Figueiredo, Fidelino de

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Figueiredo, Fidelino de

(Lisboa, 20/7/1888- Lisboa, 20/3/1967).

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Crítico literário, comparatista, professor, escritor, jornalista, pensador, político. Os primeiros contos e ensaios saíram em 1905, tinha ele 17. No contexto da primeira República, fundou a Sociedade de Estudos Históricos e a Revista de História (1912-1928). Contrariando os pressupostos de Teófilo Braga, reescreveu a historiografia literária portuguesa: O Espírito Histórico, A Crítica literária em Portugal (1910), A Crítica Literária como Ciência (1912), História da Literatura Romântica (1913), História da Literatura Realista (1914), História da Literatura Clássica (1917-1924), etc. Dirigiu a Biblioteca Nacional em 1918-1919, e 1927. Neste ano, participou, com Filomeno da Câmara de Melo Cabral, num golpe contra a ditadura emergente. Condenado ao degredo em Angola, seguiu depois para o exílio. Foi jornalista (1928), conferencista, professor. Trabalhou em Espanha, Inglaterra, Checoslováquia, Estados Unidos, México, Cuba, Argentina – antes de se fixar no Brasil, onde veio a fundar os mais importantes núcleos de estudos de literatura portuguesa (São Paulo, Rio de Janeiro). Regressou já muito doente a Lisboa, em 1951, onde veio a falecer, em 1967. Dividiu o espólio entre a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo.

Não podemos entender o pensamento inquieto de Fidelino de Figueiredo sem o enquadrarmos na inquietude do exílio, da viagem, da leitura e da escrita: todas são formas equivalentes de entender melhor a identidade inacabada. De certa forma, Fidelino lê, e lê-se, através da empatia com a intelligentzia desterrada de Portugal: Garrett, Eça de Queirós, e sobretudo Camões. Segismundo Spina escreverá: “O dia em que se fizer a história de um dos mais extraordinários espíritos que já iluminaram o pensamento crítico do século XX – o de Fidelino de Figueiredo –, dentro dessa longa e profunda trajetória da inteligência se desenvolve, com marcos muito nítidos – uma outra história: a da especulação camoniana, cujas balizas cronológicas coincidem com as dos dois grandes exílios que sofreu na vida: o da pátria na altura de 1930, e o do mundo nos anos de 1952-53” (FIGUEIREDO, 2013: 87).

Nos estudos literários portugueses, foi um dos primeiros críticos, se não o primeiro, a usar a designação de “Literatura Comparada”: “Os estudos de história comparada das literaturas portuguesa e espanhola foram inaugurados pelo curso de trinta lições que […] tive a honra de reger na Columbia University, de New York, em 1931, segundo o programa publicado pela Revue de Littérature Comparée, Paris, 1931, n.º 4” (FIGUEIREDO, 1935: 189).

Foi também um dos críticos que melhor exemplificou a importância dos estudos comparatísticos, muito para além da compreensão etnocêntrica das literaturas nacionais.

Seria objetivo da Literatura Comparada o “descobrimento e demonstração da solidariedade espiritual, do fundo comum que está por detrás dessas coincidências e influências, a literatura geral ou a Weltliteratur de Goethe” (FIGUEIREDO, 1962: 166). Tal objetivo “chega a ser “político e activo” (FIGUEIREDO, 1935: 14-15). Valorizou, talvez como nenhum outro intelectual do seu tempo, o diálogo entre as artes (cf. De regresso de Hollywood, de 1931, ou Música e Pensamento, de 1954). O exílio e a guerra reforçam nele a convicção de que o intelectual-filósofo tem de regressar à caverna de onde fugiu. Podíamos citar a Crítica do Exílio (de 1930). Mas o livro em que essa tensão nos parece maior é A Luta pela Expressão, de 1944. Neste e noutros livros permanecem interessantes os mapas que deixou para uso de futuros viajantes (cf. Aristarchos, passim).

 

Passagens

Portugal, Brasil, Espanha, Inglaterra, Checoslováquia, Estados Unidos, México, Cuba, Argentina

 

Citações (segundo o NAO)

“O japonismo português teve a peculiaridade de sugerir um caso espiritual que muito poucos países terão produzido: a identificação duma alma de superior sensibilidade até ao requinte estético e moral. Sim, porque Wenceslau de Moraes, o principal dos modernos cultores portugueses do japonismo, não fez do império nipónico, da sua vida exótica e pitoresca, só um fecundo tema de ensinamento e diversão para os seus compatriotas, um género literário, fez dele o bordão da sua fadiga, o sentido da sua existência. Deambulando por mares e por terras, gozando o gozo de sofrer, o mais requintado, o mais sugestivo de todos os gozos, Wenceslau de Moraes passeou o seu tédio sem encontrar descanso em porto amigo. Mas um dia descobre o Japão e todas as suas ânsias e forças as concentra na aspiração de nele se projetar anonimamente, de se deixar absorver e assimilar na vida japonesa, onde nada lhe falava do aborrecimento atávico,como u mal de raça, onde tudo era perene de emoção, de encanto e atrativo, onde o mínimo episódioou aspeto lhe despertava docemente a felicidade de compreender e amar, a alegria de viver.

Verdadeiramente, Wenceslau de Moraes trocou a sua alma, como se se houvesse entregado à terapêutica moral daquele engenhoso Doctor Inverosimil, de Gomez de la Serna. Esse ‘doutor inverosímil’, a quem se dirigiam as pessoas que sofriam de males desesperados ante a insuficiência da medicina de base fisiológica e métodos tradicionais, da farmacologia à cromoterapia, punha-se a viver e a reconstruir a existência do doente, até topar, com o seu instinto físico, no pedrouço que anormalizava o funcionamento dessa existência. E o que achava era quasi sempre o domínio ignorado, imperceptível, mas poderoso, daquela alma das coisas que despoticamente se insinua e nos governa. Eram as garras das coisas que prendiam os pobres doentes: umas luvas muito antigas, muito estiradas e herméticas, guardando toda a corrupção do passado; uma barba espessa que mascarava e defendia uma fisionomia e um caráter de receberem simples e sinceros conselhos; o contágio moral de um doente de suicídio a quem lhe assistira; o desenraizamento súbito de hábitos que longo tempo amparavam fraquezas; a poeira de uma biblioteca que anos atrás ia enterrando vivo o seu dono; um relógio com o seu tic-tac a marcar o consumo estéril duma vida; uma luz amarelenta e mortiça que a cauto avarento, sem o saber, ia instilando desejos de morte…”
(Figueiredo, 1925: 12-14)

“Na bibliografia do pessimismo peninsular, a pequena obra de D. José Ortega y Gasset, España Invertebrada, é uma espécie importante, porque organiza esse pessimismo em filosofia histórica, na qual há lógica, embora sem base de realidade. É um tecido de congruentes deduções e não uma verídica exposição de factos averiguados incontroversamente. Mas índice de pensamentos, sendo falso no seu conceito central, contém muitas observações sagazes, a que a espiritual finura do autor deu uma forma clara e admiravelmente sugerente. Abundam na obra as opiniões personalíssimas que prov~em menos da investigação imparcial que de hábitos de espírito e tendências de temperamento, decisivas num discípulo da geração negativista de 1898. […] Há meio século, diz Ortega y Gasset, cria-se que a decadência espanhola datava de poucos lustros atrás. Joaquim Costa e a sua geração fizeram recuar a dois séculos o começo dela. Há quinze anos, quando começou a meditar, Ortega y Gasset intentou mostrar que essa decadência abarcava toda a idade moderna da história do seu país. Logo, estudando e refletindo melhor, o mesmo crítico estimou que a decadência espanhola não foi menor na idade média que na moderna e contemporânea. […] Mas no ânimo do escritor chega a perpassar a suspeita de que tenha cedido a um jogo de palavras, pois sendo essa decadência perpétua, torna-se, antes, uma característica constitucional. E assim a considera Ortega y Gasset, atribuindo-a à falta de pluralismo psicológico, de potenciação individualista, noutros países derivada do teor de vida do feudalismo. Mas no seu espírito levanta-se a objeção considerável da conquista e colonização americana, única coisa “verdadeiramente, substancialmente grande, que fez a Espanha”. E o escritor, que é um lógico severo, ladeia o embaraço, considerando a colonização espanhola como obra popular e recaindo uma vez mais na sua tese dileta: o anonimato da história espanhola e a constante carência de um escol, “de los mejores”. Em Espanha – proclama – tudo foi feito pelo povo; o que o povo não fez, ficou por fazer. […] A lenda negra, que os amaneirados cortezãos, filantropos e enciclopedistas do século XVIII arquitetaram e puzeram a correr, é que reduziu as magnificências homéricas da conquista americana a uma torpe aventura sanguinária da escumalha social da península. É falso. […] Numas palavras atribuídas ao Cid, o herói nacional, vê Salaverria [José Maria de] o princípio e a definição da história de Espanha: “Quem mora sempre num lugar, o seu, o que possui, parece diminuir-se…” Isto que é uma chã filosofia do progresso, foi a grande força que impelui os conquistadores, […] a ensinar á Europa dementada um sentido novo da vida.”
(Figueiredo, 1925: 170-174)

“Medito e perscruto e não me acode outra esperança. Senão a que me sugere aquela imagem do idealista uruguaio, que de olhos postos no mar, considerava a infinita variedade da sua cor, sempre nova, só porque uma nuvem cruza pelo céu ou um raio de sol rasa o lombo das ondas; assim também esse outro mar, que é a multidão dos homens, às vezes, ao toque leve e subtil de uma dessas coisas aéreas, ligeiras e ideais, se rende como a cera ao molde, à debilidade todo poderosa da palavra dum poeta, à promessa dum sonhador…”
(Figueiredo, 1925: 183)

“A ufania do marinheiro português no século XVI, na hora triunfal do imperialismo e das suas glórias; o refugio seguro das suas inseguranças, que o mar oferece aos perigos e sofrimentos da terra; o paralelo da volubilidade do mar e de inconstância do destino dos homens, são temas favoritos desses poetas que, ideando da margem, não deixam de prestar um bom serviço: alforriar o oceano dos cânones da estética clássica, da sua adjetivação e daquelas tempestades virgilianas, obrigatórias nas epopeias.”
(Figueiredo, 1925: 221-222)

“Ver o mar da praia ou das arribas é ver um painel, é colher somente sensações visuais riquíssimas embora, mas sem que nos contagie a influência profunda do mesmo mar, como quem mira um quadro na quietude dum museu não altera o seu teor de vida quotidiana por efeito das imagens que a fantasia do pintor lhe fez ver. Seguro na sua estética contemplação, o escritor praieiro está longe do pensamento dominante do marujo, aparelhar a alma para a morte, no dizer camoniano, e do mar conhece uma modalidade diversa, uma fisionomia mascarada, porque o mar ao contacto da terra disfarça-se, com certas pessoas em sociedade se constrangem e desfiguram.”
(Figueiredo, 1925: 245-246)

“Júlio Verne satisfazia-nos a sede de movimento, a ânsia de devassar e conquistar novos horizontes para os olhos e para a alma, com um conceito de heroísmo, que se aproxima muito daquele, ingenuamente expresso por Cid, El campeador, que a´pos o triunfo, bradava aos seus, inquietamente:
Cras a la mañana pensemos cabalgar,
Dexat estas posadas e iremos adelant…”
(Figueiredo, 1925: 254)

“É do puro domínio da inteligência a inquietação de Eça de Queiroz, que varejava tipos e recantos sociais para lhes incutir o descontentamento e lhes criar a necessidade do grande ar e do ar novo. E fê-lo de longe, porque Portugal só se entende bem de longe; e voltou, pelo menos em espírito, porque os portugueses voltam sempre. É por isso, com os seus francesismos e tudo, profundamente português e profundamente humano.”
(Figueiredo, 1945: 23)

“São muitas as limitações que apoucam o homem, inexoravelmente encarcerado no pequeno mundo de si mesmo. E uma das mais cruéis dessas limitações é a escassa capacidade da sua memória, de alcance muito menor que a sua curiosidade intelectual. Não lhe é dado guardar na sua lembrança viva e militante o que vai conquistando em cada dia pela inteligência. O comum dos homens apenas pode armazenar o que diretamente respeita à consciência do seu ser e à sua conservação. Por isso, desde que o saber se foi avolumando houve necessidade de conservá-lo em registros estranhos à unidade pessoal do homem – todos esses artifícios da escrita, que principiam nas insculpturas rupestres e atingem a requintada arte moderna do livro.”
(Figueiredo, 1941: 37)

“E não será toda a criação literária da península [ibérica] uma suprema expressão verbal do heroísmo e do amor? Uma caminhada erudita, através das duas literaturas muitisseculares, descobre sempre os dois filões, a celebração do espírito heroico à ventura pela ampla meseta central e a celebração do espírito lírico rem devaneio pela costa atlântica e por terras e mares distantes…. Como na lenda de Pyrene: Hércules, vencido e estimulado logo pelo amor, venceu a Gelião de além Atlântico e impôs às suas terras tenebrosas a vitória da luz…”
(Figueiredo, 1935: 9)

 

Bibliografia ativa selecionada

FIGUEIREDO, Fidelino (1915). Características da Literatura Portuguesa, reimpressão revista, Lisboa, Liv. Classica Editora de A. M. Teixeira.
—— (1925). Torre de Babel, 2.º milhar, Lisboa, Emp. Literária Fluminense.
—— (1930). Critica do Exílio, Lisboa, Liv. Clássica Editora
—— (1933). Menoridade da Inteligência, Coimbra, Imp. Da Universidade.
—— (1935). Pyrene. Ponto de vista para uma Introdução á História Comparada das Literaturas Portuguesa e Espanhola, Lisboa, Emprêsa Nacional de Publicidade.
—— (1941). Aristarchos. Quatro conferencias sobre Methodologia da Crítica Litteraria no Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, Brasil, 2.º [sic] ed., Revista e precedida de dois estudos de Tristão de Athayde, Rio de Janeiro, Liv. H. Antunes.
—— (1944). A Luta pela Expressão. Prolegómenos para uma Filosofia da Literatura, Coimbra, Editorial Nobel.
——/ pref. (1945). Eça de Queiroz visto por um Argentino, de A. J. Bucich, Porto, Figueirinhas.
—— (1953). Um Colecionador de Angústias, Lisboa, Guimarães Editores.
—— (1957). Um Homem na sua Humanidade, 2.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores.
—— (1958). Música e Pensamento, 2.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores.
—— (1959). Entre Dois Universos, Lisboa, Guimarães Editores.
—— (1962). Ideário Crítico de…, org., pref., notas de C. Assis Pereira, São Paulo, USP/ FFCL.
—— (1964). Símbolos & Mitos, s.l., Publicações Europa-América.
—— [1941b]. Últimas aventuras, Rio de Janeiro, Emp. A Noite.

 

Bibliografia crítica selecionada

CARNEIRO, Mário (2004). O Pensamento Filosófico de Fidelino de Figueiredo, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
CARVALHO, Amorim de (1974). Fidelino: um Filósofo da Transitoriedade, São Paulo, Boletim 19, Língua e Literatura Portuguesa, n.º 353.
Colóquio Letras. No Centenário de Fidelino de Figueiredo, Lisboa, F.C.G., n.º 112, Nov.-Dez. 1989, pp. 7-22.
FIGUEIREDO, Nuno Fidelino de (2013). Fidelino de Figueiredo visto por seus discípulos, Bahia, Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes.
MARTINS, José Cândido de Oliveira (2007). Fidelino de Figueiredo e a Crítica da Teoria Literária Positivista, Lisboa, Instituto Piaget.
SERRA, Pedro (2004). Um Intelectual na Fobolândia. Estudos sobre o Ensaismo de Fidelino de Figueiredo, Coimbra, Angelus Novus.

Maria Luísa Malato