Andersch, Alfred

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Andersch, Alfred

(1914-1980)

albertminAlfred Andersch nasceu em Munique em 1914, oriundo de uma família burguesa, de tendências conservadoras. O seu pai integrará o partido NSDAP em 1920. Andersch entrou no KPD (Partido Comunista Alemão) em 1930. Esteve preso em Dachau durante alguns meses. Abandonou as atividades políticas, intimidado pelo clima persecutório e perigoso para quem não se aliasse com o regime. Ficou na Alemanha durante o período nacional-socialista e teve que participar na guerra. Desertou em 1944. Foi prisioneiro de guerra nos EUA, mas pode regressar à Alemanha já em 1945. Fez parte do Grupo 47, um movimento essencialmente literário, em que muitos dos membros defendiam a terceira via, nem capitalismo, nem comunismo. Em 1958 abandona a Alemanha como protesto e estabelece-se no cantão italiano da Suíça (aliás em 1972 torna-se cidadão daquele país). Desde 1952 escreveu muitos romances e volumes de contos, onde se nota o seu enquadramento no existencialismo de origem francesa, a partir do qual elaborou as suas ideias sobre a liberdade, tema central da sua obra.

Em 1934 encetou a primeira das muitas viagens que fez: deslocou-se à Itália, onde regressará pouco tempo depois. Viajou também pelo norte da Europa, pela Irlanda, pela França e também ao México. Sobre a viagem escreve o autor: “Na realidade viaja-se por carência, por curiosidade, por inquietação. Cada viagem é um empreendimento crítico, uma forma de autocrítica, de crítica às condições em que se vive, de inquietação criadora, de obrigação de se apresentar perante o mundo.” (apud Maria Marques de Almeida, 1985, p. 129). Em 1975 desloca-se a Portugal, acompanhado pela sua esposa Gisela, pintora, para testemunhar a revolução dos cravos, como tantos alemães nessa altura (vd., por exemplo, Helga M. Novak), e escreve o texto “Reise in die Revolution” [Viagem à Revolução], “um conjunto muito variado de impressões subjetivas que por vezes denotam incorrecções históricas e lacunas, aliás inevitáveis da parte de um estrangeiro que durante uma curta viagem tenta compreender um processo histórico ainda em pleno desenvolvimento”, como nota Maria Marques de Almeida (Almeida, 1985, p. 126). Também estes textos de viagem se enquadram no tema central da liberdade. Não só as personagens dos seus textos ficcionais lutam por ela, também o viajante procura lugares de liberdade que a viagem lhe pode proporcionar. Nessa procura, o autor desenvolve “um gosto apaixonado do pormenor na descrição das coisas” (idem, p. 127), o que proporciona uma visão muito plástica nas suas descrições.

 

Itinerários

Portugal, Alemanha, França, EUA, Irlanda, Itália, México, Suiça.

 

Citações

Todas as casas do Sul de Portugal são brancas. Por este motivo servem optimamente para a transmissão de mensagens. Como as eleições para a Assembleia Constituinte iam realizar-se daí a alguns dias, todas as casas e muros de jardins que vimos estavam inteiramente pintadas com mensagens. No aspecto puramente gráfico era surpreendente e belo, no caso de se ter gosto pela arte de expressão selvagem, pelo expressionismo decorativo.[…]

Sempre que penso em Portugal penso num homem que passando por casas sem janelas vai para casa, levando um saco de plástico transparente com meia dúzia de sardinhas. Logo a seguir vai assá-las, com a porta aberta através da qual entra em sua casa a luz dum dia claro e ventoso. O vento não o incomoda. Está habituado a ele. O vento vem sempre do oceano ali próximo. O oceano traz-lhe o vento e as sardinhas. Podiam ser mais sardinhas, talvez ele pense. Comer uma vez até ficar mesmo satisfeito – isso seria maravilhoso.

Pós-escrito: um poema escrito alguns meses mais tarde.

LISBOA NO OUTONO DE 1975

Dos muros desfolha-se
a esperança
pálida ela cobre
a cinza
do fogo apagado

(apud Andersch/ Maria Marques de Almeida, 1985, pp. 116 e 125)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

ANDERSCH, Alfred, «Reise in die Revolution», Frankfurter Rundschau, 14.06.1975 (Feuilleton, p. III) (tradução portuguesa de Maria Marques de Almeida, «Viagem à Revolução», RUNA 3/1985, pp. 115-131).

 

Bibliografia Crítica Selecionada

ALMEIDA, Maria Marques de (1984), «Alfred Andersch e a sua concepção de liberdade», RUNA 2/1984, pp. 3-26.
REINHARDT, Stephan (1996), Alfred Andersch. eine Biographie, Zurique, Diogenes.

Gonçalo Vilas-Boas