Mankell, Henning

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Mankell, Henning

(1948-2015)

Henning Mankell nasceu em Estocolmo em 1948 e morreu em Gotemburgo em 2015. É sobretudo conhecido pelos seus 11 romances policiais à volta do inspetor Kurt Wallander, de que se venderam mais de 40 milhões de exemplares. Insere-se na linha do chamado “nordic noir” iniciada por Maj Sjöwall e Per Wahlöö, o policial social, centrado no lado mais negro da sociedade sueca e nas ligações globais, na corrupção, na xenofobia, sobretudo ligada a um forte incremento da imigração. Questiona sobretudo as razões dos crimes para além dos motivos individuais. A sua obra anda à volta da questão do encontro dos suecos com o Outro, seja ele quem for. Na literatura e na vida Mankell mostrou a sua solidariedade com os fracos e as vítimas de forças desumanas que controlam muitos aspetos da sociedade, o que justifica um certo pessimismo que percorre a sua obra ficcional, marcada pela desolação que Wallander/Mankell sente na Suécia contemporânea. O autor vê os seus livros com uma espécie de espelho da sociedade sueca, que não se quer ver como tal. Trata-se de mostrar que por detrás de uma sociedade aparentemente segura, a funcionar bem, está a grande desorientação dos tempos modernos. Mankell também escreveu outro tipo de romances, peças de teatro, livros infanto-juvenis, fiel ao seu princípio orientador de crítica, de questionamento e de acusação. Desde cedo foi um membro ativo em causas políticas (contra a guerra no Vietnam, o apartheid na África do Sul, o colonialismo português e os efeitos destrutivos dos diferentes colonialismos, a causa palestina). Desde 1986 alternava entre Maputo e a Suécia, época em que foi director artístico do Teatro Avenida, na capital moçambicana.

Essa sua vivência no continente africano levou-o a situar a ação ou parte dela nos seus romances policiais em diferentes territórios de África, entre os quais Angola e sobretudo Moçambique: em A Muralha Invisível, Angola faz parte da trama internacional de um grupo mafioso, ou em O cérebro de Kennedy, situa-se à volta da problemática da sida e dos abusos de empresas farmacêuticas ocidentais relativamente à população pobre africana, cuja ação tem lugar sobretudo em Moçambique. Em 1995 inicia uma trilogia infanto-juvenil onde narra a história de Sofia Alface após a explosão duma mina e os problemas moçambicanos com a sida e outros flagelos causados pela pobreza extrema, mas também a luta da rapariga e da sua irmã Rosa na resolução das dificuldades. Em 1995 publica Comédia Infantil, cuja ação se situa na guerra civil moçambicana: um jovem da rua, presumivelmente de Maputo, é baleado no palco de um teatro da cidade. Um padeiro ouve o tiro, corre para salvar o menino, que já era uma celebridade na cidade pela sua sabedoria. Leva-o para o terraço da padaria onde trabalha e durante dez noites ouve a história de Nélio até ao momento do tiro. Este livro foi adaptado ao cinema por Solveig Nordlund.

Em Um anjo impuro [Minnet av en smutsig ängel] Mankell recua até ao início do século XX, numa história onde uma sueca se instala em Lourenço Marques, vindo a dirigir um dos mais afamados bordéis da capital da colónia portuguesa. Não é um romance policial, mas um romance ‘histórico’, onde não falta o suspense. O livro baseia-se num documento dos finais do século XIX, que Tor Sällström, escritor e africanista, encontrou num arquivo em Maputo, como Mankell conta no posfácio.

Para fugir à miséria que avassalou os campos da Suécia em 1904, Hanna Renström, depois Lundmark por casamento, a mais velha de quatro crianças, tem que arranjar um trabalho na cidade, conseguindo depois ser admitida como cozinheira num navio com destino à Austrália. Casa com um marinheiro que irá morrer a bordo durante a viagem. Em Lourenço Marques, ela decide abandonar o barco e começar uma nova vida na cidade, começando num hotel onde as raparigas negras, que vem a saber serem prostitutas, a tratam bem e a ajudam a curar-se. Após uma série de acontecimentos que fazem dela a herdeira do bordel mais famoso de Lourenço Marques, Hanna, que será conhecida com Ana Branca, está determinada a tentar alterar as mentalidades que caracterizavam a sociedade branca moçambicana no início do século XX, sempre acompanhada pelo seu chimpanzé Carlos, o centro simbólico do romance. Não consegue compreender a posição dos brancos face aos negros, que também não os compreende. Mas vai-se deixando absorver por aquilo que a vida lhe impõe, nomeadamente a posição colonial portuguesa. Porém, a sombra do racismo que paira sobre brancos e negros, e o modo como os brancos tratam os negros, é de tal forma densa que só pode conduzir à tragédia e à morte. No momento em que defende uma negra que mata o marido branco pelo modo como ele a tratava, a colónia branca portuguesa começa a virar-lhe as costas e a frequentar outros bordéis. Este facto leva-a a abandonar Lourenço Marques, só que agora como uma mulher rica: “Ninguém voltou a vê-la” (p. 365).

Em vez da imigração tematizada em outros livros do autor, aqui é o inverso: faz o leitor refletir sobre a Suécia já foi pobre, motivo por que muitos tiveram que emigrar. Mas esta narrativa do início de século XX, O Anjo impuro, poderia ter lugar em qualquer tempo: é mais a questão do encontro com o Outro do que um romance sobre o colonialismo, ainda que a história se situe nessa área temática.

 

Passagens

Suécia, Moçambique, África do Sul, Zâmbia …

 

Citações de Um anjo impuro

Atracaram no cais de uma cidade africana chamada Lourenço Marques. Era pequena e pouco populosa, fazendo lembrar Argel, com as suas fachadas brancas e as casas espalhadas pelas ladeiras. No cimo de uma colina estava um hotel igualmente branco. Era impossível pronunciar o nome da cidade. Por isso, a tripulação deu-lhe o nome de Loco, que significava “louco” em português, conforme Hanna se lembrava do seu dicionário (p. 84)

Nesse momento, pensei que o senhor Vaz me ia dar uma bofetada, porque não tolera que uma das suas putas exprima uma opinião. No entanto, não o fez. Acho que entendeu pelo meu olhar que a presença do doutor Garibaldi só iria servir para piorar a situação. E ele não desejava isso, pois poderia pôr em causa o bom nome do seu estabelecimento. (p. 101)

– Chama-se Carlos – disse Felícia. – O nome de um rei português qualquer. Chegou há cinco anos com o dono, um homem que caçava leões nas grandes planícies do interior para os ter como troféus. Um dia, trouxe o chimpanzé, que nessa altura tinha um capacete colonial. Mas como o dono, depois de se ter deitado com as mulheres durante uma semana, ficou sem dinheiro para o alojamento, o senhor Vaz ficou com o chimpanzé como pagamento. (104)

Já ardiam duas fogueiras onde os guardas dormiam encolhidos no chão. Mas Moisés acendeu uma terceira na parte de trás da casa, onde Ana mandara plantar uma pequena horta com laranjeiras e limoeiros. Pela primeira vez desde que chegara àquela cidade, encontrava um africano que a tratava de igual para igual. Não havia nada nele daquilo que vivera até então: a submissão dos negros, falsa e forçada. (p. 291)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

MANKELL, Henning – Comédia Infantil (2006), Porto, Asa.

MANKELL, Henning – A Muralha Invisível (2008), trad. Ulla Baginha, Barcarena, Presença.

MANKELL, Henning – Um anjo impuro (2015), trad. Ulla Baginha, Barcarena, Presença.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Bergman, Kerstin (2014), Swedish Crime Fiction. The Making of Nordic Noir, Mimesis International.

Forshaw, Barry (2012), Death in a cold climate. A guide to Scandinavian crime fiction, Basingstoke/Hampshire, Palgrave Macmillan.

Kindstrand, Gunilla (2011), “Vi går alla på bordell i Henning Mankells roman. Gunilla Kindstrand bevittnar ett möte mellan Norrland och Afrika”, Gefle Dagblad, 18.08.2011.

McCorristine, Shane (2011), “The place of pessimism in Henning Mankell’s Kurt Wallander Series”, in Andrew Nestingen/Paula Arvas, Scandinavian Crime Fiction, Cardiff, University of Wales Press: 77-88.

Gonçalo Vilas-Boas (12/05/2017)