Castro, Alberto Osório de

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Castro, Alberto Osório de

(1868-1946)

Usou pontualmente os pseudónimos de Axel e Ullalume. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra em Magistrado (em Goa, Moçâmedes, Timor, Luanda e finalmente em Lisboa), Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, jurisconsulto, chegou mesmo a Ministro da Justiça no período fugaz do governo de Sidónio Pais. Foi também poeta, polemista literário, e narrador de um livro de um notável livro de viagens, com eruditas considerações sobre a antropologia e a flora de Timor (1943), que muito virá a influenciar Rui Cinatti. A sua obra poética é exemplo da poesia do Simbolismo/ Decadentismo e Parnasianismo, e do Parnasianismo finissecular. Na juventude, Osório de Castro participou com vários artigos e crónicas sobre os novos rumos da literatura, publicados sobretudo na revista coimbrã Boémia Nova. Registe-se ainda a sua colaboração em grande parte das revistas literárias de vanguarda no final do século, como Os Novos, A Revista, A comedia portuguesa (fundado em 1888), ou ainda Centauro (1916), Sphinx (1917), Alma nova (entre 1915 e 1918). Seabra Pereira vai traçando alguns laços de influência, ou correspondência, com poetas Pessanha, Venceslau de Morais, Gomes Leal, António Nobre, entre muitos outros de quem foi admirador ou amigo (cf. introd. Castro, 2004: 45). Mas o que nos interessa aqui realçar, mais do que o seu enquadramento periodológico, é a capacidade do seu exotismo (com muitas referências ao Oriente português, da Índia e de Timor) se ir tornando uma forma de humanismo. É notável, na sua poesia, a permeabilidade linguística, o gosto de uma experiência babélica do verso, fermentado pelas viagens e sobretudo da permanência longa em terras distantes. Na sua poesia se testemunha uma poliglossofilia, um gosto em falar línguas diversas, que é uma das formas de Osório de Castro afirmar a sua paixão pelo Outro, o seu gosto pela policromia da flora, mas também pela diversidade das culturas. De certa forma é por estas características que a sua poesia mais se aproxima da de António Nobre. É por elas que Rui Cinatti tanto estima o poeta e a sua obra.

 

Passagens

Portugal Continental, Itália, Índia, Timor, Moçambique, Japão, e outras paragens.

 

Citações

“Tão longe do Fúsi-no-Yama,/ no nosso outono, as exiladas/ crisântemas da terra em chama,/ florescm em tardes geladas” (Castro, 2004: 56)

 

“Na calle Sierpes, em Sevilha,/ Ah, não há maior maravilha/ que a luz negra do seu olhar./ Quando esbelta e fina ela passa/ toda a calle é cheia de graça/ e da glória do seu andar./ Canta a Giralda e o sereno […]” (Castro, 2004: 65)

 

“Num destes vales italianos,/ já mui velhinho, hei-de ir morrer,/ a relembrar meus mortos anos” (Castro, 2004: 76)

 

“Rosas da Índia tão desmaiadas/ d coração,/ rosas da Maia nas desfolhadas,/ como sois lindas, mais encarnadas/ que São João! (Castro, 2004: 82, em Nova Goa)

 

“Perfuma vaga e finamente a sala/ o chá, em Sèvres cor d’anil e d’oiro./ Five o’clock tea. Um figulino embala/ sobre o Bréguet o seu turbante moiro” ((Castro, 2004: 88, em Mangualde)

 

“Passo um tempo esquecido a ver, infantilmente,/ as viagens que faz o fumo dum charuto […]”(Castro, 2004: 100)

 

“É preciso encontrar o Eldorado doutrora,/ embora uma outra vez naufraguemos, embora!/ No pacífico oceano infinito de Deus” ((Castro, 2004: 108, Poema “A Cipango” escrito em Mangualde)

 

“Porto de Cádis, tão lindo, ao Sul!/ O céu azul como o mar azul,/ mailas salinas a alvejar!” (Castro, 2004: 118)

 

“Luz dos desertos, leve e seca! […] Rios de Goa, cintilanters, morros ardentes e ofuscantes,/ palmas imóveis no esplendor!” (Castro, 2004: 124, em Margão)

 

“Fogo-santelmo! Clareia a noite irreparável da minha dor! (Castro, 2004: 126)

 

“Muita vez a minha alma, vaga e errante,/ Beautiful Bombay! Há-de4 perpassar/ por teus jardins e esplanadas ao luar,/ na luz do teu maio-dia fulgurante. […]/Church Gate! Os comboios vão rodando/ continuamente… É um sonho a passar…/ Delhi! Lacknow! Templo de Oiro! Amritsar!/ Taj Mahal, luar e pérola alvejando! (Castro, 2004: 180)

 

Nápoles: “Ritmicamente, em um rubro estertor,/ ensanguentava o Vesúvio a ideal baía […]”(Castro, 2004: 205)

 

“Ó gares da Riviera!/ Nomes floridos como trepadeiras,/ Dolceacqua, San Remo, Bordighera[…]”(Castro, 2004: 297)

 

“Graça da musumé,/ que a Venceslau de Morais enfeitiça,/ agora vejo muito bem como é…/ ave do Paraíso que se arriça.” (Castro, 2004: 304, no Estreito de Banká)

 

“O mar é um deserto,/ cérulo e cintilante.” (Castro, 2004: 314, Golfo de Bengala)

 

“No sertão africano,/ ao terrível silêncio do luar,/ sente-se o nada do que é humano; um frémito d’horror, ténue, passar.” (Castro, 2004: 352, em viagem)

 

“A ocidente de Díli, deixada na ante-manhã de 14 de abril, ao assobiado grazinar das cahacs que acordam, tomamos um lindo caminho ardente entre os brejos, de que irrompem os pândanus, e a praia toda semeada de madréporas. Passados os tamarindos, os coqueiros, as mangueiras e as árvores do pão do bairro pitoresco do Farol, a vegetação do mangrove ou Mangal, idêntica ao “Mangrove” indiano ou africano, com as flores azuis dos Acanthus Ilicifolius, as Sonneratia acida, as perfumadas Spathodea rheedii, bignoniáceas; depois as tão lindas e róseas Kleinovia hospita, as Erithrinas índicas, os Pândanus, as purpurescentes Terminalia catappa, que dão amêndoas delicadas (os mirabolanos do bom Garcia da Orta), as Vitex negundo e trifolia, os formosíssimos e perfumadíssimos Calophyllum inophyllum, que lembram magnólias, até á foz da ribeira Motael, esmaltada de Cyperus e Junceas, florida de Vinca rosea” (Castro, 1996: 39-40)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Castro, Alberto Osório de (1923). Um documento da vida conventual em Goa, Lisboa, Of. Gráficas da Biblioteca Nacional.

—– (2004). Obra Poética. Vol. I, ed. António Osório, introd. J. C. Seabra Pereira, Lisboa, IN-CM.

—– (1996). A Ilha Verde e Vermelha de Timor, org. Gustavo Rubim, Lisboa, Cotovia.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Pessanha, Camilo (1984). Cartas a Alberto Osório de Castro, João Baptista de Castro e Ana de Castro Osório, ed. Maria José de Lencastre, Lisboa, IN-CM.

Pereira, José Carlos Seabra (2004). “Vestígios de Verdade e Beleza: Para o retorno à luz”, introdução à Obra Poética. Vol. I [de Alberto Osório de Castro], ed. António Osório, Lisboa, IN-CM, pp. 7-45.

Braga, Duarte Drumond (2014). Ao oriente do Oriente: transformações do orientalismo em poesia portuguesa do século XX: Camilo Pessanha, Alberto Osório de Castro e Álvaro de Campos, Lisboa, Tese de Doutoramento em Estudos Comparatistas, Universidade Nova.

Maria Luísa Malato