Thelen, Albert Vigoleis

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Thelen, Albert Vigoleis

(1903-1989)

0446-4DNascido na Renânia do Norte-Vestfália, o escritor, crítico literário e tradutor poliglota A. T., que adotou a alcunha de Vigoleis, cedo iniciou uma vida de errância que duraria cerca de 55 anos. Sem terminar o liceu, e após diversas formações e profissões técnicas, seguidas por uma passagem pela universidade, também interrompida, deixou o seu país, em 1931. Ruma a Amsterdão, pouco depois a Maiorca (1931-36). Todavia, o que teve início voluntariamente deu lugar a um exílio político forçado. Com o deflagrar da guerra civil espanhola e a chegada dos falangistas às Canárias (1936), vê-se obrigado a fugir. É que as posições oficiais que assumira em relação ao nazismo (recusa, p. ex., jurar fidelidade ao Führer) haviam-no tornado uma figura suspeita, e por muito pouco não foi fuzilado (Pütz, 1990: 26). Evade-se para a Suíça (1937-39), que abandonará ao aceitar um convite de Teixeira de Pascoaes, e chega no dia da invasão da Polónia (1-9-1939) ao solar do poeta, perto de Amarante. Vive então quase oito anos de relativa calma até que, em 1947, a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado não lhe renova a autorização de permanência no país (Franco, 2014: 207). Apesar de, nessa data, nada impedir um regresso à pátria, T. opta por continuar no exílio, dado considerar insuficiente a desnazificação realizada na Alemanha do após-guerra (Pütz, 1990: 25). Com visitas regulares a Portugal, (Caeiro, 1990: 48) e outras, raras, à Alemanha (Thelen, 1997: 145, 170), residirá primeiro em Amsterdão (1947-54), depois na Suíça (1954-86), e apenas em 1986, já muito doente, regressará à região natal.

Autor multifacetado, cuja vida e obra formam uma unidade produtiva, T. tem vindo a ser (re)descoberto apenas nas últimas décadas – apesar da importância que tem, quer no âmbito da literatura alemã, quer no da divulgação internacional da literatura portuguesa (Schäfer, 1990: 175). De facto, as suas escassas e tardias publicações, ao que se alia uma escrita nos antípodas da orientação literária do mais influente agrupamento de escritores de língua alemã do após-guerra que era o “Grupo 47”, não terão propiciado a sua popularidade na Alemanha.

Na sua vasta obra destaca-se o primeiro romance: Die Insel des zweiten Gesichts. Aus den angewandten Erinnerungen des Vigoleis (1953) [“A ilha do segundo rosto. Das memórias aplicadas de Vigoleis”]. Espelho das peripécias vividas por T. em Maiorca nos anos 30 entrelaçadas com o tratamento humorístico-satírico dos acontecimentos da época, Die Insel é uma obra estruturalmente marcada por uma relação de tensão entre elementos autobiográficos e fictícios (Schäfer, 1990: 176-177; Pütz, 1990: 151-153, passim). Embora constituísse um êxito de mercado e tenha valido ao autor o Prémio Fontane (1954), a receção de Die Insel não foi consensual entre a crítica. Aplaudido encomiasticamente por uns (p. ex., o escritor Paul Celan), o romance foi duramente repudiado, como seria de esperar, pelo spiritus rector do “Grupo 47”. “Alemão de emigrante”, sentenciou H. W. Richter (Jung, 2005: 22) perante as particularidades do discurso do autor, transbordante e lexicalmente estranhaste.

T. não voltou a escrever um único livro bem acolhido pela crítica, e depressa caiu no esquecimento. Bastará lembrar a receção muito reservada ao seu segundo romance, este em torno da fase na Holanda nos anos 40-50 que é Der schwarze Herr Bahßetup. Ein Spiegel (1956) [“O escuro senhor Bahßetup. Um espelho”]. Todavia, para além do referido prémio Fontane, foram-lhe atribuídas várias distinções, como o título honorífico de Professor pela Renânia do Norte-Vestfália (1984) e a Cruz de Mérito da República Federal da Alemanha (1985).

Talvez mais interessante seja a ligação de T. a Portugal e os respetivos ecos literários, sobre os quais são incontornáveis os estudos de Caeiro (1987; 1990) e, embora de muito menor dimensão e diferente enfoque, os de Schäfer (1990: 175-180) e de Franco (2014), dos quais aqui se retiram diversas informações.

Quase 20 anos antes de qualquer publicação própria, já T. traduzia a obra de Teixeira de Pascoaes, o que foi decisivo para a sua vinda para Amarante. Como é narrado em Die Insel e relatado por Caeiro (1990: 28ss.), em 1935, quando ainda se encontrava em Maiorca, T. conheceu a versão castelhana de São Paulo (1934), de Pascoaes. Deslumbrado, logo começa a corresponder-se com o poeta (Thelen, 1997), propondo encarregar-se não só da tradução de São Paulo para alemão e holandês (Thelen, 1997: 53-54), mas também da divulgação internacional dessa obra. A tradução será publicada, em 1937, em versão holandesa (realizada de parceria com H. Marsman), seguida da edição da versão alemã (1938). O êxito, sobretudo da versão holandesa, foi grande, tanto junto da crítica como do mercado literário. Em 1936-37, T. e Marsman traduzem São Jerónimo e a trovoada (1936) (publ. hol.: 1939; publ. al.: 1941); pouco depois, Verbo escuro (1914) (publ. hol.: 1946; publ. al.: 1949). T. verterá ainda Napoleão (1940) para alemão (publ. 1997) e holandês (agora com G. Diels, publ. 1950), e Duplo passeio (1942) para alemão (publ. 1951) (Franco, 2014: 204ss.).

Da vinda para Portugal e da longa estadia no país como convidado de Pascoaes esperar-se-ia uma continuação de Die Insel, uma nova obra de grande fôlego, agora sobre as peripécias vividas entre nós de modo a preencher o hiato entre o tempo narrado no romance maiorquino e no holandês. Sabe-se que T. chegou a fazer uma leitura pública de um dos fragmentos que integraria a referida obra – lamentavelmente sobre o tempo anterior à entrada em Portugal –, como o prova uma gravação realizada em 1966. Por outro lado, afirma numa entrevista de 1987 não poder expor o que viu de grotesco entre nós por um sentimento de gratidão para com Pascoaes (Schäfer, 1990: 180). Certo é que essa obra nunca chegou a público. Apenas sobreviveram três fragmentos, publicados em periódicos nos anos 70 e postumamente coligidos em Poetische Märzkälbereien [Tolices poéticas em março] (Thelen, 1990: 12-120). São eles: “Der Hirtenbrief” (1979) [“A carta pastoral”], “Grenzstein der Freiheit” (1975) [“Marco da liberdade”] – que integra a referida gravação – e “Die Gottlosigkeit Gottes oder das Gesicht der zweiten Insel” (1974) [O ateísmo de Deus ou o rosto da segunda ilha] – textos já traduzidos e comentados por Caeiro (1990: 41ss.). Porém, os dois primeiros textos incidem sobre a travessia da Espanha. Assim sendo, no que toca aos ecos literários da fase portuguesa de T., os leitores de pouco mais dispõem do que da terceira narrativa referida, bem como de “Tabakpanik” (1955) [“Pânico tabágico”]. De facto, se se atender ainda a digressões nos dois grandes romances e à estreia literária de T. que foi a publicação da coletânea lírica Schloss Pascoaes (1942) [“Solar de Pascoaes”] (Caeiro, 1990: 110-187), dedicada ao anfitrião, encontra-se reunido o escasso registo literário da estadia de T. em solo português.

“O ateísmo de Deus”, que retrata a viagem de carro do Porto até ao solar de Amarante e é construído com vista ao clímax constituído pelo primeiro encontro físico com Pascoaes, oferece uma imagem simultaneamente eufórica e disfórica do país. Por um lado, Portugal é de uma surpreendente hospitalidade, a salvação da guerra devido à generosidade do anfitrião. Por outro, ao longo do texto ressalta uma atitude crítica quanto à grande clivagem social e económica existente no norte rural do país – curiosamente, sem qualquer ilação sobre o sistema político vigente. Embora com pinceladas de humor, é retratada a vida arcaica dos camponeses, marcada por uma extrema pobreza aliada a uma notória humildade. Em flagrante contraste, os “carros de luxo tipo Rolls-Royce […], com elegantes chauffeurs de bata branca” (Caeiro, 1990: 102), a cuja passagem os camponeses se descobrem respeitosamente.

Já “Pânico tabágico” gira em torno de um fait divers de cariz anedótico da vida do grande fumador que era Pascoaes, cujo comportamento numa loja de tabaco portuense é considerado suspeito pelo comerciante. De permeio, são-nos dados breves apontamentos sobre alguns aspetos do panorama social do Porto. Como é frequente em textos de exilados no nosso país, evocam-se os cafés enquanto espaços sociais e culturais masculinos. Por seu turno, adotando a perspetiva crítica do incomodado comerciante mas simultaneamente dela se distanciando, o narrador, que não idealiza os refugiados, aponta com humor certos estratagemas, alguns mesmo condenáveis, a que aqueles recorrem para sobreviver.

Enquanto mediador intercultural, T. tem o mérito indiscutível, não apenas de se ter antecipado a qualquer outro comentador quanto ao estudo e ao reconhecimento da importância da obra e do pensamento de Pascoaes (Franco, 2014: 17), mas também de se ter dedicado infatigavelmente à sua divulgação entre editores e escritores da Europa de além-Pirenéus. Por outro lado, não se pode negar uma certa desilusão relativamente à escassez e à superficialidade dos ecos literários do seu exílio em Portugal.

 

Passagens

Holanda, Espanha, Suíça, Portugal

 

Citações

Hoje à noite vou-vos ler um capítulo de um livro não publicado, no qual trabalhei muito tempo. […] O que vou ler, é de um manuscrito de cerca de 900 páginas […]. O livro tem o título englobante de “O ateísmo de Deus ou O rosto da segunda ilha”. Ateísmo de Deus, porque no centro do livro está a figura do meu amigo místico, Teixeira de Pascoaes, do poeta português, cujas obras e livros traduzi para holandês e alemão, e no centro das considerações de Pascoaes está a ideia do ateísmo religioso.
(Thelen, 1966 [O ateísmo de Deus]: CD 1) (trad. minha)

Naquele tempo vagueavam pelo país refugiados famintos, de todos os idiomas; já algumas lojas tinham sido pilhadas; muitos deles, que na sua terra não ousariam sequer deixar em dívida o imposto para a Igreja, tinham fugido sem pagar a conta duma bebida. O cidadão daquele país à primeira vista tão rico, e sobretudo tão hospitaleiro, era intrujado onde calhava. Vivia-se em estado de alerta.
(“Pânico tabágico”, trad. de Caeiro, 1990: 194)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Pascoaes, Teixeira de (1938), Paulus. Der Dichter Gottes [São Paulo, 1934], trad. de Albert Vigoleis Thelen, Zürich, Rascher Verlag.
—- (1941), Hieronymus. Der Dichter der Freundschaft. Aus dem Portugiesischen übertragen von Albert Vigoleis Thelen [São Jerónimo e a trovoada, 1936] Amsterdam; Leipzig, Tiefland.
—- (1949), Das dunkle Wort. Aus dem Portugiesischen übertragen von Albert Vigoleis Thelen, [Verbo escuro, 1914], Zürich, Rascher-Verlag.
—- (1997), Napoleon. Spiegel des Antichrist. Aus dem Portugiesischen übersetzt und mit einem Text über Pascoaes von Albert Vigoleis Thelen [Napoleão, 1940], Bonn, Weidle Verlag.
Thelen, Albert Vigoleis (1942), Schloß Pascoaes, Zürich, Rhein-Verlag.
—- (1983), Die Insel des zweiten Gesichts. Aus den angewandten Erinnerungen des Vigoleis. Roman. Ungekürzte Ausgabe, Frankfurt/Main, Berlin, Ullstein. [11953]
—- (1990), Poetische Märzkälbereien, Mönchengladbach, Juni.
—- (1997), Cartas a Teixeira de Pascoaes [1935-1952], org., introd. e tábua biobibliográfica de A. V. T. de A. C. Franco, Lisboa, Assírio e Alvim.
—- (2001), Die Gottlosigkeit Gottes oder Das Gesicht der zweiten Insel. Gelesen und frei vorgetragen von Albert Vigoleis Thelen, 2 CDs, Edition Die Horen, Bremerhaven. [gravação de 1966]

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Caeiro, Olívio (1987), “Duas imagens de Portugal na literatura alemã do séc. XX: Albert Vigoleis Thelen e Johannes Schenk”, Runa, revista portuguesa de estudos germanísticos, n.º 7-8: 173-201.
—- (1990), Albert Vigoleis Thelen no solar de Pascoaes, Porto, Brasília.
Franco, António Cândido (2014), Trinta anos de dispersos sobre Teixeira de Pascoaes
Jung, Werner (2005), “Faschismuskritik und Deutschlandbild in Die Insel des zweiten Gesichts. Zur Dimension von Albert Vigoleis Thelens Zeitkritik”, Eickmans, Heinz/ Missine, Lut (Hrsg.), Albert Vigoleis Thelen. Mittler zwischen Sprachen und Kulturen, Münster/New York/München/Berlin, Waxsmann: 21-29.
Pütz, Jürgen (1990), Doppelgänger seiner selbst: der Erzähler Albert Vigoleis Thelen, Wiesbaden, Westdeutscher Verlag.
Schäfer, Ansgar (1990), “Albert Vigoleis Thelen e Teixeira de Pascoaes”, Colóquio/Letras, n.º 113/114: 175-181.

 

Maria Antónia Gaspar Teixeira