Torga, Miguel

: : print

Torga, Miguel

(pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha)

(1907-1995)

“Geófago insaciável”, como se autocaracterizou (Torga, 1976:149), Miguel Torga teve nas suas experiências de viagem e nas suas deslocações ou passeios um amplo terreno de análise que aproveitou e textualizou de diferentes formas, perspetivando o espaço em estreita relação com os seus habitantes e perscrutando o seu telurismo e iberismo num exercício frequente de redimensionamento humano. Partir é um verbo fundamental para este escritor transmontano, nascido em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, pelo que ele representa de possibilidade de, saindo do território conhecido, aferir coordenadas humanas e formas de estar e de ver o mundo. O seu poema “Viagem” é precisamente esse repto em favor da busca de outras latitudes, na crença de que, por mais tenebroso que se revele o percurso, ele é sempre preferível à paz tolhida de um qualquer cais.

A primeira experiência de deslocação aconteceu cedo para Miguel Torga, primeiro numa curta e fracassada tentativa de emprego na cidade do Porto, depois numa estada no Brasil, que o manteria afastado das encostas durienses durante cinco anos. A primeira deslocação quase não teve repercussões a nível da textualização do sentir do espaço citadino e dos seus eventuais reflexos na construção do homem e do escritor. No Porto, onde esteve ainda menino e a servir em casa rica, o espaço citadino apetecível era o da deambulação, fugindo aos constrangimentos da sua condição de criado.

Pelo contrário, o Brasil deixará marcas profundas e duradouras. Experiência dorida de um desterro necessário para escapar à pobreza fatal de um destino de ruralidade a que o seu pai o queria poupar, fracassada que foi também a hipótese de vir a ser padre, a viagem para o Brasil revestiu-se de uma coloração iniciática. Não eram já os quilómetros de S. Martinho ao Porto ou ao seminário de Lamego, mas havia agora um oceano a separá-lo da afeição da casa paterna e dos ares transmontanos, e um trabalho duro, entre gente estranha. E é interessante avaliar a perceção do espaço e a experiência da deslocação em função dos olhos e do sentir do adolescente desarreigado de forma radical do seu chão (tal como elas são textualizadas n’A Criação do Mundo), e as do adulto que reflete e contextualiza o Brasil como terra de emigração e do El Dorado português (como se expõe nos Ensaios e Discursos).

O adolescente abismou-se perante uma terra em tudo diferente da pátria. O espanto sempre renovado perante uma natureza exuberante de viço, cor e variedade, e usos e costumes estranhos, deu-lhe a perceção de que pisava um terreno movediço, e a estranheza aterrada diante das sessões espíritas e dos curandeiros criou-lhe a noção de uma terra de maravilha, em que tudo era motivo de assombro e de excitação dos sentidos. Aos poucos, foi-se sedimentando a ideia de que é possível amar uma outra pátria, desta feita uma que se deixou embutir nos sentidos e, por isso mesmo, se torna afeição orgânica, sem por isso deixar de ser um lugar “outro”, porque “uma pátria não pode ser sósia de nenhuma outra” (Torga, 2000a:130) e não se pode ir lá em busca da sua própria imagem.

Os que isso entendiam e que, como tal, viam no Brasil uma terra de “policromias humanas” e naturais impossíveis de raspar dos sentidos depois de lá viver o suficiente, ficavam a braços com ambivalências difíceis de gerir. Esse era, segundo Torga, o perfil do emigrante português, movendo-se numa zona brumosa onde se era e queria continuar a ser português, mas onde já não era possível deixar de se sentir pertencer também ao outro lado do Atlântico. Sempre zeloso no esquadrinhar das relações do homem com o chão que o viu nascer ou que o acolhe, Torga chamará a estes emigrantes divididos entre duas pátrias “homens ubíquos”, reconhecendo-lhes o potencial de influenciar a Europa e de condicionar o seu modo de olhar o que até meados do século XX era chamado o “Novo Mundo” (Torga, 2000a:132-133).

A ligação ao Brasil motivará posteriormente algumas viagens do autor, nomeadamente para intervir como orador nos centros transmontanos de S. Paulo e do Rio de Janeiro. Nessas comunicações, Torga enfatizará a importância de o ser humano cruzar territórios e vivências, para aguçar os sentidos e se ir redimensionando na sua escala humana, tópico que retomará frequentemente nas suas reflexões diarísticas. A vida deste médico e escritor fez-se, como seria de esperar, de caminhadas, de passeios e de viagens, onde cada espaço constituía simultaneamente uma coordenada geográfica e um molde humano, aferidos, porém, sempre a partir de uma medula transmontana que exigia incursões frequentes pelas penedias e o afago periódico da aldeia natal.

Das províncias portuguesas, que calcorreou de lés-a-lés, foi construindo a sua topografia íntima e a noção de pátria, que lhe era cara, aquilatando-a com o sentimento de iberismo que se fazia mais pungente e ambíguo, sempre que passava a fronteira para Espanha, onde se sentia bem. Convencido de que a largueza geográfica conferia largueza de espírito e que os espanhóis, como outros povos em geral, pensam e constroem em grande e por isso são grandes, deliciava-se na contemplação das praças e das catedrais e lamentava que Portugal fosse sobretudo um país de capelinhas (Torga, 1987:80-81).

A passagem da fronteira espanhola em particular é um tópico recorrente através do qual equaciona o presente e o passado das relações entre os dois países. A forma como refere as suas “surtidas” (cujo significado sintomaticamente esclarece – “saída de sitiados contra sitiantes”) mostra, porém, uma consciência vincada de fronteira, que o faz admitir que os “marcos fronteiriços” do instinto ainda não tinham sido arrancados, o que o faz ver nos portugueses “súbditos potenciais” (Torga, 1991:142) e na vastidão geográfica e monumentalidade da vizinha Espanha “instrumentos virtuais de domínio”, ideia que posteriormente se esbaterá à medida que a sua portugalidade foi encontrando na geografia portuguesa o terreno conforme ao seu destino humano.

A sua alma ibérica confrontou-se ainda, repetidas vezes, com o estrangeiro, assim que lhe foi autorizada a saída do país pelo regime, desta feita em viagens pela Europa, África, Ásia e Américas, em roteiros que eram sempre perspetivados como enriquecimento humano e exercício comparativo de valores humanos, ou, às vezes, necessidade imperativa de “sair”, em libertação da atrofia do país, que cerceava os espíritos (Torga, 1973:178). O regresso era, porém, sempre eivado de sentimentos ambivalentes: vincava-se mais a certeza de que a sina dos portugueses é “não caber no berço” (Torga,1990:31) alimentando uma vocação dispersiva e planetária e, por outro lado, confirmava-se a cada regresso a sua natureza telúrica, que lhe exigia regularmente uma injeção de seiva do chão nativo. É esta sua filiação íntima no mito de Anteu que ajuda a contrariar, ou pelo menos a esbater, a frustração e o desânimo de regressar à pequenez portuguesa que não sabia gerir a sua vocação de além e o fazia considerar que eram “Felizes os que nunca daqui saíram” (Torga, 1976:129) por não sofrerem a desilusão do confronto.

Transmontano e devotado ao Douro e às fragas, fez dessa paisagem nortenha a sua impressão digital e por ela explicou o seu humanismo radical e a sua tenacidade hirta e pedregosa, mas sempre nobre, como o granito. As suas coletâneas Contos da Montanha, Novos Contos da Montanha e até, em certa medida, Bichos, refletem a sua devoção à terra transmontana e à fibra humana que ela produzia, para o bem e para o mal. Trás-os-Montes foi, desde sempre e para sempre, para este autor, um reino maravilhoso, povoado de gente singular e durante muito tempo remetido ao esquecimento do resto do país. Estes contos adquirem, por isso, um cunho testemunhal de um modo muito próprio de estar na vida e são uma forma de textualizar, através da ficção, a afeição orgânica de um autor pela sua terra e pelas suas gentes.

S. Martinho de Anta ficou sempre a sua paisagem, o tropismo de retorno à origem onde ia buscar “terra nas unhas” para aguentar os embates de outras paragens. E, ainda que pontualmente a aldeia natal seja remetida a uma “arqueologia de sentimentos” (Torga, 1978:56), ela é, de facto, esse local matricial de referência donde irradiam e a partir do qual se perspetivam todos os caminhos. Confrontado com a necessidade de a contextualizar na sua geografia íntima sempre que lá ia (e ia muitas vezes), mas reconhecendo a redundância desse exercício, concluirá que “Tudo o que é ritual só é formulável uma vez”.

 

Passagens

Portugal, Brasil, Espanha, Angola, Moçambique, Europa, México, Ásia, Macau …

 

Citações

“ (…) O Novo Mundo era agora uma nova pátria embutida nos sentidos. Nada de raciocinado, de construído, de voluntário. Assimilação, apenas. Impregnação indelével de tatuagem. Vacina que pega e que, mesmo quando a imunização acaba, deixa uma marca na pele. A marca das Américas em todos quantos aqui vêm e aqui se demoram o tempo dum abraço total.
São estas duas vivências que tenho do Novo Mundo, uma inteiramente intelectual, a outra infiltrada no sangue. E, se a primeira pode não encontrar partidários incondicionais, a segunda é certamente subscrita por quantos tenham uma experiência análoga e não pensam a América, mas se encorporam nela sem deixarem de ser europeus. E eu não sei, em limpeza de alma, a que prefira.
De resto, além de que todos escrevem, comunicam com os parentes, e vão assim formando opinião, muitos desses homens ubíquos, com um pé lá e outro cá, ambos enraizados, regressam às vezes ao torrão natal. E no comportamento, na fala, nas ideias e nos hábitos adquiridos influenciam a Europa e condicionam também o seu modo de olhar o Novo Mundo. Uma razão a mais para que o testemunho deles não seja desprezado.” (Ensaios e Discursos: 132-133)

“Confundo no mesmo espanto a Ursa Maior e o Cruzeiro do Sul, a flor do ipé e a do rosmaninho, a água do Doiro e a do Paraíba. Misturo tudo. E esse dualismo interior mortifica-me o coração. Torna-me inseguro e vulnerável. A minha unidade telúrica desintegrou-se. E convivem na mesma carcaça dois seres opostos. Um, europeu, de medidas greco-latinas; outro, americano, anárquico e transbordante. E nenhum vence o adversário, triunfa definitivamente do incómodo companheiro. Caminham ambos a par, negando cada qual o vizinho.” (idem:174)

Constantinopla, 11 de Setembro de 1953 – (…) Gostei sempre de atravessar fronteiras e a maior parte das que transpus pareceram-me artificiais. Mesmo que a língua se esforçasse por diferençar os homens, identificava-os a história, a filosofia, ou qualquer outra força evidente e niveladora. Mas quando deixei a Turquia ocidental e passei à oriental, senti pela primeira vez na vida a emoção profunda de encarar cada indivíduo com a perturbação de ter possivelmente um profeta diante de mim, ou de, no mais trivial incidente, estar a assistir a qualquer milagre sem olhos interiores para o ver.” (Diário VII:48-49)

S. Martinho de Anta – Este tropismo que me traz à fonte nativa é uma espécie de incorporação periódica na minha classe. Venho, integro-me e parto depois de licença.” (Diário VIII:86)

Gerês, 26 de Agosto de 1958 – (…) Graníticos e orgulhosos, os píncaros viam-me aproximar e cerravam a catadura. Mas levei ao alto de todos a minha cordialidade humana. Por honra da firma, como já disse, e por serem a única grandeza de Portugal com que apetece a gente medir-se.” (idem:151)

Nova Lisboa, 30 de Maio de 1973 – (…) Dois lados de uma medalha: no verso, a fisionomia árida e leviana do branco, que não conseguiu traduzir séculos de presença numa missão histórica; no reverso, a do negro, humilhado na sua inocência tribal ou degradado na sua destribalização. Os musseques de Luanda são os bairros de lata de Lisboa. Em ambos se processa a mesma dissolução humana.
(…) E eu sou um homem de impressões digitais, das mãos e dos pés. O sulco do arado é tão impressivo para mim como o traço da caneta. Leio tanto numa lavrada alentejana como num livro. E que posso eu ler nestas extensões incultas, selvagens, ainda na pureza original dos primeiros dias da criação? Apenas as potencialidades genesíacas de uma grande terra de promissão.” (Diário XII:23-24)

“Quanto mais longe vou, mais perto fico / De ti, berço infeliz onde nasci. / Tudo o que tenho, o tenho aqui / Plantado.” (idem:39)

“Em toda as terras da pátria, é da minha confrontação que se trata, antes de mais. Estou ou não estou certo ali? As pessoas, os monumentos e o ar que se respira cabem em qualquer das páginas que escrevi? A grafia não destoará de alguma maneira no seu foral?” (idem:162)

“Londres, 1977 – É, realmente, uma penitência andar pelo mundo a cabo com Portugal às costas.” (idem:201)

“Começo a caber na pátria. Já não olho a fronteira com a inquietação de outrora. O corpo e o espírito vão-se acostumando à ideia de que os sete palmos nacionais de terra chegam perfeitamente para consumar um destino humano.” (Diário XIII:118)

Aeroporto de Montreal, Canadá, 4 de Março de 1984 – (…) Num plaino imenso assim, coberto de neve, só consigo imaginar homens igualmente rasos e gelados, que mal poderão compreender um sangue ibérico, tumultuoso e quente. Homens como que a hibernar dentro da condição.” (Diário XIV:79)

Oaxaca, México, 6 de Março de 1984 – (…) Entretanto, vou gastando o resto das horas a percorrer a pé e a comparar na memória a cidade colonial barroca do conquistador com a Ouro Preto mineira, barroca também, pondo em paralelo o génio castelhano e o português, um sempre desmedido e o outro sempre maneirinho, um a erguer catedrais e o outro a construir capelinhas. Não há dúvida: até fora da península a nossa heterogeneidade se manifesta. Somos iniludivelmente uma singularidade nacional no temperamento, na acção e na cultura. Temos é pouca consciência disso.” (idem:80-81)

Paris, 4 de Junho de 1987 – (…) E, a sentir já saudades da pacatez do lar, aí venho eu, como agora, desafiar a auto-suficiência francesa ou qualquer outro estigma igualmente alheio e incómodo, na crispação, confessada ou inconfessada, em que estamos sempre diante daqueles que mal reparam em nós, ou então nos julgam e condenam de uma penada. Mas gosto de me ver em terra alheia. É uma das maneiras de perspetivar a minha, a que medularmente me importa. O que eu tenho aprendido de Portugal longe das suas fronteiras!
Sobra, fora delas, muito do civismo de que carecemos. Mas não há sombras da humanidade de que somos pródigos.” (Diário XV:19-20)

Macau, 8 de junho de 1987 – (…) Nunca tinha tido uma experiência assim de caminhar tantas horas em levitação. Tudo nesta terra é simultaneamente natural e mágico, concreto e abstracto, imóvel e fugidio. (…) Durante um banquete a que assisti, houve uma exibição de ranchos folclóricos. E lá vi a dança do dragão e o vira do Minho de mãos dadas no mesmo palco, a conciliação insólita da profundidade mítica com a superficialidade coreográfica. (…) Miragem tangível, desafio à nossa razão, à nossa sensibilidade e ao nosso senso comum, Macau não é uma realidade que se apreenda com nitidez. É como que um sonho confuso de Portugal.” (idem:22)

 

Bibliografia ativa selecionada

TORGA; Miguel
. (2000)a, Ensaios e Discursos, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
. (2000)b, Poesia Completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote.
. (1991), A Criação do Mundo, 1ª edição conjunta, Coimbra, edição do autor.
. (1989), Diário I, 7ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1977), Diário II, 4ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1973), Diário III, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1973), Diário IV, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1974), Diário V, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.
. (1978), Diário VI, 3ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1983), Diário VII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.
. (1976), Diário VIII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.
. (1977), Diário IX, 2ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1991), Diário X, 2ª edição revista, Coimbra, edição do autor.
. (1991), Diário XI, 2ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1986), Diário XII, 3ª edição revista, Coimbra, edição do autor.
. (1983), Diário XIII, Coimbra, edição do autor.
. (1987), Diário XIV, Coimbra, edição do autor.
. (1990), Diário XV, Coimbra, edição do autor.
. (1993), Diário XVI, Coimbra, edição do autor.
. (1990), Bichos, 18ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1987), Contos da Montanha, 7ª edição, Coimbra, edição do autor.
. (1975), Novos Contos da Montanha, 6ª edição revista, Coimbra, edição do autor.

Maria José Dias (Setembro 2016)