhava como redator publicitário. Segue-se o estudo e depois a lecionação de guionismo, na Universidade de Baden-Württemberg. Viajante entusiasta, com longas estadias no estrangeiro, deixa-se cativar por alguns países (p. ex. Tasmânia e Nova Zelândia) que visita regularmente. O mesmo acontece com Portugal, onde chegou a primeira vez por mero acaso, aos 23 anos, durante uma viagem de interrail. Alguns anos depois, já casado, compra uma pequena casa na zona em que virão a desenrolar-se os seus policiais portugueses (GR, 2017a: 388).

Em 2017 publica o romance policial Lost in Fuseta. Ein Portugal-Krimi [Um policial em Portugal], anunciado como o primeiro de uma série, na qual se vieram a integrar nos anos seguintes Lost in Fuseta. Spur der Schatten (2018) [L.F. Pegadas das sombras] e Lost in Fuseta. Weiβe Fracht (2019) [L.F. Carga branca]. Os romances giram à volta da figura do subcomissário alemão Leander Lost, cujo nome está na origem do jogo polissémico que o título encerra, e anunciam-se, desde logo, como fazendo parte dos romances policias contemporâneos que cruzam o género criminal com o do roteiro de viagens. A série “Lost in Fuseta” é, pois, mais uma série policial passada no ambiente do Sul, desta feita numa pequena vila piscatória no Sotavento algarvio.

Todavia, a busca por um acréscimo de suspense e de alteridade não advém neste caso apenas do contexto cultural em que a trama policial decorre: Leander Lost, o comissário alemão que chega ao Algarve por via do programa de intercâmbio da Europol, é uma exemplo de detetive / polícia peculiar, com traços de anti-herói, já que, como Sheldon Cooper da Big Bang Theorie ou Dr. Murphy de The Good Doctor, pertence ao grupo das figuras ficcionais autistas ou portadoras do síndrome de Asperger que se tem vindo a afirmar no cinema e em séries televisivas. As histórias à volta da figura de Leander Lost – cujas potencialidades narrativas são destacadas pelo autor, nomeadamente quanto a “questões mais profundas, como o sentido da vida humana” (GR, 2017b) – oscilam, assim, entre o texto policial, o relato de viagem e o romance psicológico. Não raro são as duas últimas dimensões que ganham a primazia nesta espécie de utopia portuguesa, a que a perspetiva do estrangeiro empresta um olhar entre o maravilhado e o condescendente.

O primeiro romance, Lost in Fuseta. Ein Portugal-Krimi, gira em torno do homicídio de um detetive particular e conduz a uma história de corrupção em que estão implicados uma multinacional suíça instalada em Portugal e também um polícia português. Para a atualidade da trama concorre ainda o facto de os crimes estarem ligados à escassez e à exploração criminosa de recursos naturais. O segundo romance da série, Lost in Fuseta. Spur der Schatten (2018), conduz o leitor ao passado colonial português, assunto que a literatura alemã sobre o Portugal contemporâneo retoma regularmente, bem como ao relacionamento de Leander Lost com uma mulher, também ela portadora do síndrome de Asperger. No terceiro e último romance, Lost in Fuseta. Weiβe Fracht, a investigação sobre uma rede de tráfico de droga desenrola-se num ambiente internacional em que colaboram investigadores portugueses, espanhóis e alemães, o que permite a ativação e/ou o distanciamento parodístico face a uma série de estereótipos identitários. mais uma vez com um saldo positivo para aquilo que é apresentado como os traços do “ser e viver português” (a lentidão, a indisciplina, o trânsito caótico, o sentimentalismo, mas também a espontaneidade, a capacidade de improvisação e a intuição), numa afirmação de identidade nacional que os textos policiais (e de viagem) tendem a enfatizar.

É certo que há muito de realismo nas descrições topográficas detalhadas de um Algarve a três tempos (a revelar o bom conhecimento que HKS tem do Sul de Portugal) – com os resorts e os campos de golfe de frequência cosmopolita do Barlavento a ceder protagonismo a um Algarve piscatório, dolente e popular do Sotavento, ainda relativamente preservado de turistas, e um interior rural e/ou desertificado – em que as descrições entusiasmadas da beleza da paisagem e das praias (o mar/ a luz/a cor/o calor) tratam especialmente lugares recônditos e genuínos. Mas o Algarve de GR é também uma tela de projeção de fantasias de fuga, em que o país visitado se constrói em oposição àquele do qual se pretende fugir. Assim, no quadro algarvio pintado por Gil Ribeiro plasma-se a antinomia com uma Europa central da civilização que se deixou para trás e que se parece querer exorcizar na acentuação dos contrastes, numa dinâmica de oposição que caracteriza muitos textos de viagem contemporâneos (Cordeiro 2013: 145).

Se na descrição da paisagem, do clima e ainda da comida, amplamente tematizada também, se revela grande simpatia por Portugal, é na descrição da paisagem social e humana que se consubstancia aquilo que apelidei de utopia portuguesa.

Os retratos dos dois subcomissários portugueses que partilham a equipe de investigação com Leander Lost, bem como a família, vizinhos e amigos da subcomissária Graciana Rosado constituem um painel humano diferenciado, que revela a mestria do autor para criar em poucos traços figuras de grande vivacidade e humanidade. Todos confluem na capacidade não só de integrar “o outro” com grande respeito pelas diferenças, mas também de descobrir e promover o que de melhor há em cada um desses desprotegidos; vejam-se as figuras da órfã Zara Pinto e, principalmente de Leander Lost, que não apenas é aceite na sua diferença como, fruto das suas capacidades especiais, considerado uma mais-valia, tanto a nível profissional como humano.

Todavia, Portugal não deixa de ser apresentado como atrasado e bizarro, idílico e melancólico, apostado na preservação de arcaísmos referentes a determinadas memórias culturais, nomeadamente do seu passado colonial (que os escritores alemães tendem a considerar) não resolvido. Leia-se, a este propósito, a caracterização dos portugueses feita por Leander Lost, desta feita investido em porta-voz do autor, e ainda a descrição da reação emocionada e embevecida dos portugueses que o ouvem, a que não falta um leve tom de ironia, pleno de potencialidades distanciadoras (GR, 2017a: 282-284).

Igual ambivalência valorativa e parodisticamente distanciada se esconde por trás da imagem que os portugueses detêm dos alemães e que os faz identificar o comportamento estranho de Leander Lost, com o seu exagerado amor à ordem/as suas tiradas pedagogizantes/ a sua incapacidade de solidariedade humana e as suas tendências delatórias como “tipicamente alemão” antes de o comissário ser “diagnosticado” como autista.

Menor capacidade crítica se trai no afã explicativo do autor e suas soluções para situações que de alguma forma chocam as expectativas culturais do estrangeiro (p.ex. justificar a falta de nomes nas caixas do correio com resquícios da fuga ao controlo exercido pelo Estado Novo (2017a:71) fará rir qualquer português que, pelo seu lado, estranha este costume alemão).

A reação dos leitores comuns a estes romances, que a crítica acolheu de forma laudatória, é relativamente consensual, de acordo com numerosos reviews publicados online: vontade de fazer as malas e rumar ao Sul.

 

Passagens

Portugal, Alemanha

 

Citações

O restaurante Ilhote, a pequena ilha, ficava no fim de um caminho campestre numa minúscula localidade costeira de nome Arroteia, a menos de 10 minutos de carro da Fuseta, mesmo na costa da Ria Formosa.
Quando Leander Lost saiu do carro, a paisagem suspendeu-lhe a respiração. Uma vista sobre a lagoa de brilho esverdeado com centenas, mesmo milhares de pássaros, que voavam à volta ou em marcha ritmada pelas salinas. Pelo meio, carreiros de areia, planos, desertos naquele momento.
«A Ria Formosa», explicou Graciana Rosado, que seguia o olhar do Alemão «vai desde Faro, mais ou menos, até quase à fronteira espanhola».
«Sessenta quilómetros«, acrescentou Carlos Esteves, e nestas duas palavras ecoava um grande orgulho.
Na verdade, a região era todo o ano retiro tanto de aves comuns como raras, já para não falar dos mexilhões que aqui cresciam alegremente e que em caso de necessidade iam nessa mesma noite ou ao meio dia seguinte parar às cataplanas das cozinhas dos restaurantes.
«Já tinha lido sobre isto», respondeu Lealder Lost,«mas o poder do factual é inultrapassável». (2017: 38; tradução minha)

Portugal só tinha um país vizinho, e este olhava-o como a um irmão atrofiado, o que doía aos portugueses, até porque não deixava de ter algo de verdade. Na verdade, eles tinham sido outrora uma potência mundial com colónias na América do Sul, na Índia e na África. Hoje recebiam ajudas estruturais de Bruxelas.
Duarte tinha nascido em Espanha. E mesmo o facto de os pais terem mudado para Faro quando ele tinha sete anos não mudava nada no facto de ele pertencer aos de lá. O que talvez nem tivesse importância – porque ninguém aqui era mesquinho – se ele não fosse tão espanhol em tudo. Falava sempre muito alto, escovava os pelos do fato, refazia a risca sempre que tinha oportunidade e até punha creme nos lábios. Uma constipação banal era para ele uma gripe perigosa, gabava-se de saber dançar – e com razão asseverava Graciana, perante a incompreensão de Carlos – e considerava-se irresistível. (2017: 66; tradução minha)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

RIBEIRO, Gil (2017a), Lost in Fuseta. Ein Portugal-Krimi, Köln, Kiepenheuer & Witsch.
— (2018), Lost in Fuseta. Spur der Schatten, Köln, Kiepenheuer & Witsch.
— (2019), Lost in Fuseta. Weiβe Fracht, Köln, Kiepenheuer & Witsch.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

CORDEIRO, Maria João (2013), “Der Europa-Diskurs in zeitgenössischen Reisetexten: von H.M. Enzensberger zu Pascal Mercier“, in: Hanenberg/Capeloa Gil, Der literarische Europa-Diskurs. Festschrift für Paul Michael Lützeler zum 70. Geburtstag, Würzburg, Könighausen und Neumann, 144-152.

RIBEIRO, Gil (2017b) „Sieben Fragen an Gil Ribeiro“ https://www.kriminetz.de/news/sieben-fragen-gil-ribeiro (acedido A 6. 6. 2018).

Teresa Martins de Oliveira

Como citar este verbete:
OLIVEIRA, Teresa Martins de (2019), “Gil Ribeiro”, in Ulyssei@s: Enciclopédia Digital. ISBN 978-989-99375-2-9.

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