Paulino-Neto, Brigitte

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Paulino-Neto, Brigitte

(1953)

brigminEscritora francesa descendente de uma família de portugueses há muito radicada em França, Brigitte Paulino-Neto tem dedicado a Portugal uma subtil e simbólica atenção narrativa que, apesar de incluir apenas, até à data, três romances e dois outros textos de caráter declaradamente autobiográfico e ensaístico, a tornam num dos casos mais interessantes do ponto de vista da presença de Portugal e da cultura portuguesa na literatura francesa contemporânea.

Licenciada em Filosofia pela Sorbonne, cedo viria a ligar-se ao mundo das artes, quer enquanto crítica (dança, teatro, artes plásticas), primeiro no jornal Libération e, depois, na revista Vogue, quer enquanto responsável editorial como aconteceu, durante vários anos, na Opera de Paris.

No final da década de 70 (1977-1989), viveu e trabalhou em Portugal, como professora de sociologia, de cultura e civilização francesa. Depois, com exceção das visitas ocasionais de âmbito familiar, apenas regressaria de forma mais prolongada ao espaço português em 1994, mas desta feita enquanto romancista, com La Mélancolie du Géographe, cuja ação decorre no sul de Portugal, para os lados do Algarve, envolvendo numa relação tão visceral quanto obscura e alegórica, um geógrafo (o narrador), Morgado (um proprietário de terras) e uma camponesa (Rosa Maria).

A estranheza profunda desse livro de estreia, que chegou a ser finalista do Prémio Médicis, não escaparia a Eduardo Prado Coelho, então adido cultural na Embaixada de Portugal em Paris, que sobre ele escreveu estar-se “perante um olhar paradoxalmente marcado por uma espécie de intimidade exterior à realidade portuguesa, e por isso capaz de renovar com lucidez, crueldade, e uma confusa e infinita ternura, as mitologias nacionais mais ou menos saturadas e exangues (Coelho, 1997: 391).

De um modo geral, tanto em França como em Portugal, a crítica jornalística mostrar-se-ia sensível ao universo narrativo da autora, apesar de quase sempre ter insistido numa categorização “emigrante” que, além de errónea no que toca ao estatuto civil da escritora, iludia também aqueles que procurassem ver na sua obra sobretudo a expressão do universo dos emigrantes portugueses em França.

Alguns anos mais tarde, em 2003, Brigitte Paulino-Neto voltou à matéria de Portugal com uma narrativa não menos complexa e simbólica, fazendo interagir várias relações intertextuais com a conhecida história infantil do “Barba-Azul” e com uma das suas recriações dramáticas, por Georg Trakl, bem assim como sugestivas interferências entre o português e o francês, de que é exemplo sintomático o jogo a partir do título do romance – Jaime Baltasar Barbosa, cujas iniciais, JBB, permitem também entender “J’aime Barbe-Bleu”. No seu todo, a obra representa uma subtil dramatização dos sentimentos provocados pelo lugar das origens e pelos labirintos instintivos e atávicos e das relações humanas. Tal como já acontecia em A Melancolia do Geógrafo, com Rosa Maria, também em Jaime Baltasar Barbosa, Portugal surge consubstanciado numa figura humana, desta feita, um joalheiro e logo amante, que começa por contracenar, em sonho diegético e inevitável leitura psicanalítica, com a figura paterna, para depois se identificar com aquela personagem fantástica do gigante, que o seu próprio nome simultaneamente esconde e revela. É em torno desses efeitos de alteridade, conjugados aqui também numa relação triádica envolvendo uma narradora sugestivamente luso-descendente, que o romance vai configurando toda uma rede de sinais e de ligações, entre o desejo e o interdito, até ao (auto-)sacríficio derradeiro.

No seu mais recente romance, Dès que tu meurs appele-moi ( 2010), Brigitte Paulino-Neto volta aos “labirintos da filiação”, desta feita através da complexa relação entre as figuras da narradora e a da mãe, arriscando cada vez mais nas fronteiras do espaço autobiográfico, sem contudo cair nalguns jogos desresponsabilizantes da chamada “autoficção”. Não seguindo o modelo narrativo tradicional da saga familiar, somos aqui conduzidos pelo trabalho da memória individual que se cruza também com a história coletiva, traçando assim uma interessante perpetiva interiorizada da complexidade das relações entre Portugal e França, entre as décadas de 30 e de 90 do século XX), através das tensões e ambivalências vividas no seio de uma pequena família ligada à emigração portuguesa em França.

Aos leitores não passarão despercebidos alguns apontamentos agudos, se não mesmo agrestes, sobre Portugal e os portugueses, ao longo dos referidos romances. Seria, contudo, completamente desadequado pretender retirar daí quaisquer ilações imagológicas ou ideológicas lato sensu, sem ter previamente em conta que essas notas se integram numa moldura enunciativa muito particular, implicando, num caso, um geógrafo em extravio constante de lugares e afetos, noutro, uma produtora de emoções em visitação da sua própria duplicidade e, noutro ainda, uma narradora em trabalho de luto. Por outras palavras, não estamos perante uma lógica de verdade sobre o espaço referenciado, mas perante as tensões dos afetos que se recriam e se reproduzem, aquém e além da experiência e das exposições autobiográfica e/ou ensaística. Pode assim dizer-se que, num e noutro caso, por simultâneas repulsa e atração, estão antes de mais em causa ajustes de contas, não exatamente com Portugal, mas com as origens (quaisquer que elas sejam), com o tempo da infância e com a ambivalência dos sentimentos de pertença, que oscilam entre o domínio e a escravidão. Toda essa panóplia de sentimentos e de reflexões vai sendo descravada de alguns recantos epifânicos do próprio trabalho de verbalização dos próprios sujeitos-narradores, por vagas e encadeamentos que fazem com que “tudo se minta e desminta na persistente ilusão de que as palavras dizem mais do que o próprio mistério em que se movem” (Coelho, 1997: 391)

Não obstante essa ressalva quanto ao enquadramento do universo diegético, é natural que, do ponto de vista da receção, pelo menos em Portugal ( e quando essa receção chega a existir…), a matéria portuguesa dos romances de Brigitte Paulino-Neto surja como uma espécie de espelho alheio a reverberar um mundo que sentimos como nosso. Esse efeito torna-se tanto mais impressivo quanto o distanciamento ambivalente que nele sentimos denota a gravidade de uma forma composta, como num ritual introspetivo, onde o sujeito se debate entre luz e trevas, numa equação potencialmente fecunda, tal como aquela que própria autora descobre, ao reparar na homofonia entre “órfã” e “or fin”, quando acompanha o corpo da mãe na sua última viagem para Portugal (Paulino-Neto, 2000: 31).

 

Passagens

Portugal, França.

 

Citações

Vou mais longe – o álcool, a noite, tornam-me falador – penso que, mesmo no tempo das expedições marítimas, este país não se desfez desse qualquer coisa de infantil. De que é que se tratava realmente? Partia-se numa casca de noz, entregue à providência, ao encontro de um porto que, por mais longínquo que fosse, nunca era mais que o porto em frente. Partia-se de cabeça no ar, sem verdadeiro destino, ao sabor da sonolência, confiando numa embarcação que valia tanto como uma partida em que não se sabe se os dados estão marcados, confiando apesar de tudo na carraca, no galeão, na cave, na caravela, nesse regaço materno em forma de casco. Mas sejamos francos, digo eu: a ideia de comércio, estava tão pouco presente, tão pouco presente a ideia de uma glória assegurada pelo domínio desses corpos estrangeiros, indígenas e terras entregues juntamente com a flora, a fauna, o clima, que se ficava em estado de beatitude, em estado de distracção permanente; sem nunca se compreender nada daquilo. Basta olhar para as cabeças deles no automóvel, o puro fácies português, quadrado, atarracado, de olhos pequenos e tez escura, para compreender: onde quer que se vá, o que sem saber se procura é que nesse lugar para onde se vai tão pouco seguro, uma máscara de asiático ou de africano, ou seja, uma máscara mais forte que a nossa, possa vir a confundir a nossa fisionomia de pobres diabos, alterar esta fez, disfarçar de onde se vem, de onde vêm esta pequena testa e estas mãos curtas: dissipar isso sob outros céus, outras fortunas; algures, o mais longe possível deste monte de pedras, destas árvores enfezadas, deste país que vira desde sempre as costas à terra, lançando-se desde sempre no mar como num precipício. (A Melancolia do Geógrafo, pp. 74-75)

Rua do Ouro, é isso. A mão direita crispada sobre o ombro, eu agarrava de repente o motorista: aqui senhor, é para parar. O homem sobressalta-se com esse gesto de familiaridade. Um mulher que agarra um desconhecido: uma estrangeira. Estrangeira, logo ligeira. Ligeira, é por isso que agarra, manda e paga. Ele mal abrandava. Stop, senhor, é aqui, neste tracejado, mesmo debaixo dos fios do eléctrico, stop, se faz favor: eu estava reconhecer o trompe l’oeil, as colunas, os veios pintados no malaquite falso, a moldura negra e dourada da fachada; esta janela em Lisboa, enquadrada pelo luxo, este encontro tácito, marcado pela intervenção do vídeo que passara no Airbus A343 proveniente de Tóquio, onde, no meio de uma panorâmica sobre a cidade, Lisbon by night, no meio de compras, de uma exibição de xailes e de rendas, tinha surgido, em pela Baixa, esta fachada, e logo, em grande plano, filigrana de ouro. Sim, é mesmo aqui, esta loja. Combien? How much? Quanto é? (Jaime Baltasar Barbosa, pp. 34-35)

Tornei-me escritora, de língua francesa, para me abeirar, por pouco que seja, dessa Patagónia que a beleza da língua portuguesa encerra. (“Vers un pays lointain”, no prelo)

Avant leur départ de Grand -Quevilly, les filles de Ribeiro, le cuisinier, décrivaient à Élisabeth et Faustine le village de Guimarães de Tavares vers lequel leur convoi s’acheminait maintenant, un village, disaient-elles, «tout joli et tout blanc». (…) Jamais il n’avait été question de ces maisons muettes, de ces pierres de granit recroquevillés à flanc de montagne, de ces meurtiières à la place des fenêtres. Ni du fumier dans le patio, ni de cette porte d’étable à pans coupés, derrière laquelle, dans la pénombre, Adélaide, dix ans, assise par terre, se levait pour aller donner sa pitance au couchon. (Dès que tu meurs appele-moi, p. 26).

Entre-temps, une «autre» table était la plus recherchée de Quarteira. Au bout de l’avenida Infante Sagres, face à la mer. Et si ce n’était la meilleure, du moins celle qui répondait du mieux possible à l’idée d’un restaurant «chic» en cet endroit de la côte boudé par la bourgeoisie de Lisbonne, de Rio, Luanda ou Lourenço Marques depuis que, vers la fin du régime salazariste, les promoteurs immobiliers l’avaient livrée à un tourisme de masse. (idem, p. 150)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

PAULINO-NETO, Brigitte (1994), La Mélancolie du Géographe, Paris, Grasset. [trad.: A Melancolia do Geógrafo, trad. de Lurdes Júdice, Porto, Asa, 1995] —- (1997), La Connaissance de la Fleur, Paris, Grasset. [trad.: O conhecimento da Flor, trad. de Lurdes Júdice, Porto, Asa, 1998] —- (2000), “Túmulo de Faustina de Sousa-Amen (Grand-Quevilly 1929 – Loulé 1999)”, in Um País de Longínquas Fronteiras, Câmra Municipal da Guarda, pp. 27-31.
—- (2003), Jaime Baltazar Barbosa, Paris, Verticales.
—- (2010), Dès que tu meurs appelle-moi, Paris, Verticales.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

COELHO, Eduardo Prado (1997), “Brigitte Paulino-Neto: A Âncora de Misericórdia” in O Cálculo das Sombras, Porto, Asa, pp. 390-394.
MARTINS, Lourdes Câncio (2005), “Literatura e emigração:problemáticas da descontinuidade através da experiência ficcional contemporânea (o caso francês)” in Literatura e Migração, Org. Teresa Seruya, Lisboa, Edições Colibri, pp. 81-91.
—- (2004), “La mélancolie du géographe: visão e ficção pós-moderna, retrato e teatro de um mundo português” in Dedalus. Revista Portuguesa de Literatura Comparada, n.º 9, APLC- Edições Cosmos, pp. 291-305.
MENDES, Ana Paula Coutinho (2002), “Das narrações que (também) nos fazem: o imaginário de duas escritoras luso-descendentes traduzidas em Portugal” in Deste Lado do Espelho, Org. Alexandra Lopes e Maria do Carmo Correia de Oliveira, Lisboa, Universidade Católica Editora, pp. 289-304.
—- (2004), “A sombra familiar de Barba-Azul numa encenação luso-francesa (a propósito de Jaime Baltazar Barbosa de Brigitte Paulino Neto)” in Cadernos de Literatura Comparada, 10/11, Questões e Perspectivas, org. Ana Paula Coutinho Mendes et alii, Edições Afrontamento / Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, pp. 73-95.

Ana Paula Coutinho
2011/11/15