Torberg, Friedrich

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Torberg, Friedrich

(1908-1979)

torbergFilho do Império Austro-Húngaro, nascido em Viena, no seio de uma família judaico-alemã de Praga, o escritor, jornalista e tradutor Friedrich Kantor-Berg (i. é, Friedrich Torberg) foi um dos fugitivos do nacional-socialismo cuja obra revela ecos da sua passagem por Portugal. Com os seus livros proibidos no III. Reich já desde 1933, T. aproveita uma estadia casual em Praga aquando da anexação da Áustria (março 1938) para emigrar para Zurique, dando início a um difícil e perigoso período de fuga aos nazis, que descreverá pormenorizadamente em cartas ao amigo e publicista político Willi Schlamm (TTZ, 1989). Passado cerca de um ano, a ameaça de extradição da Suíça leva-o até Paris, que abandona dois dias antes da entrada das tropas alemãs na cidade (junho 1940). Acompanhando a caótica torrente de fugitivos, passa por Bordéus – onde Aristides de Sousa Mendes lhe assina o visto de entrada em Portugal (TTZ, 88) – até que, por meados do mês, chega finalmente ao nosso país, última etapa antes do desejado exílio nos Estados Unidos. Porque Lisboa estava vedada aos refugiados, desde logo para que não perturbassem as comemorações do Duplo Centenário e da Exposição do Mundo Português (Pimentel, 2008: 128), em Vilar Formoso as autoridades portuguesas atribuíram aos recém-chegados residências fixas, segundo o comboio em que vinham e a nacionalidade de cada um (TTZ, 123), e colocam T., tal como os polacos e checoslovacos que com ele viajavam, nas termas da Curia (TTZ, 114). Cerca de duas semanas depois, já T. fora transferido para o Porto (TTZ, 116), mais tarde encontrar-se-á em Lisboa – nem sempre legalmente, dado que os refugiados nem 24 horas podiam permanecer na capital (ETJ, 167) que era, todavia, o único local possível para tratar do visto necessário para o prosseguimento da viagem.

Depois de cerca de quatro meses numa espera angustiante, consegue finalmente o visto americano de emergência (11.9.1940), graças à ajuda de amigos já emigrados nos EUA, do “Emergency Rescue Committee” e do PEN-Club americano, que o integrou na lista dos “Ten Outstanding German Anti-Nazi-Writers” para agilizar a imigração. Aportará a Nova Iorque (18.10.1940), seguindo pouco depois para Los Angeles, onde lhe fora oferecido um contrato de um ano na “Warner Brothers” (Axmann, 2008: 130). Com nacionalidade norte-americana, regressa em 1951 a Viena, que não mais abandonará.

Hoje esquecido, T. foi, no dizer de David Axmann, seu biógrafo, “entre os multifacetados escritores do seu tempo talvez um dos mais dotados, mas de certeza o mais multifacetado entre todos os dotados” (Axmann, 2008: 8). Com extensa obra publicada, T. obtém grande êxito logo na estreia literária: o romance Der Schüler Gerber hat absolviert (1930) [O aluno Gerber terminou o liceu], publicado com a ajuda de Max Brod, seu mentor em Praga, e o qual, na tradição de R. Musil e de H. Hesse, problematiza um sistema escolar autoritário. Apenas nos anos 70 conseguirá um êxito semelhante, com os dois inesperados bestsellers Tante Jolesch (1975) [A tia Jolesch] e Die Erben der Tante Jolesch (1978) [Os herdeiros da tia Jolesch] – de que adiante se falará. Judeu assumido – “nunca tive o mais pequeno sentimento de inferioridade judaica”, disse numa entrevista (Axmann, 2008: 10) –, T. ocupou-se com frequência de temas judaicos. Lembre-se, p. ex., o romance Hier bin ich, mein Vater (1948) [Aqui estou, meu pai], ou a novela Mein ist die Rache (1943) [Minha é a vingança]. Mas essas obras, tal como outros romances e novelas, esteticamente tradicionais, já não lhe trouxeram grandes favores da crítica ou do mercado (Reich-Ranicki, 2005).

Conhecido desde jovem como publicista sempre pronto para o debate, é depois do regresso à Áustria que T. ganha nome sobretudo como editor da revista político-cultural Forum, entre 1954 e 1965 (Reich-Ranicki, 2005), bem como devido ao boicote à encenação de peças brechtianas nos palcos austríacos, que conseguiu impor até 1963 e que tão má fama lhe acarretou.

Da experiência vivida por T. em Portugal resultaram testemunhos, tanto na correspondência pessoal, como em textos ficcionais de matriz autobiográfica. As cartas dirigidas a W. Schlamm, elaboradas para se manterem no estrito espaço íntimo, centram-se, no que toca a Portugal, sobretudo na urgência de T. em sair do país e nas incertezas e dificuldades correspondentes, documentando, ora de modo factual, ora emocional, a sua situação angustiante que era, no fundo, a de quase todos os refugiados. De permeio, oferece-nos uma imagem extremamente lisonjeira do país e dos portugueses. “A grande surpresa foi Portugal” (TTZ, 113), comenta, depois de relatar a desgastante fuga desde Paris. Nem tudo é positivo: p. ex., apercebe-se de problemas na política interna (TTZ, 125), apenas com limitações se pode ver Portugal como um país europeu (TTZ, 135), o calor incomoda-o (TTZ, 141). Todavia, são aspetos que não ensombram o que mais o toca: o acolhimento extremamente caloroso que os refugiados recebem. Desde Vilar Formoso, onde podem dormir “em quartinhos muito limpos” (TTZ, 113), passando pela organização eficaz e amabilidade encontrada nos vários serviços públicos – mesmo para a Curia foi destacado um funcionário que falava inglês e francês (TTZ, 125), – até à extraordinária hospitalidade e solicitude da população anónima, como a de uma dona de casa que, para além de convidar os que acolhera no mínimo para uma refeição diária, recusa qualquer pagamento pela casa que lhes alugara (TTZ, 124).

Tante Jolesch e Die Erben der Tante Jolesch, que constituem essencialmente um requiem humorístico e nostálgico da vida austro-judaica de entre-guerras, são obras que, literariamente mais trabalhadas, também remetem para a sua estadia em Portugal. Desenvolvendo estratégias que visam o maior efeito sobre o leitor, T. recupera nesses textos certos motivos das cartas e/ou acrescenta outros, mas todos alargadamente explorados numa clave humorística. Segundo T., as suas vivências “são peneiradas conforme a sua utilidade anedótica” (ETJ, 161). Em Tante Jolesch, onde se evoca mais o flair da ex-monarquia austro-húngara – com a sua cultura dos cafés, onde T. privava diariamente com originais boémios e com figuras como os escritores Broch ou Musil –, apenas se retoma, com comicidade, o motivo do calor em Lisboa (TJ, 203-204). Em Die Erben der Tante Jolesch, em parte um aditamento a Tante Jolesch, Portugal é mais tematizado visto T. dedicar um espaço considerável aos anos de exílio. De novo deparamos com a chegada a Vilar Formoso (ETJ, 165), ou com a permanência ilegal em Lisboa (ETJ, 167-168). Destaque-se a descrição do alojamento que o narrador/autor diz ter no Porto, sem qualquer correspondência nas cartas a Schlamm. “O corredor era fechado por uma porta de vidro fosco guarnecida com as inequívocas letras WC e, quando a abríamos, tínhamos boas hipóteses de cair na rua, porque a casa terminava nesse sítio. Mas à esquerda, antes do vidro fosco, o construtor ainda tinha tido um bocadinho de espaço, de menos para um verdadeiro quarto, de mais para o WC que, apesar disso, estava instalado. Era aí que eu vivia. Vivia num lavabo com um quarto incorporado” (ETJ, 166-167).

Focado na sua difícil situação pessoal, tal como se regista na obra de muitos outros refugiados, T. não tem grande disponibilidade para o país que transitoriamente o acolheu. No entanto, apesar dos aspetos problemáticos que enuncia, transmite uma imagem global muito positiva do país, muito particularmente dos seus habitantes, cuja solicitude e generosa hospitalidade o parecem surpreender.

 

Passagens

Suíça, França, Portugal, Estados Unidos

 

Citações

Em todos […] os serviços públicos são de uma gentileza comovente, ingénua e, apesar disso, nada servil, as pessoas ficam felizes quando o seu francês ou inglês é suficiente para poderem ajudar alguém, frequentemente somos agarrados na rua e perguntam o que procuramos, polícias [e] condutores de elétrico […] sorriem, e se dependesse apenas dos portugueses, poder-se-ia […] estar descansado por algum tempo. (TTZ, 125; trad. minha)

O Senhor Kaufmann […], que há muito tinha notado que eu suportava mal o calor de Lisboa, fez reverter esse conhecimento em meu proveito quando me foi oferecido um visto para Cuba.
‘Quando o pode ter?’ quis saber o Senhor Kaufmann.
‘Daqui a duas semanas.’
‘Hm. Então, a partir de agora, todos os dias à hora de almoço, digamos das doze à uma, tem de andar para cima e para baixo na Av. da Liberdade, sem nada a cobrir a cabeça e no lado em que não há árvores. Para se habituar às sombras de Cuba.’(TJ, 203-204; trad. minha)

Lá [em Vilar Formoso], havia um verdadeiro restaurante de estação de caminho-de-ferro, limpo, com mesas com toalhas brancas. Tomámos lá café como já há muito não fazíamos, e comemos biscoitos como há muito não fazíamos, e o afável melancólico Jan Lustig, acordando de uma tristeza de semanas, limpou a boca, recostou-se e disse: ‘Bem. E agora venham as mulheres despidas!’ Não havia dúvida: estávamos no Paraíso. (ETJ, 165; trad. minha)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Torberg, Friedrich (1977), Die Tante Jolesch oder Der Untergang des Abendlandes in Anekdoten, München, dtv. [TJ]
—- (1981), Die Erben der Tante Jolesch, München, dtv. [ETJ]
—- (1989), Eine tolle, tolle Zeit. Briefe und Dokumente aus den Jahren 1938 bis 1941, München, Langen Müller. [TTZ]

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Axmann, David (1989), “Flucht durch den Höllenwirbel”, in Friedrich Torberg, Eine tolle, tolle Zeit. Briefe und Dokumente aus den Jahren 1938 bis 1941, München, Langen Müller: 5-9.
—- (2008) Friedrich Torberg. Die Biographie, München, Langen Müller.
Grelle, Gérard (2006), “Lisbonne: un havre de paix? Lisbonne et le Portugal vus par les réfugiés du nazisme – été/automne 1940. Friedrich Torberf témoigne”, in Alain Montadon (org.), Lisbonne. Geocritique d’une ville, Clermont Ferrand, Presses Universitaires Blaise Pascal: 181-192.
Pimentel, Irene Flunser (2008), Judeus em Portugal durante a II Guerra mundial, Lisboa, A Esfera dos Livros.
Reich-Ranicki, Marcel (2005), Friedrich Torberg – Ein Querkopf mit Esprit (acedido 20.12.2015).

Maria Antónia Gaspar Teixeira