Rolin, Olivier

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Rolin, Olivier

(1947)

rolinminEscritor, jornalista, crítico literário, editor, Olivier Jean Rolin nasceu em 1947 em Boulogne-Billancourt, mas passou a sua infância no Senegal. Regressou depois ao seu país natal, tendo estudado em Paris, primeiro no Lycée Louis-le-Grand e depois na École Normale Supérieure, onde obteve os diplomas em filosofia e em letras.

Revolucionário de extrema-esquerda, a conjuntura política e social da época do Maio de 68 marcou-lhe a vida e a obra. Militante do braço armado da organização maoísta Gauche Prolétarienne e responsável pela fração Nouvelle Résistance Populaire, consagrou toda a sua vida à ação política radical entre Setembro de 1967 e 1974.

Seguiu-se então um vazio, um silêncio que só iria ser quebrado em 1983 com a publicação de Phénomène futur, uma obra que ocorre num país imaginário numa sociedade pós-século XX e que fala fundamentalmente de revolução. Como o próprio confessou: “Desde que dejé de pertenecer a Gauche Proletarienne, es decir, cuando ese grupo dejó de existir, en un momento dado, me sentí tal y como expreso en mi libro Tigre de papel cuando el narrador, que me representa en gran parte, dice: ‘Aparte de esa nave de locos que era Gauche Proletarienne, y de cuando tenía veinte años, no me he sentido realmente en casa en ningún otro sitio’. No hubo ningún otro lugar que sintiera como mi lugar. Ni con las izquierdas, ni con un partido, ni con los socialistas, ni con ningún grupo intelectual, ni con una escuela novelística, ni siquiera con la derecha. En ningún sitio. Y lo digo sin ningún tipo de afectación, verdaderamente no me siento pertenecer a nada, lo cual, al mismo tiempo, hace que me sienta bastante libre” (Rolin, 2005).

Desde então não mais deixou de escrever: Bar des flots noirs (1987), En Russie (1987), Sept villes (1988), La Havana (com Jean-François Fogel e Jean-Louis Vaudoyer, 1989), L’invention du monde (1993), Port-Soudan (Prémio Fémina, 1994), Mon galurin gris. Petites géographies (1997), Méroé (1998), Paysages originels (1999), La langue suivi de Mal placé, déplacé (2000), Tigre en papier (Prémio France Culture, 2002), Suite à l’hôtel Crystal (2004), Rooms (2006) e Un chasseur de lions (2008).

Para além de escritor, Rolin é igualmente um viajante. Aliás, para o escritor francês há entre o ato de escrever e o ato de viajar uma relação íntima que se prende com uma intranquilidade permanente, com uma “incapacidade de encontrar ou aceitar um lugar no mundo, no tempo, na sociedade” (Rolin, 1997: 10). Viajante e escritor partilham o mesmo dépaysement, o sentimento de não pertencer a lugar algum, de Mal placé, déplacé, que corresponde ao afastamento do magma dos lugares-comuns. Assim, se o viajante deseja contornar os lugares-comuns geográficos, de igual forma o escritor tem consciência de que a rotina linguística e os estereótipos representam a morte da literatura e da escrita. No entanto, e de forma subversiva, os estereótipos são por ele utilizados de forma consciente e não deixa mesmo de sair em sua defesa, assegurando que “uma cidade sem lugar-comum seria uma cidade dispersa, absolutamente submetida ao diverso, reduzida a pó, uma cidade invisível” (Rolin, 1997: 90). Talvez por isso mesmo a metáfora (do gr. μεταφορά = transporte) seja a sua figura de eleição, aquela que melhor traduz a tensão entre o lugar e o não-lugar, entre um movimento simultaneamente centrífugo e centrípeto: “Dans ma petite théorie personnelle, ce qui m’a fait écrire depuis le début, c’est la tension entre un mouvement centrifuge, de non-adhésion, de non-appartenance, d’inclination à l’exil, et une tendance lâche, pour la qualifier psychologiquement, ou, pour la qualifier physiquement, centripète, qui mène à essayer d’adhérer, d’appartenir. C’est cette tension contradictoire qui crée l’énergie nécessaire à l’écriture” (Rolin, 2003).

É este movimento que melhor carateriza o ritmo da sua escrita, um ritmo que condensa em si o vaguear do escritor-viajante e o fluir vertiginoso da sua memória, num constante vaivém de espaços-fragmentos que são também espaços-literários, espaços ficcionais com paisagens literárias, de cidade em cidade, de bar em bar, de quarto de hotel em quarto de hotel, de língua em língua, de escritor em escritor.

O escritor-viajante detém em si o poder da invenção que nos conduz à (re)criação de uma cronotopia interna à viagem e à literatura, simultaneamente anacrónica e anamórfica, onde as fronteiras do contínuo, do contíguo, do simultâneo, do momentâneo, do presente, do passado se diluem. A memória escorre, assim, ao sabor do deslizar lento e vertiginoso das imagens-intertextos, cujos traços se diluem na (re)construção das cidades, dos seus mitos, da sua luz, da passagem das suas horas.

Em Lisboa, cidade-sardinha curvada, amontoada, enrugada, a única cidade com o poder de fabricar com o finito o infinito, “pequenos Pessoas, de gabardina e chapéu pintados com molde caminham nas paredes com passo apressado” (Rolin, 1997: 90), talvez em direção a Alfama “bricabraque de gaiolas de pássaros, roupa estendida, réstias de cebolas, gatos de telhados, pedaços de Tejo, de céu e de pedra entremeados” (Rolin, 1997: 89). Coimbra, uma imensa capa negra arrastando latas de conserva. Nos Açores, velhos de pele tisnada e olhos azuis relembram a caça ao cachalote a bordo de estreitas canoas. A sua alma tem sede de uma ode marítima, do mar das grandes vagas e da agitação frenética dos portos. Leixões: movimento giratório de hélices, vaivém de braços mecânicos, deslizar das escotilhas, as vidraças das gruas incendiadas pelo sol deslizando suave e energicamente, caixas empilhadas, os gritos dos marinheiros em todas as línguas portuárias, a pulsação lenta das máquinas, o trovão dos contentores prestes a ser enviados para os quatro cantos do mundo.

 

Passagens

Rússia, Sibéria, Porto Sudão, Portugal, Buenos Aires, Trieste, Praga, Alexandria, Nova Iorque, Valparaíso, Sarajevo, Goa, Havana.

 

Citações

Dans les souvenirs d’un homme qui ne se lasse pas de porter aux barmaids un amour vif et futile tournent des silhouettes de villes au loin, des portraits de femmes qu’un trait brillant sauve de l’ombre, des évocations d’écrivains qu’il a connus – en chair et en os, ou en mots? Buenos Aires, Lisbonne, Trieste, Prague ou Alexandrie, ce lent vertige fait s’échanger les lieux, glisser les images jusqu’à esquisser la chimère d’une ville unique, d’une femme qui les rappelle toutes, Amalia, Adriana, Aurelia de l’Ideal, d’un écrivain-Protée dont Pessoa, le poète aux multiples masques, pourrait être la figure centrale. (Bar des flots noirs, p. 3)

O cavalo de bronze do rei D. José resfolega diante do Desconhecido, as narinas aspirando os primeiros vapores. Atrás dele está Lisboa, as suas colinas, os seus telhados de telha, as fachadas suavemente policromadas, e todas as lanternas, urnas, flâmulas, agulhas de pedra, que ela eleva para o céu, e os arabescos de sombra das folhas das palmeiras. À sua frente, nada. O nada branco, talvez «o mar novo e as mortas eras
Ah, era inevitável que se chegasse aí. Pessoa. Grande lugar-comum a evitar, agora. Com, em primeiro lugar, o fado, em segundo as sardinhas e o bacalhau, em terceiro o terramoto de 1755, em quarto os azulejos, em quinto a saudade. Talvez também os eléctricos. (O meu chapéu cinzento, p. 90)

Et voilà. Maintenant, il me reste des morceaux de voix que je n’entends qu’avec la pensée. Et, au fur et à mesure que disparaissaient les autres souvenirs, c’est la ville elle-même de Lisbonne qui est devenue, assez étrangement, le corps effacé d’Alfama, ce sont ses collines, ses rues et ses toits inclinés vers les couleurs changeantes du Tage, les murs noir et bleu la nuit, les fourmillements de lumière rare le long des rails et sur les petits pavés de basalte du marquis de Pombal, des rues comme couvertes d’écailles de sardines, le ferraillement des tramways, le murmure métallique parcourant les caténaires qui les annonçait longtemps à l’avance, le va-et-vient des ferry-boats et des funiculaires, la silhouette des grues et des grandes coques de Cacilhas dans le soir… (Bar des flots noirs, p. 111)

Lisboa é uma gigantesca sardinha, a única cidade do mundo, que eu saiba, que é totalmente recamada de milhões de escamas brilhantes, esse famoso empedrado branco e negro, esses empedrados de calcário e basalto que tornam tão bestialmente escorregadias as ruas em declive (…). Essa espécie de mosaico bicolor que cobre Lisboa, filetado pelos carris dos eléctricos. (O meu chapéu cinzento, pp. 90-91)

O ocupante do quarto 202 não é um antigo estalajadeiro, mas um antigo piloto da companhia Air Portugal, membro de uma confraria de velhos beatos nostálgicos do doutor Salazar e dos pastorinhos de Fátima. Por ser muito chegado ao gin, e também por relatar com frequência, nos seus flight records, a aparição em pleno céu da Virgem Maria, Fernando das Dores Pereira foi primeiro relegado para o pessoal de terra, e finalmente corrido da companhia, responsabilizando por tamanho infortúnio os bolcheviques que fomentaram a abominável revolução dos Cravos, e os Sarracenos que continuam a manter prisioneiro o rei D. Sebastião. (Suíte no Hotel Crystal, p. 33)

(…) Victor Rosa, barman à l’Estalagem de Santa Cruz, fêter avec ses amis et collègues José Gabriel Goulart et Luis Cardoso, au bar de l’hôtel Fayal, le premier prix du Concours de cocktails de l’île de Pico dans les Açores (et toi-même, le temps d’un battement de cils, seras devenue une autre). L’océan devant l’hôtel fait clapoter à sa santé ses lèvres blanches, le volcan au-dessus déploie sa tente immaculée et conique comme celles d’Alexandre et de Darius Codoman. (L’invention du monde, p. 109)

D’un trait de plume, s’ils nous sont contraires, j’assèche la mer, j’apaise les vents : et notre bateau, s’il coule, à l’instant j’en suscite un autre, et un autre, et un autre encore, à l’infini. Celui-ci, par exemple, qui approche des jetées du port de Leixões, ses hélices barattant au ralenti les longues vagues crémeuses à reflets de cuivre et de lotion capillaire, et, vois, je sors aussi de mon chapeau les grues, la plage, le soleil couchant, et le bar aux vitres poisseuses de sel où je t’emmène boire un verre, a beira-mar. Um whiskizinho ? Voilà. (L’invention du monde, p. 155)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

ROLIN, Olivier (1987), Bar des flots noirs, Paris, Éd. du Seuil.
—- (1993), L’invention du monde, Paris, Éd. du Seuil.
—- (1997), Mon galurin gris: petites géographies, Paris, Éd. du Seuil. [trad.: O meu chapéu cinzento. Pequenas geografias, trad. de Adelaide Cervaens Rodrigues, Porto, Asa, 1999] —- (2000), La langue suivi de Mal placé, déplacé, Paris, Éd. Verdier.
— (2004), Suite à l’hôtel Crystal, Paris, Éd. du Seuil. [trad.: Suíte no Hotel Crystal, trad. de Madalena Cruz Beja, Porto, Asa, 2006]

 

Bibliografia Crítica Selecionada

AAVV (2008), Olivier Rolin: Literature, histoire, voyage, CRIN, vol. 49, Amsterdam, Rodopi.
MONMANY, Mercedes (2005), “Entrevista con Olivier Rolin: De Mao y el 68 a la literatura“, Letras Libres, nº 44, pp. 38-4.

Magda Barbeita (2011/11/14)