Silva, Maria Helena Vieira da

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Silva, Maria Helena Vieira da

(1908-1992)

vieiraminO nome de Maria Helena Vieira da Silva andará sempre associado à diáspora portuguesa, penitente percurso em que Mulher e Pintora assumem a cumplicidade e a comunhão fraterna inviabilizadoras de destrinça. De facto, a pintora não existe sem a mulher ou, parafraseando Heidegger, “o artista é a origem da obra. A obra é a origem do artista. Nenhum é sem o outro”.

Maria Helena, como, segundo Agustina, gostava de ser chamada, nasce em Lisboa a 13 de Junho de 1908. Filha de diplomata, parte aos 2 anos para a Suíça, não por missão diplomática do progenitor, antes por causa da tuberculose que cedo lhe iria ceifar a vida.

Regressa a uma Lisboa ainda conturbada pela implantação da República em 1911, e instala-se em casa do avô materno, um republicano convicto. A sua formação inicial é feita em casa num mundo de adultos, o que lhe trouxe, como admitirá mais tarde, alguns momentos de angústia.

Aos cinco anos começa a fazer desenhos e aos 13 desperta para a pintura a óleo. Emília S. Braga e Armando Lucena são os seus primeiros mestres. Frequenta depois um curso de escultura na E. de Belas Artes de Lisboa, e a disciplina de anatomia na E. de Medicina.

Lisboa torna-se redutora para o génio de M. Helena. Parte em 1928, com a Mãe, para Paris. O seu talento encontra aí o meio adequado à libertação, à rutura com uma tradição figurativa sem negligenciar, contudo, a praxis essencial de analogia com a realidade. Nesse mesmo ano visita Itália detendo-se nos grandes mestres da arte. No regresso a Paris, ainda impressionada pelas linhas e as formas dos artistas italianos, frequenta um curso de escultura na Academia La Grande Chaumière e participa, pela primeira vez, numa exposição. É aí que, durante a década de 30, integra a geração da Nova Escola de Paris e segue os ensinamentos de Fernand Léger, Henri Waroquier e Charles Dufreuse, mantendo, contudo, alguma independência dos -ismos de uma Europa efervescente. Cezanne, Picasso, Duchamp, Braque, Dubuffet, Paul Klee, Mondrian são só alguns dos nomes que a marcaram.

Estava lançado o destino de M. Helena na sua ligação ao abstracionismo propondo obras onde era clara a fragmentação de motivos figurativos num processo destrutivo das formas significantes em demanda do onírico. Refiro uma arte que, privilegiando formas e cores, nega temas e figuras e bane o compromisso com a realidade.

Quedando-se, inicialmente, num abstracionismo geométrico, denominado em França l’Art Concret, caminha a bom ritmo para a Abstração Lírica deslizando para o Expressionismo Abstracto onde formas e cores são privilegiadas em detrimento dos valores gestualistas. Tudo isto, diga-se, sem nunca perder uma marca pessoalíssima, independente, autónoma, caracterizada pela sua cultura visual. Assim se poderá falar da sua pintura enquanto “point de départ historique d’abord, origine des signes dont l’oeuvre procède, mais aussi, à l’autre extrémité, point d’arrivée, une nouvelle origine, d’ordre esthétique cette fois que l’œuvre atteint et que nous appelons originalité” (Vallier). Tinha consciência, M. Helena, de que “a obra de arte reflecte-se na superfície da consciência […] [e que] a análise dos seus elementos constitui uma ponte em direcção à vida interior da obra” (Kandinsky). O seu percurso culmina na abstração a partir da figuração. Pode-se afirmar que na sua pintura “la catégorie spatiale a basculé la catégorie temporelle. Espace et temps ont révélé leur étroite liaison” (Vallier).

É ainda em Paris que conhece Arpard Szenes, pintor húngaro, admirador e incentivador da sua obra, com quem casa em 1930. Com ele viaja pela Hungria e a Transilvânia deixando-se impressionar pela paisagem tanto quanto outrora a impressionou Sintra que, posteriormente, faria questão de mostrar ao marido.

Instalam-se em Paris na Villa das Camélias onde arduamente trabalham e convivem com os intelectuais e os artistas. Maria Helena faz, em 1933, a sua primeira exposição individual e, no ano seguinte, vende o seu primeiro quadro ao pintor Campigli.

Uma doença – icterícia – e o desejo de ajudar o amigo António Pedro, que prepara a primeira exposição, fazem com que venha a Lisboa e aí permaneça uma temporada em casa da mãe onde também tem atelier. Disto resulta uma exposição conjunta com Arpad.

Regressa a Paris, mas o deflagrar da II Grande Guerra Mundial devolve-a a um Portugal, aparentemente fora do conflito. Ainda que tenha perdido, pelo casamento, a nacionalidade portuguesa, julga ser aqui o seu porto de abrigo, sobretudo em tempo de guerra. O seu país não lhe corresponde, nega-lhe a devolução da nacionalidade portuguesa e recusa a sua participação na Exposição do Mundo Português.

O casal parte para o Rio de Janeiro (1940). Foi difícil a adaptação por serem aí desconhecidos e por não se integrarem nas correntes figurativas dominantes. Arpad Szenes dedica-se ao retrato e ao ensino das artes, Maria Helena trabalha com cerâmica e azulejos. As notícias da Guerra na Europa causam-lhe profundo desânimo que traduz em “O Desastre” (1942). Mantém relações de amizade com Cecília Meireles, Murilo Mendes e com o pintor uruguaio Ardenquin, a quem fica a dever a divulgação da sua obra no Brasil, através da revista Alfar. Expõe em Belo Horizonte e, Jeanne Bucher organiza, em Nova York, a sua primeira exposição individual.

Terminada a guerra em 1945, o casal permanece ainda mais 2 anos no Brasil e só depois regressa a França. M. Helena é agora um nome consagrado. Vende obras, expõe individualmente por todo o mundo, recebe prémios, tem, enfim, reconhecimento internacional.

Naturalizada francesa em 1956, agraciada várias vezes pelo estado francês, compra um terrreno na Rue de l’ Abbé Carton onde manda construir uma casa com dimensões para ter o seu atelier. Aí continua a pintar dedicando-se também à tapeçaria e ao vitral – é autora de 8 vitrais da Igreja de Saint Jacques. Em Portugal, ainda que tardiamente, a Fundação Calouste Gulbenkian promove uma exposição retrospetiva da sua obra.

Em 1974 sente que poderá olhar o seu país de origem de outra forma. Faz dois cartazes sobre a Revolução dos Cravos editados pela mesma Fundação, expõe e a sua colaboração começa a ser cada vez mais solicitada – é da sua autoria a decoração da Estação de Metro da Cidade Universitária (1983-1988).

O falecimento do marido em 1985 perturba-a motivando a pintura do quadro “O fim do mundo” (1985). Em 1990 é criada, em Lisboa, a Fundação Vieira da Silva-Arpad Szenes. Morre a 6 de Março de 1992, em Paris, tinha acabado de pintar, em jeito de presciência, uma série de têmperas intitulada “Luta com um anjo” (1992). Deixou a sua obra espalhada por todo o mundo, mas sobretudo em França e Portugal.

Passagens

Portugal, Suíça, França, Brasil.

 

Citações

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La Scala – 1937 (60 x 92 cm, óleo s/ tela)

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Les drapeaux rouges – 1939 (80 x 140 cm, óleo s/ tela)

q3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Desastre – 1942 (400 x 300cm, óleo s/ tela)

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La Gare Saint Lazare – 1949 (60 x 73 cm, óleo s/ tela)

q5

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

La Scala – 1937 (60 x 92 cm, óleo s/ tela)Bibliotheque – 1949 (114 x 146 cm, óleo s/ tela)

q6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Maisons grises – 1950 (16 x 27 cm, óleo s/ tela)

q7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Lisbonne – 1962 (50,6 x 71 cm, têmpera s/ papel)

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Ville ou Porto – 1962 (69 x 68 cm, têmpera s/ papel)

q9

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Biblioteca em Fogo – 1974 (54,4 x 48, óleo s/ tela)

q91

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A poesia está na rua I – 1974 (104 x 79,5 cm, têmpera s/ papel)

q92

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Soles de Agosto – 1986 (40 x 35 cm, óleo s/ tela)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

BESSA-LUÍS, A. (2009), Longos Dias têm Cem Anos, Lisboa, Guimarães Editores.
HEIDEGGER, M. (2005), A origem da obra de arte, Lisboa, Edições 70.
KANDINSKY, W. (2006), Ponto, Linha, Plano, Lisboa, Edições 70.
VALLIER, D. (1988), Pour Vieira da Silva 1988. Colóquio Artes, n.º 77, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, p. 21.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

AA. VV. (2010), Abstracção. Arte Partilhada, Lisboa, Fundação Millenium bcp.
AA. VV. (2011), A Vez e a Voz da Mulher em Portugal e na Diáspora, Califórnia, University of the California.
AA. VV. (2010), Longos dias têm cem anos. Vieira da Silva: um olhar contemporâneo, Lisboa, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa.
AZEVEDO, F. (1988), Vieira da Silva o longínquo desastre. Colóquio Artes, n.º 77, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 14-16.
BELL, C. (2009), Arte, Lisboa, Edições Texto & Grafia.
CALZETTA, J. (2006), Vieira da Silva, Paris, Cercle d’art.
DIRTHEY, W. (1994), Sistema de Ética, S. Paulo, Ícone.França, J-A. (1958), Vieira da Silva, Lisboa, Artis.

Isabel Ponce Leão