Ekström, Johanna

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Ekström, Johanna

(1970-)

Johanna Ekström é filha dos escritores suecos Per Wästberg e Margareta Ekström. Estreou-se com um livro de poemas em 1993 (Skiffer [Xisto]). Tem escrito poesia e prosa, esta muitas vezes com base autobiográfica, como no livro Om man håller sig i solen [Se se ficar ao sol](2012), sobre a sua infância numa família intelectual na Suécia dos anos 70 e 80. Os poemas manifestam a necessidade de criar um mundo interior instável, oscilando entre a natureza e a psique, mostrando a vulnerabilidade humana. Na antologia de contos Vad vet jag om håll fasthet [O que eu sei da estabilidade](2000) une o factual com uma linguagem como que flutuante, criando uma tensão muito sugestiva. Também no romance Avskedsstafeten [O bastão da despedida](2004) manifesta a tensão entre o pesar e a saudade, a obsessão e o desejo, numa linguagem que oscila entre o real e o onírico, um romance de uma viagem que passa por Londres, pela Suécia, por França, marcada, entre outras coisas, pelo divórcio dos pais. Tem também um longo currículo no domínio das artes plásticas, nomeadamente em instalações em diversos locais na Suécia, mas também na Finlândia e em França. Esteve em Portugal em 2001, tendo participado em Identidades: Encontro Europeu de Poetas, por iniciativa de professores da Faculdade de Letras do Porto, aquando do Porto. Capital Europeia da Cultura, em maio de 2001. Relata essa estada no Porto e em Lisboa no Diário recentemente publicado (Dagbok 1996-2002).

 

Passagens

Grã-Bretanha, EUA, Portugal, França, Dinamarca, Finlândia

 

Citações

“Agora estamos aqui, num quarto com vista sobre o Tejo e cargueiros e telhados de chapa no cais. Acabámos de tomar o pequeno-almoço no pequeno pátio interior e flores das buganvílias caíam na salada de frutas. E o café tinha um sabor suave, insípido, estrangeiro e comi um pastel divino, uma espécie de creme queimado com uma frágil forma de massa folhada. […] Hoje fomos a Alfama e ao Castelo de São Jorge através de uma zona comercial que acho que se chama Baixa, com um mercado e pequenos restaurantes e lojas que não pareciam nada turísticos. X comprou um mapa e depois vimos uma banca com postais dos anos 50 com cenas familiares clássicas. […] Lá fora estão quase 30 graus. Fomos ao Museu Gulbenkian. Tinha um aspeto tão tristemente romeno e apanhámos um táxi depois de passearmos pelo parque solarengo, onde dois casais de noivos eram fotografados. O Museu de Arte Antiga é pelo contrário muito bonito. Sobretudo por causa do café com vista sobre o Tejo. Claro que a vista é quase a mesma que tenho do quarto do hotel. Mas não me canso de a ver. […] Vamos para casa, passamos por um pequeno parque com vista sobre a cidade, o São Jorge com a fachada iluminada com luz quente. O calor da rua e as fachadas das casas, as flores das magnólias, beijos que cheiram a cigarrilhas. É romântico sem ironia, sem qualquer outra auto-observação. […] A nossa viagem a Lisboa. A lembrança do rio Tejo. Como ele corria fora e dentro de mim. Estava tão feliz. Era uma zona em que estava dentro de mim sem um olhar facetado. Eu podia fechar esse olhar. Não tentar ver em torno da esquina e ver-me a mim própria de fora. Era disto que tratava a viagem a Lisboa. […] Chegados à Nazaré: ondas grandes, esverdeadas, nuvens baixas, sol forte. Eu tomo banho e X observa com a sua t-shirt na cabeça. Alguns homens surfam, por vezes parece que se vê os seus corpos a ser engolidos por uma onda.” (Dagbok 1966-2002, p. 464-474)

“O Porto: fachadas de granito cinzento, uma Câmara com uma iluminação interior num amarelo cítrico, uma estação fantástica, com azulejos brancos e azuis. O rio com a alta ponte de D. Luís e a zona da Ribeira, formada por quarteirões bonitos e desgastados, com muita vida popular, cafés, restaurantes, pequenos negócios que vendem salsichas e azeitonas.” (Dagbok 1966-2002, p. 575)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

(2016), Dagbok 1996-2002, Estocolmo, Albert Bonniers Förlag.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

HOMEM, Rui Carvalho (org.) (2005), Identidades. Alguns poetas europeus, Porto, flup e-dita.
KÄRDE, Rebecka (2016), “Johanna Ekström: Dagbok 1996-2002”, Dagens Nyheter, 02/09/2016.

Gonçalo Vilas-Boas