Amaral, Ana Luísa

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Amaral, Ana Luísa

(1956-)

anaminNasceu em 1956, onde nasceram 90% dos lisboetas (na Maternidade Alfredo da Costa). Aos nove anos, mudou-se, por vontade alheia, de Sintra para terras do Norte (Leça da Palmeira), tendo sofrido na pele a estupidez da divisão Norte/Sul. (…) Frequentou a Faculdade de Letras do Porto, tendo-se licenciado em Germânicas. Deve ter gostado tanto da Faculdade que por lá se deixou ficar, como professora, até ao presente momento. Por necessidade de carreira, tinha que fazer doutoramento. E fez; sobre Emily Dickinson cujos poemas a fascinam tanto como a fascinara o Zorro. Pelo caminho, foi publicando livros de poemas.

Assim começa uma nota autobiográfica de Ana Luísa Amaral, redigida em 1998, e reproduzida ainda em vários lugares. Actualizada, passados que são mais de dez anos, talvez essa nota referisse, no mesmo tom de desprendimento, a publicação de dez livros de poesia e de dois infantis, a tradução de centenas de poemas para várias línguas, os prémios de poesia recebidos (2007: Casino da Póvoa/Correntes d’Escrita e Giuseppe Acerbi; 2008: Grande Prémio da APE), as migrações da poesia para outros campos artísticos (ópera, teatro, canção) e a presença em inúmeros encontros internacionais de poesia. Um qualquer biógrafo da autora enfatizaria, decerto, a sua cidadania activa e os inovadores caminhos explorados no domínio científico-pedagógico.

A poesia de Ana Luísa Amaral está cheia de referências ou alusões a viagens e a espaços, e nem seria preciso a viagem “factual” para que tal acontecesse, como o prova Imagens (2000), nos seus “barcos, mares e viagens intermináveis, Jonas e Ulisses de mãos dadas” (Santos, 1999:13). A Viagem é, por sua vez, desde o livro inaugural, Minha senhora de Quê, indissociável do Tempo e da Memória, como anuncia o poema “Viagens e Paisagens” – “Tremente carruagem na velocidade / atónita do tempo (que o momento já / tarda e o conforto afinal só ilusão)” – o que se confirma na globalidade da sua poesia e se condensa em insólitas imagens cinéticas – “O tempo passeando nas paredes” (“E muitos os Caminhos”). A vasta erudição da autora e o apaixonado convívio com múltiplas tradições culturais assegurariam por si só, numa obra claramente dialógica, a presença de figuras e lugares de todos os tempos e épocas.

Após deslocações pontuais a Inglaterra em finais dos anos 80, Ana Luísa Amaral vive entre 1991 e 1992 nos E.U.A. Excessivo será, porventura, imputar a essas viagens a tematização disfórica da emigração no poema “Paraísos” ou a visão desencantada em “Uma Constante da Vida” (“Errámos junto / à História”) de Às vezes o Paraíso (1998), ou sobrevalorizar poemas deícticos como “Árvores de Rhode Island (3 Poemas)”, de Coisas de Partir (Poemas), publicado em 1993, após o regresso dos E.U.A. Mas, ao lermos este livro, é de ponderar o papel desempenhado pelo encontro “real” com a América na exploração de redes analógicas entre a ciência e a poesia (a “química do cérebro”, os “robóticos painéis”, os “cibernéticos percursos”), ou na poetização da tecnologia do olhar e da imagem – nenhum(a) poeta português(a) do século XX ou XXI nos oferece uma obra tão densamente povoada de lentes, óculos, écrans, bips, fotografia, filmes, televisão ou computadores. Como se essa estada nos E.U.A. tivesse despertado na poeta uma mais aguda percepção do papel da imagem na construção do mundo que habitamos e uma maior consciência da ética da escrita poética, que passa pela renovação de representações fossilizadas desse mundo.

Se Coisas de Partir é dominado por um exercício epistemológico levado ao extremo, em “ginásticas do olhar” que tentam superar os limites do próprio corpo (ex. “Perspectivas”), nos livros que se seguem, a poeta-dramaturga entrega-se a um apaixonado trabalho de revisão de imagens, de revisitação de lugares e de figuras míticas de um imaginário pessoal e cultural, que resulta em novas coreografias e em subversivas “gramáticas do olhar” – imagens de imagens em contínua metamorfose. A inicial poética do avesso dá lugar a uma poética arbórea, da versão conjectural, sempre em processo de re-visão, mediante o operador privilegiado do im-perfeito e do reinício: “E se” (ou variáveis: “faz de conta”, “em vez”). Há implícita na poética de Ana Luísa Amaral a ideia da (quase) inutilidade da viagem física e uma apologia do exercício da Imaginação, da Memória e da Atenção ao real quotidiano mais ínfimo. Não surpreende, por isso, que, quando a poeta embarca, com centenas de escritores europeus, na mais literária viagem do século XX – O Comboio da Literatura 2000 – se escuse a escrever o diário de bordo pedido ou que use o poema “Viagens e Paisagens” como ex-libris de uma viagem que, para ela, começa antes de começar. No híbrido texto de prosa poética que então produz (cf. Citações), é visível como, na sua escrita, a paisagem e os lugares se volverão sempre em Tempo e em Memória: inquietantes viagens por territórios a descobrir.

Em 2000 (ou 2009), Ana Luísa Amaral corroboraria, decerto, as palavras de Bernardo Soares: “Para viajar basta existir. Vou para o dia de estação para estação, no comboio do meu corpo ou do meu destino.” (Livro do Desassossego).

 

Passagens

Portugal, EUA, Inglaterra.

 

Citações

TOPOGRAFIAS DE QUASE DICIONÁRIO

Reaprender o mundo
em prisma novo:
pequena bátega de sol a resolver-se
em cisne
sereia harmonizando o universo
Só o vento sucumbe
à demais luz
e só o vento,
como alaúde azul,
repete devagar os mesmos sons.

Não interessa onde estou,
não me faz falta um mapa
de viagem
(…)

(A Génese do Amor, 9)

Primeira voz De que falarás tu nestas folhas? Segunda voz. Não sei. Mas as coisas não giram ao nosso compasso; sei, pois, que não farei um diário, no sentido estrito do termo. (…) Também não farei romance: a própria ideia de criar uma história aterroriza-me, tal como a de lá pôr, por inerência, pessoas a falar sobre o que as rodeia, a debater estados de espírito (…). (p. 1)

Podia até fazer um esquema daquilo que quero dizer, do que não quero deixar de dizer: por exemplo, as coisas não vistas, mas que sustentaram o funcionamento desta viagem: o esforço sobre-humano dos fotógrafos, que se dividiram por três momentos; a equipa de filmagem que nos acompanhou. Carregar máquinas de filmar ou tantas máquinas de reproduzir as nossas caras, os nossos gestos, os nossos idiossincráticos desvios – só pode ser um acto de amor. (p. 2)

Momentos em que, da janela do comboio, não fora o compasso dos trilhos, era como navegar, caminhar sobre as águas rio abaixo. Um dia, quase do paladar de uma semana. Era tão longo o tempo de viagem, tão despropositado da distância, que chegar à estação ao fim da tarde não dizia de um dia de viagem.

Ou então um olhar
que muito se perdia
pelo rio. (p. 3)

E a vida lá ao fundo do tempo que faltava, a vida na estação ao fundo da viagem? Voltar a casa, entre outras casas colectiva e branda. Uma curta família. Mas o túnel vencia. Às vezes não (… ) Era assim a viagem. Revisitar olhares e sítios paralelos, que me parece já ter estado aqui, sei que não estive, mas este sítio

agora já sem rio e três meninas
voltando da escola. Nas mãos (ainda planas),
que a aprendizagem de serem circulares,
as rodas ou os dedos em afago,
pelo tempos e faz) caixilhos de madeira
delimitando estopa com bordados.

Trabalhos escolares e conversa inaudível da janela fechada. Sei que não estive, mas me parece já ter estado aqui. Entre uma dessas três, talvez o tema seja a escola, a minha infância sem estopa nem bordados (…) (p. 4)

“5 Junho
12:30 (Hotel Alfa, Lisboa) Ainda não partimos, mas posso começar a escrever, citando, por exemplo, um poema meu que começa assim: “Começo da viagem: espremer como laranja esta hora tardia / sem olhos / mas com túneis, memória / confortável na paisagem / que é sempre a mesma, aos gomos variados: / tu, sem descrições maiores”. Acho que vou fazer deste poema uma espécie de ex-libris da viagem. Não é talvez o mais canónico citar-me, mas é tão aquilo que sinto, e este poema adequa-se tão bem a esta situação! Veremos. Depois, é-me poeticamente útil este poema, com esta ideia de viagem de comboio metafórica. Que é um poema de amor, embora não pareça. (…)

Ocidental será o meu olhar
que a ocidente ele nasceu,
mas onde se espraia junto a tanto?
O Oriente aguarda,
tão ao longe – (p. 6).

(Ana Luísa Amaral. Diário de Bordo (Expresso da Literatura))

 

Bibliografia Ativa Selecionada

AMARAL, Ana Luísa (1990), Minha Senhora de Quê, Coimbra, Fora do Texto.

—- (1993), Coisas de Partir, Coimbra, Fora do Texto.
—- (1994), Epopeias, Coimbra, Fora do Texto.
—- (1995), E Muitos Os Caminhos, Porto, Poetas de Letras.
—- (1998), Às Vezes o Paraíso, Lisboa, Quetzal.
—- (2000). Imagens, Porto, Campo das Letras.
—- (2001), “Logbuch”, trad. Sarita Brandt, Europaexpress, Ein Literarisches Reisebuch, Eichborb, Berlin, pp. 242-250.
—- (2002), Imagias, Lisboa, Gótica.
—- (2003), A Arte de ser Tigre, Lisboa, Gótica.
—- (2005), A Génese do Amor, Porto, Campo das Letras.
—- (2007), Entre Dois Rios e Outras Noites, Porto, Campo das Letras.

Bibliografia Crítica Selecionada

COELHO, Eduardo Prado (2000), “Aceitar as imagens como são”, Público, Suplemento “Leituras”, 4 de Novembro, p. 8.
COELHO, Joaquim-Francisco (2000), “Poesia no paraíso [crítica a Às vezes o paraíso de Ana Luísa Amaral]” in Colóquio/Letras – Livros sobre a Mesa, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 399.
DIOGO, Américo António Lindeza (2002, Recensão Crítica a Imagens, Colóquio/Letras, 159-160 (Jan.-Junho), pp. 451-455.
—- (1998), “Poesia e Justificação”, sobre Às Vezes o Paraíso de Ana Luísa Amaral. Ciberkiosk. Letras, Artes, Espectáculos, Sociedade.
DUMAS, Catherine (2002), “L’écho comme pratique allusive: pour une poétique de l’entre-deux dans la poésie de Ana Luísa Amaral”, in L’Allusion en Poesie, Études Reunies par Jacques Lajarrige et Christian Moucelet (Centre de Recherches sur les littératures modernes et contemporaines), Presses Universitaires Blaise Pascal, Clermont-Ferrand, pp. 421-432.
LIMA, Isabel Pires de (2001), “Concertos/desconsertos: arte poética e busca do sujeito na poesia de Ana Luísa Amaral”, Identidades no Feminino. Cadernos de Literatura Comparada, n.º 2, pp. 49-61.
LOPES, Silvina Rodrigues (1993), “A proximidade do caos”, Público, suplemento “Leituras”, 14 de Maio, p. 7.
MARTELO, Rosa Maria (2008), “Ana Luísa Amaral – Entre dois rios e outras noites”, Colóquio/Letras, Fundação Calouste Gulbenkian, in Recensões Críticas, 18 Maio.
—- (2006), “Esplendores de nada, ou a nostalgia do sublime”, Relâmpago, n.º 18, 4, pp. 191-6.
—- (1996), “Receita contra a melancolia”, JL/ Jornal de Letras, Artes e Ideias, 31 de Janeiro, pp. 22-23.
MORÃO, Paula (2007), «Lendo A génese do Amor, de Ana Luísa Amaral, Introd. a Ana Luísa Amaral», A génese do amor, Rio de Janeiro, Gryphus, pp. vii-xv.
MORNA, Fátima Freitas (2002), “O Excesso mais Perfeito”, in Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, org. de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra, Braga/Coimbra/Lisboa, Angelus Novus & Cotovia, pp. 194-201.
POS, Arie (2001), Armada. Tijddschrift voor wereldliteratur, Amsterdam, Zevende jaargang, nr. 24, December, pp. 17-19;
SANTOS, Maria Irene Ramalho de Sousa, (2003) “Coisas Exatas: A propósito de Imagias, de Ana Luísa Amaral”, in Scripta – Literatura, Belo Horizonte, vol. 6. n. 12 (1.º semestre), pp. 258-265;
—- (1999), “Prefácio, Dez Anos Depois” e “Duplo Posfácio”, Minha Senhora de Quê, Lisboa, Quetzal, pp. 7-14 e pp. 95-98.
—- (1998), “Paraíso de Poeta – Ana Luísa Amaral, de Minha Senhora de Quê a Às Vezes o Paraíso”, in Tabacaria 6 (Verão 1998), pp. 63-69. Saraiva, SARAIVA, Arnaldo (1991), “Minha Senhora de Quê”, in Boletim da Universidade do Porto, 4/5 de Janeiro, p. 49.
—- (1989), “O sexo dos poetas: a propósito de uma nova voz na poesia portuguesa”, in Via Latina, Coimbra, AAC, pp. 122-124.
SILVESTRE, Osvaldo Manuel (2001), “Imagens (d)e bastidores, ou ‘as labaredas calmas’ do revisionismo de Ana Luísa Amaral”, in Inimigo Rumor (orgs. Carlito Azevedo, Américo Lindeza Diogo), Rio de Janeiro, Lisboa, Cotovia, Viveiros de Castro Editora, n.º 11 (2.º semestre), pp. 63-70.
— (1998),“Recordações da Casa Amarela – A Poesia de Ana Luísa Amaral”, in Relâmpago, n.º 3, 10, pp. 37-57.

Maria de Lurdes Sampaio 2011/11/16