Mirjol, Christina

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Mirjol, Christina

(1949)

mirjolminAtualmente dedicada exclusivamente à escrita, Christina Mirjol tem um percurso multifacetado onde se destacam as experiências de encenação de dois textos de sua autoria (Presqu’il, Companhia CDM, Paris / Avignon / 1º prémio no Festival du Bourget, 1988, e Je cours, j’ai tellement de hâte, Companhia «Presqu’il», Paris, 1993), de atriz e de professora de arte dramática, tendo dirigido vários estágios, oficinas de teatro e projetos de ação educativa a partir dos seu próprios textos ou de textos de outros autores (Herbert Achternbusch, Pascal Rambert, Pierre Péju…). Tem vários livros publicados: Dernières lueurs, Mercure de France, 2008; Suzanne ou le récit de la honte, Mercure de France, 2007; La fin des paysages, Éditions du Laquet, 2001; Les Cris, Éditions du Laquet, 1999, texto com mais de duzentos fragmentos que tem sido objeto de várias encenações e leituras encenadas.

Em 2003, Christina Mirjol co-escreve com Jean-Pierre Sarrazac o texto Cantiga para JÁ, Place de la Révolution, peça encomendada pelos organizadores de «Coimbra Capital Nacional da Cultura». Nesse contexto, desloca-se a Portugal onde trabalha com Jean-Pierre Sarrazac no espetáculo co-produzido pela Companhia de Teatro de Braga e pelo Centro Dramático Galego, com Diogo Dória, Carlos Feio, João Melo, Sílvia Ribeiro, Celso Parada, Elina Luaces, Rogério Boane e Sílvia Lima, tradução de Alexandra Moreira da Silva, cenografia de Claire Chavanne, figurinos de Sílvia Alves e Claire Chavanne, coreografia de Né Barros, criação musical de Carlos Martins e Armando Teixeira e vídeo de Amarante Abromavici e Tiago Afonso.

Tendo como ponto de partida uma reflexão sobre a utopia das Revoluções (25 de Abril, Maio de 68…), Christina Mirjol e Jean-Pierre Sarrazac propõem-nos não só uma viagem pela memória de Abril de 1974 (e uma assumida homenagem a Zeca Afonso), como também um percurso pela nova «esfera do familiar e do popular» na Europa moderna, consumista e mundializada, onde surgem lado a lado o quotidiano mais banal e feroz do mundo contemporâneo e o onirismo mais absoluto. O espetáculo teve estreia no teatro Gil Vicente, em Coimbra, em Dezembro de 2003.

 

Passagens

Portugal, França.

 

Citações

O HOMEM DO CARRINHO DE COMPRAS
Voltei a carregá-lo. Demais. Demasiado. Sim. Voltei a pôr coisas a mais. Está alto demais. Parecia maior o carrinho. Parecia muito maior. Parece-me sempre maior. Não é assim tão grande, este carrinho. Afinal, não é assim tão grande, é mesmo bastante pequeno, e afinal enche-se depressa. Voltaste a enchê-lo. Está alto demais. Demasiado alto. Transborda. Sim, está cheio, está alto, transborda, está alto, voltei a pôr coisas a mais. Demasiadas coisas, está alto demais. Olha que vai cair. Vai cair, pus coisas a mais. Sim. Demasiadas coisas. E mesmo assim não pus tudo. Não teria podido. Tudo, não, não teria podido. É muito pequeno, este carrinho. Muito pequeno. E não pus tudo. Mas encheste-o demais, diz a minha mulher, demasiado. Voltaste a enchê-lo demais. Porque no fundo, diz a minha mulher, gostavas de lá pôr tudo. Tudo de uma só vez. Fazer tudo de uma só vez. Porque no fundo do teu coração esperas lá pôr tudo, diz a minha mulher. O carrinho cheio, claro, ela sabe do que fala, está na caixa. Porque carrinhos vejo eu passar, diz a minha mulher, e sempre cheios, todos, está alto de mais, demasiado alto, olha que vai cair. Vou voltar, digo-lhe eu. Vais ter de voltar, diz-me ela. Deixo isto tudo e depois volto, digo-lhe eu. (…)
Ela é esperta, é verdade, quando passo na caixa, faço de cliente, e ela, na máquina, regista as compras e faz de operadora de caixa. Fazemos de conta que não nos conhecemos e eu, eu gosto muito de fazer de cliente, tenho o tempo todo. Conhecemo-nos aqui. É verdade, eu e a minha mulher conhecemo-nos aqui. Eu era metalúrgico. Mas tudo isso acabou. Agora tenho o tempo todo.
(Cantiga para JÁ, Place de la Révolution, pp. 79 e 81)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Mirjol, Christina / Jean-Pierre Sarrazac (2003), Cantiga para JÁ, Place de la Révolution, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Braga, CTB / Coimbra Capital Nacional da Cultura.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

AAVV (2003a) «Uma Cantiga para JÁ», programa do espectáculo Cantiga para JÁ, Place de la Révolution, Braga, CTB / Centro Dramático Galego.
SILVA, Alexandra Moreira da (2003b), «Para um teatro “pré-filosófico”: temas e variações», prefácio a Cantiga para JÁ, Place de la Révolution, tradução de Alexandra Moreira da Silva, Braga, CTB / Coimbra Capital Nacional da Cultura.

Alexandra Moreira da Silva (2011/11/18)