Mann, Erika

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Mann, Erika

(1905-1969)

Erika Mann era filha do escritor alemão Thomas Mann. Antes de 1933 teve uma vida cheia de aventuras pelo mundo fora, na companhia do seu irmão Klaus, de que resultou, por exemplo, o livro Rundherum. Das Abenteuer einer Weltreise (1929) ou Das Buch von der Riviera, na coleção „Was nicht im Baedeker steht“. Depois da ascensão do nazismo na Alemanha, Erika voltou-se para a política com o cabaret “Die Pfeffermühle” [O moinho de pimenta], que só fechou as portas depois de 1034 espetáculos na Alemanha, Bélgica, Holanda, Áustria, Checoslováquia, Estados Unidos. Para além desta actividade dedicou-se ao jornalismo e, como conferencista, percorreu os EUA para convencer os norte-americanos a entrarem na guerra contra os alemães, em nome da liberdade e da democracia. De novo com o irmão Klaus, viajou pela Espanha durante a Guerra Civil, para dar provas da vivacidade dos republicanos contra as tropas falangistas. Daqui resultaram vários artigos em jornais e no livro Back from Spain. Pouco depois publicou School for Barbarians. Education under the Nazis, de que se publicaram 40.000 exemplares. Como correspondente de guerra, escreveu muitos artigos sobre diferentes frentes de batalha no Egito, Bélgica, França, Palestina. Começou a escrever a sua autobiografia sob o título I of all people, mas que não passaria de um fragmento. Escreveu ainda alguns contos infanto-juvenis. A sua passagem por Lisboa foi curta e limitou-se a observar os exilados na capital portuguesa no texto “Waiting for the lifeboat”, escrito em inglês, como grande parte dos textos nesta época. Escreveu um conto que se passa a bordo de um pequeno cargueiro português, numa viagem dos EUA para a Europa: “ Voyage with Robin”. Portugal é aí referido como o país neutro, “the land whose neutral flag was painted all across the deck and walls of the S.S. Dwarf”. A língua falada é neutral (“the captain informed me in neutral”).

 

Passagens

Suíça, Suécia, Grã-Bretanha, Estados Unidos, Portugal

 

Citações

“Não é fácil encontrar um quarto em Lisboa. Lisboa está superlotada, como uma cidade onde está a decorrer uma Feira Mundial; uma cidade para a qual as mais famosas peças festivaleiras atraem milhares de visitantes oriundos de todo o mundo. O tráfego mais colorido e alegre parece estar em todas as ruas e o preço que os hotéis e os restaurantes pedem para o mais insignificante dos serviços é altíssimo. As pessoas nas ruas e nos restaurantes conversam nas mais variadas línguas europeias – e é assim que deve ser num ponto de encontro internacional.
É estranho como quase todas as pessoas parecem pobres e se vestem como tal. Cheira-se o medo, o mal; há um nervosismo extremo no ar, é absolutamente estranho ao ambiente de um “ponto de encontro internacional”.

Lisboa, o único porto da Europa que permanece livre e neutral, tornou-se o ponto de encontro – e de espera – de todos aqueles que fogem de Hitler. Oh, não foi uma Feira Mundial, nem foram os festivais populares que trouxeram as pessoas até aqui, essas pessoas que deambulam pelas ruas. São os exilados, os que não têm casa, que aqui se reuniram; o seu número varia, mas são milhares: sem pertences, sem dinheiro, e tantos são aqueles que voam com destino a Lisboa sem os papéis de identificação; e o que há a fazer? Apenas ficar, enquanto tal lhes for permitido. Apenas esperar – por quê? Pelo navio de resgate que os haverá de levar para longe, para qualquer lugar, desde que os leve para mais longe, mais longe, o mais longe possível do inimigo que os perseguiu onde quer que fossem. O inimigo que os levou a fugir para toda a Europa – e agora esperam pelo navio de resgate.” (“À espera do salva-vidas”, trad. Cristina Vilas-Boas)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

MANN, Erika (2001), Blitze überm Ozean. Aufsätze, Reden, Reportagen, hg. von Irmela von der Lühe und Uwe Naumann,
MANN, Erika (1940?), „Waiting for a life boat“,in Erika Mann Archiv, Monacensia, Münchner Stadtbibliothek, Signatur EM M 138.
MANN, Erika (1943a), „ Reise mit Robin“, in Erika Mann Archiv, Monacensia, Münchner Stadtbibliothek, Signatur EM M 145.
MANN, Erika (1943b), „Voyage with Robin“, in Erika Mann Archiv, Monacensia, Münchner Stadtbibliothek, Signatur EM M 181.
MANN, Erika (1943c), “Of all People”, in Erika Mann Archiv, Monacensia, Münchner Stadtbibliothek, Signatur EM M 138.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

KASSNER, Jonathan (2013), “Ethics of Imagination: On Erika MANN’s Works in Exile”, in Eckart Goebel, Sigrid Weigel (Eds.), ‘Escape to life’. German Intellectuals in New York: A Compendium on Exile after 1933, Berlin/Boston, Walter de Gruyter, S.331-352.
KRÖFER, Ute (2005), „Wie ich leben soll, weiss ich noch nicht“. Erika Mann zwischen „Pfeffermühle“ und „Firma Mann“, Zürich, Limmat Verlag.
LAHNE, Tilmann (2015), Die Manns. Geschichte einr Familie, Frankurt a/M, S.Fischer.
LÜHE, Irmela von der (1993), “Geschwister im Exil: Erika und Klaus Mann”, in Claus-Dieter Krohn et alii, Frauen und Exil. Zwischen Anpassung und Selbstbehauptung, Ein Internationales Jahrbuch, Band 11 (1993), München, edition text + kritik, S. 68-87.
LÜHE, Irmela von der (2002, 6.Aufl.), Erika Mann. Eine Biographie, Frankfurt am Main, Fischer.
STROHMEYR, Armin (2004), Klaus und Erika Mann. Eine Biographie, Leipzig, Reclam.
TEIXEIRA, Christina Heine (2001), “Lisboa, símbolo de esperança e de liberdade: escritores alemães e austríacos em trânsito – 1940-1941 (algumas observações)”, Arquipélago. História (2ª série, V, 2001), p. 669-680.
VILAS-BOAS, Gonçalo (2013), “Erika und Klaus Manns gemeinsame Reisen in den 30er-Jahren”, in Maria José Dominguez Vázquez, Emilio González Miranda, Meike Meliss; Victor Millet (eds.), La Palabra en el texto. Festschrift für Carlos Buján, Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Compostela. Publicacións, p. 99- 113.

Gonçalo Vilas-Boas