McCarthy, Mary

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McCarthy, Mary

(1912-1989)

maryminEscritora norte-americana, Mary Therese McCarthy é autora de uma vasta obra que se distribui por domínios como a reportagem, o romance, o conto, o ensaio, a crítica literária, a narrativa autobiográfica, os textos de opinião e de reflexão política, entre outros escritos menores. Da sua obra ficcional destacam-se romances como The Company She Seeks (1942), A Charmed Life (1955), Birds of America (1971), mas a consagração como escritora deve-se à autobiografia, Memories of a Catholic Girlhood (1957) – relato da formação católica da autora e da sua posterior perda de fé.

Tendo iniciado a sua carreira como jornalista em The Nation e The New Republic (Nova Iorque), Mary McCarthy cedo colaborou em The Partisan Review, juntando-se às personalidades que fizeram da PR uma das mais influentes revistas do meio cultural e político norte-americano. Como muitos intelectuais do período 1930-60 (de Edmund Wilson a Alfred Kazin ou Hannah Arendt), articulou a sua intervenção cultural com uma forte intervenção política. Trotskista e anti-Estalinista (a partir dos anos 30), Mary MCarthy foi uma das mais radicais mulheres da esquerda americana do seu tempo, desafiando os papéis reservados à mulher, sendo ela própria um exemplo da emancipação feminina que defendeu.

Mary McCarthy viajou por todo o mundo, tendo realizado reportagens em zonas de guerra como o Vietnam, na origem do livro Vietnam (1967), publicado em português em 1968. Desconhecem-se os motivos que trouxeram Mary McCarthy a Portugal, no Inverno de 1955, mas não é de excluir a hipótese de uma visita oficial, dado que veio com o marido, o diplomata James R. West (ligado ao Plano Marshall), e manteve contactos com altos funcionários governamentais.

Portugal é objeto de um estudo anatómico em dois textos: em “Letter from Portugal”, enviado para The New Yorker (Feb. 1955; reed. em On the Contrary (1962), e no artigo “Mister Rodriguez of Lisbon”, publicado em The Harper’s Magazine (Aug. 1955: 65-70), e dedicado ao tema das “Casas Económicas”. A passagem por Portugal parece ecoar ainda em A Charmed Life (1955), na descrição de uma empregada de limpeza portuguesa que, num tribunal dos E.U.A., apregoa a superioridade das mães lusitanas.

Mary McCarthy percorreu Portugal de Norte a Sul, mas foi em Lisboa que o seu olhar se deteve, pois na capital viu concentrados e espelhados os profundos contrastes e desequilíbrios do país. Depois (do registo) das impressões iniciais de progresso e de modernização de Lisboa, com ar de “little America”, os sinais de pobreza e de degradação são descritos de forma microscópica, num processo de desconstrução das imagens de superfície. A “Letter from Portugal” é um texto de teor enciclopédico com múltiplas entradas para o Estado Novo: o corporativismo, o partido único, a Mocidade Portuguesa, as Casas do Povo, a Caixa de Previdência Social, os Sindicatos, os tipos de polícia, a censura dos jornais, a criminalização dos comunistas, os refugiados e exilados em Portugal, etc. Partindo de analogias pontuais com a Idade Média (i.e., Alfama “resembles the worst pages of Victor Hugo” in On the Contrary: 115), a autora faz a pintura de um país surreal (cf. infra Citações): a moderna auto-estrada Lisboa-Estoril e a visão dos “rebanhos” de perús e dos seus pastores (do Estoril) a caminho de Lisboa; a proliferação de impostos, taxas e licenças, (“Cigarrette lighters are licenced (…); every donkey toiling up a moutain road”; id: 119), os eletrodomésticos sem uso, a proibição da Coca-Cola ou de andar descalço, a obsessão da limpeza e a sujidade em lugares públicos; a censura (cortes nos filmes, como em “The Seven Deadly Sins”, reduzido a quatro pecados mortais” (id: 124); o discurso oficial de negação da pobreza (as pessoas são muito poupadas) e do desemprego (os pobres não querem trabalhar), o fosso entre as classes superiores e o povo alienado e miserável.

Que nenhum olhar é neutro provam-no as notas ligeiras da escritora sobre a arte em Portugal. Sobre a literatura dirá que “[t]he most recent Portuguese literary renaissance was in the nineteenth century” (ibid.). A pintura é referida como “derivative” e a arquitetura é objeto de uma longa crítica demolidora: tudo, em Portugal, é cópia de modelos estrangeiros (cf. Citações). Se, nalguns aspetos, o retrato de um país liliputeano tem pertinência, certas sentenças apenas refletem o célebre espírito cáustico de Mary McCarthy e contradizem outras afirmações suas (Portugal é “mixture of racial strains” (id: 108); “The Portuguese are very erratic and confound generalization” (id: 110).

As palavras mais positivas de Mary McCarthy sobre Portugal vão para o clima ameno, para a vegetação luxuriante (“a sort of semitropical paradise”; id: 111) e para as vistas panorâmicas que as colinas da cidade de Lisboa proporcionam a qualquer caminhante. Também os azulejos e os motivos marítimos dos passeios lisboetas lhe merecem palavras de elogio.

Apesar do contacto com oposicionistas do regime, em vão procurou a escritora vozes acusadoras de Salazar e a desmistificação da imagem oximórica de uma “ditadura benevolente”; quer portugueses quer estrangeiros a residir em Portugal confirmam em uníssono a visão do ditador como o santo e salvador da pátria descrito a Mary McCarthy por um luso-americano, na viagem para Lisboa: “The old men went on to relate eagerly (…) how terrible conditions had been Portugal in 1928, when António de Oliveira Salazar, born a poor peasant, left his post in Economics at the University of Coimbra to serve his country (…) saving always, always saving, till the national debt was paid; and how he had sacrified his personal life to the Estado Novo – never married, lived very simply and austerely, stayed up at night, working, always working”; id: 106-107).

A “Letter from Portugal” de Mary McCarthy é um impressionante catálogo de imagens de um Portugal de que ainda há sinais, a merecer a atenção da imagologia: decerto valeria a pena confrontar este retrato a preto e branco com o olhar de dentro dos surrealistas ou com o olhar dentro/fora de Eduardo Lourenço, em cujos escritos encontramos muitas imagens similares às de Mary McCarthy.

 

Passagens

EUA, Inglaterra, Itália, França, Vietname, Portugal.

 

Citações

This small country, with its variety of climates and mixtures of racial strains, is an assidous copyist, mimic and borrower. (…). The Miguelite wars were a small-scale version of the Carlist wars in Spain. (…) ‘They can copy anything,’ say the resident foreigners, speaking of the ‘little’ dress-makers, and the shoemakers. (…). This appears to have been true of nearly all the crafts throughout Portuguese history. Even the Manueline architecture, done in the Age of Discoveries and uniquely Portuguese, with its stone ropes and knots and anchors seems not so much a true architectural style as an innocent imitation of real life, too literally conceived. It is only in the far north, in the Minho and the ‘lost’ province of ‘Trás-os-Montes’ (Beyond the Mountains), that you find a pure architecture – the Portuguese baroque, done in granite and severe white plaster, and decorated with gold – that is not like anything else in the world.
This persistent copying of foreign models, this literal translation from one medium to another, produces an effect of monkey humor – a slight absurdity that at its best is charming, like a child’s recitation, and at its worst grotesque. The Portuguese genius, in fact, ranges between the charming and the grotesque (…). Lisbon itself is almost wholly charming – a model city of nearly a million people and an incalculable number of dogs. These multitudinous dogs – in muzzles, as prescribed by law – are forever underfoot (…); they are and must always have been one of the charms and absurdities of Lisbon. (On the Contrary: 108-109)

Lisbon is a planned city. It sprang from the despotic imagination of the Marquis de Pombal, who rebuilt it in the eighteenth century, after the great earthquake. It was planned, I should think, for pleasure and efficient administration, and this is what makes it seem like a toy city. It is full of ingenious contrivances (…). The ferryboats chugging back and forth across the harbor, the little blue train that sets forth, on time, for Estoril (…) all seem part of the toy mechanism; the very fragrance of fresh coffee that drifts like a golden gaze over the city seems to have come from a doll’s electric stove. (idem: 111-112)

Oporto is different. There, gray misery is very evident; the Oporto equivalent of Alfama is a scene of such purulent horror that the tourist flees, with his handkerchief to his nose (…). But Oporto, a dirty, foggy industrial city and the classic hotbed of Portuguese radicalism and rebellion, is under a cloud, both literally and figuratively, and nothing has been beautified by government fiat. (idem: 114-115)

Strangely, it is not the peasants on their donkeys, with their umbrellas, or the white-collar workers in the cafés (…) or the working-class women (…) who look foreign to American eyes; it is the moneyed classes who appear to be of a different breed. (…). The difference between rich and poor is so extreme in Portugal that it seems to have formed a carapace over the rich, making them torpid and incurious. (idem: 126)

The first witness was being sworn: Mrs Mary Viera, a cleaning woman who worked by the day. (…) Her English was surprisingly broken, and she had a voice queerly pitched, like a parrot’s.
Sandy made a soft, groaning sound. ‘She’s changed her testimony,’ he whispered angrily. ‘They all do it – these damned Portuguese. You get them in the court-room, and they get scared.’ (A Charmed Life: 230-231)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

McCARTHY, Mary (1955), “Letter from Portugal”, in The New Yorker (Feb. 1955), incluído em On the Contrary, pp. 106-131.
—- (1990), “Carta de Portugal”, tradução de Paulo Eduardo de Carvalho in Neil Slavin – PORTUGAL, 1968 (Catálogo de Exposição), Porto, Fundação de Serralves, s/n (30 págs).
—- (1955), “Mister Rodriguez of Lisbon”, in Harper’s Magazine, 211: 1263 (Aug. 1955), pp. 65-70.
—- (1955), A Charmed Life, New York, Harcourt, Brace and Company, (partes previamente publicadas em 1954 em The New Yorker).
—- (1957), Memories of a Catholic Girlhood, New York, Harcourt, Brace and Company.
—- (1962), On the Contrary. Articles of Belief, 1946-1961, London, Melbourne, Toronto, Heinemann.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

ABRAMS, Sabrina Fuchs / Mary McCarthy (2004), Gender, Politics, And The Postwar Intellectual, Peter Lang Publishing Group.
BENNET, Joy /Hochamann, Gabriella (eds.) (1992), Mary McCarthy; An Annotated Bibliography, New York, Garland Press.
BRIGHTMAN, Carol (ed.) (1996), Between Friends: The Correspondence of Hannah Arendt and Mary McCarthy 1949-1975, Harvest/HBJ.
BRIGHTMAN, Carol (1992), Writing Dangerously: Mary McCarthy And Her World, New York, Harvest Books.
KIERNAN, Frances (2000), Seeing Mary Plain. A Life of Mary McCarthy, New York, London, Norton & Company.
STWERTKA, Eve / Viscusi, Margo (eds.) (1996), Twenty-Four Ways of Looking at Mary McCarthy: The Writer and Her Work, Greenwood Press.

Maria de Lurdes Sampaio