Morris, Jan

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Morris, Jan

(1926-)

Um dos maiores exemplos da literatura britânica pós-II Guerra Mundial é Jan Morris. Embora não tenha iniciado a sua carreira profissional como escritora mas como militar, é inegável o impacto e a influência da sua escrita.

Nasce em 1926, no Somerset, como James Humphrey Morris, filho de mãe inglesa e pai galês. A influência galesa de seu pai foi tão marcada que a autora acabou por se mudar para lá, onde continua a residir. Aos 17 anos, ainda como James, ingressa para o exército e é neste contexto que em 1945 realiza a sua primeira deslocação em direção à Palestina via Veneza e Triste, cidades às quais dedica uma parte considerável das suas obras. O primeiro contacto com diferentes países no contexto pós-II Guerra Mundial, e o consequente declínio do império britânico, influenciaram, mais tarde, a escrita da autora e a sua própria visão sobre o mundo. Quando questionada sobre o assunto, numa entrevista ao The Guardian, a própria afirma que, “it distilled in me my fascination with the phenomenon called the British empire, then in its requiem years, and perhaps lead to my life-long preferences for things poignant and transient” (2015). Esse fascínio resultará na produção da trilogia Pax Britannica (2012), que traça a história do Império Britânico.

Após abandonar o exército Morris dedicou-se à escrita jornalística, e escreveu para dois jornais, para o Times e, mais tarde, para o Manchester Guardian. Também como jornalista a sua escrita exerceu uma grande influência. O momento jornalístico que lançou a sua carreira foi quando, em 1953, publicou a notícia da primeira expedição bem sucedida ao cume do Monte Evereste. Com sucesso, acompanhou a expedição de Edmund Hillary e Tenzing Norgay e, quando estes chegaram ao cume, dirigiu-se para a estação de rádio mais próxima, sob risco de vida, para ser ele mesmo a entregar a notícia ao Times. O dia de publicação desta mesma notícia ficaria ainda marcado por ter coincidido com o dia da coroação da Rainha Isabel II.

Em 1949 casa com Elisabeth Tuckniss, com quem teve 5 filhos. Em 1972, com 46 anos, Morris viaja até Casablanca de modo a recorrer a uma operação de mudança de sexo, para se tornar, efetivamente, na pessoa que sempre sentiu ser. Após o seu regresso a Inglaterra vê-se na obrigação de se divorciar de Elizabeth, pois a legislação britânica da época não reconhecia o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Contudo, as duas continuam a viver juntas e em família. Dois anos mais tarde publica o livro Conundrum (2002), onde relata esta mesma experiência. A partir da operação, a autora passa a assinar os seus textos como Jan Morris, não sentindo nenhuma necessidade de mudança na sua escrita.

Durante a história de Literatura de Viagens muitos são os exemplos de mulheres viajantes que sentiram a necessidade de se vestirem e agirem como homens para melhor se enquadrarem nas várias situações em que se encontravam, até por questões de segurança, como por exemplo Dervla Murphy no seu livro Full Tilt: Ireland to India with a Bicycle (1965). No caso de Morris, ela fez as suas primeiras viagens como homem. Deste modo, seria de esperar que na sua escrita fosse de notar diferenças de género. Apesar de alguns autores afirmarem que “gender inevitably affects genre” (Siegel 2004: 5), outros afirmam que “Women’s travel writng is more different, but also less different, then it might seem: more different insofar as it compromises a large, distinctly heterogenous body of texts, but less different because some of these texts are entirely complicit with the dominant mode” (Holland/Huggan 2000: 132). No caso de Morris, questões de género estão geralmente afastadas dos tópicos da sua escrita, “the potential for travel to be figured as a fraught crossing of sexual boundaries is underemphasized in, if not, entirely absent from, Jan Morri’s later work” (Holland/Huggan 2000: 118).

O seu livro Venice é um exemplo da ausência de referência explícita à problemática de género. A obra foi primeiramente publicada e assinada sobre o nome de James Morris, em 1960, quando este ainda escrevia para o The Guardian. Mais tarde, já como Jan Morris,a obra foi revista três vezes. Porém, estas revisões pouco alteraram o trabalho original, como a própria afirma “(…) I changed the details of the book, but hardly touched its generalities” (Morris 2015: IX). De facto, Venice relata uma experiência pessoal, “It is Venice seen through a particular pair of eyes at a particular moment – young eyes at that, responsive above all to the stimuli of youth (ibidem), é o resultado, as emoções e sentimentos captados num determinado momento, com certas circunstâncias que se torna, por isso, impossível de reviver ou reescrever, “I cannot pretend that I feel about Venice as I felt when I originally wrote this book, and so once again I find that I cannot really revise it” (idem: XI).

De facto, o primeiro contacto da autora com a cidade foi ainda num contexto de pós-II Guerra Mundial e essa sua primeira impressão da cidade nunca haveria de ser superada mesmo após múltiplas outras visitas, em contextos bastante diferentes, “When I first knew this city, at the very end of the Second World War, it still perceptibly retained that sense of strange isolation, separateness, which had made it for so many centuries unique in Europe” (idem: X). Veneza rapidamente se tornou uma cidade cosmopolita e voltada para o turismo de massas e, consequentemente, também as experiências da autora enquanto viajante se foram alterando.

É inegável o sucesso que a obra Venice teve no espectro da Literatura de Viagens. De tal modo foi o sucesso da sua primeira publicação, em 1960, que permitiu a Morris abandonar a escrita jornalística para se dedicar exclusivamente à escrita literária.

Embora não goste de ser considerada como uma escritora de viagens, chegando mesmo a afirmar, numa entrevista ao The Guardian, “Yes, I hate being called a travel writer. (…) I have written many books about place, which are nothing to do with movement, but many more about people and about history. In fact, though, they are one and all about the effects of everything upon me — my books amount to one enormously self-centered autobiographical exposure!” (2015), preferindo ser tratada simplesmente como “a writer”, muitas das suas obras não podem deixar de ser consideradas e analisadas no contexto da Literatura de Viagens, como por exemplo Venice, ou até mesmo Hav. Este último, embora pretendesse ser “(…) uma alegoria difusa, disfarçada de entretenimento” (Morris 2013: 391), aquando da publicação da sua primeira parte em 1985 com as descrições detalhadas de pessoas e cenários que continha, levou muitos leitores a crer que se tratava de uma viagem efetivamente realizada por Morris a um lugar remoto e desconhecido do público em geral.

Nas notas de abertura ao livro Venice, Jan Morris torna claro para o leitor que este não se trata de um livro de história ou de um guia turístico. Contudo, a complementar a sua escrita descritiva e bastante detalhada do espaço, a autora utiliza várias referências históricas que explicam determinados comportamentos do povo veneziano, ou inclusive, fundamentam os processos para as construções tipicamente venezianas. De resto, no final da obra, encontra-se um índice onde estão cronologicamente organizados os factos históricos, de modo a que, o leitor que assim o desejar, possa ler a obra dessa forma. Dado que Veneza foi inspirando vários artistas  ao longo dos tempos, a autora lista durante a obra várias dessas referências, como a passagem de Goethe ou até mesmo de Robert Benchley, cuja descrição das ruas de Veneza, “Streets Full of Water”, dá nome ao capítulo 12 na obra de Jan Morris.

Venice é, sobretudo, um olhar pessoal sobre uma cidade, um relatar dos efeitos que as várias experiências, sensações no local produzem na autora, a forma como esta se insere na cidade. Vários são os momentos ao longo da sua obra em que apresenta ao leitor as suas opiniões sobre determinados lugares e os efeitos que estes lhe provocam. Mas mais inovadora é a forma como Jan Morris, através de uma descrição detalhada do espaço envolvente, consegue incluir o leitor na ação sem nunca deixar de, ao mesmo tempo que não deixa de estar presente enquanto autora.

 

Passagens

Portugal, Inglaterra, Casablanca

Citações

“O grande ‘M’! ‘M’ de quê? ‘M’ de Mirmidão ou ‘M’ de Mamon? De Maomé, o Profeta? De Mani, o Maniqueu? ‘M’ de MacDonald’s, ou de Monsanto, ou de Microsoft? ‘M’ de Melchik? ‘M’ de Minóico? ‘M’ de Minotauro?

Ou seria possível, perguntei-me enquanto zumbíamos pela escuridão adentro e eu sucumbia a um sono agitado, que fosse ‘M’ de Mim?” (Hav 2013: 390)

 

“Venice stood at the mouth of the great Po valley, facing eastwards, protected in the north by the Alps. She was a natural funnel of intercourse between east and west, and her greatness was built upon her geography (…). She became mistress of the Adriatic, of the eastern Mediterranean, and finally of the trade routes to the Orient – Persia, India and the rich mysteries of China.” (Venice 2015: 11)

 

“There are, however, some gorgeous artificial horses. (…) No pampered thoroughbred, no scarred war-horse has enjoyed so romantic a career as these. (…) Now they have left their belvedere for good, victims of conservationism – they were alleged to be suffering from the pollution of the air – to be replaced above the Piazza by dull replicas. I can hardly bear to think of them shut away out of the sunshine (…) I often saw them paw the stonework, at starlit Venetian midnights, and once I heard a whinny from the second horse on the right, so old, brave and metallic that St Theodore’s crocodile, raising its head from beneath the saintly buskins, answered with a kind of grunt.” (idem: 56-57)

 

“I write sourly, for disliking artificially conserved communities I have tended to see salvation as more distressing that the threat: but in my more rational moments I do recognize that letting Venice sink, my own solution for her anxieties, is a counsel of perfection that cannot be pursued. She will be saved, never fear: it is only in selfish moments of fancy that I see her still obeying her obvious destiny, enfolded at last by the waters she espoused, her gilded domes and columns dimly shining in the green, and at very low tides, perhaps, the angel on the summit of the Campanile to be seen raising his golden forefinger (for he stands in an exhortatory, almost an ecological pose) above the mud-banks.” (idem: 157)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

MORRIS, Jan (2002), Conundrum, Lodon, Faber & Faber.

— (2012), Pax Britannica, London, Faber & Faber.

— (2013), Hav, trad. Raquel Mouta e Vasco Gato, Lisboa, Tinta da China.

— (2015), Venice, London, Faber & Faber.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

HOLLAND, Patrick/HUGGAN, Graham (2000), Tourists with Typewriters. Critical Reflection on Contemporary Travel Writing, University of Michigan.

SERRANO, Sónia (2014), Mulheres Viajantes, Lisboa, Tinta da China.

SIEGEL, Kristi (2004), Gender, Genre & Identity in Women’s Travel Writing, New York, Peter Lang Publishing.

JORDISON, Sam (2015), “Jan Morris talks about Venice”, The Guardian.

 

 

Esmeralda Sofia Machado Ramos

(1º ano do Mestrado de Estudos Literários, Culturais e Interar-tes (MELCI): Ramo de Estudos Comparatistas e Relações Interculturais ( 2017-18))

 

Como citar este verbete:
RAMOS, Esmeralda Sofia Machado (2018), “Jan Morris”, in Ulyssei@s: Enciclopédia Digital. ISBN 978-989-99375-2-9.

Morris, Jan