Mathias, Marcello Duarte

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Mathias, Marcello Duarte

(1938)

Unknown-1Natural de Lisboa, filho de diplomata, ele próprio também diplomata de carreira, entretanto jubilado, herdou do pai, Marcello Mathias, a conjugação da diplomacia com a literatura que, no seu caso concreto, acabou por se consubstanciar sobretudo na escrita diarística, no ensaio e na crónica. Conta com uma longa experiência de vida no estrangeiro, iniciada logo na juventude (fez todo o curso secundário em Paris e frequentou a Universidade de Oxford) e, continuada mais tarde ao ritmo das suas missões como diplomata, levadas a cabo a partir de inícios da década de 70. Foi embaixador em Nova Delhi, em Buenos Aires e na UNESCO em Paris, depois ter sido secretário de embaixada, em Brasilia e Bruxelas e cônsul-geral em Nova Iorque. Essas vivências cosmopolitas, como todas as outras viagens que ao longo da vida empreendeu, levaram-no a desenvolver uma perceção ao mesmo tempo abrangente e enraízada do mundo, associada a um olhar inquieto sobre Portugal (vd. por exemplo, Mathias, 2006: 13-17), sobre os seus “atavismos insanáveis”, bem assim como sobre os sinais de amnésia nos mais variados setores da vida nacional e estrangeira aos quais sempre se mostrou sensível.

Quando instado a reconhecer o que trouxe dos países onde exerceu funções diplomáticas, Marcello Duarte Mathias resumiu: “Do Brasil, a descoberta de um Portugal diferente; da Bélgica, uma certa Europa; de Nova Iorque, uma energia contagiosa; da Índia, uma imensidão de tempo; da Argentina, um país de encruzilhada, à espera de si mesmo; de Paris, um mundo de afinidades.” (Gastão, 2007). Mas quem lê as páginas dos seus diários ou as suas crónicas logo percebe que essa síntese supõe, na realidade, um vasto leque de vivências sociais, culturais e estéticas que o diplomata-escritor foi enformando “entre o roteiro íntimo e a fantasia narrativa” (Mathias, 2001: 326), com notas quer sobre experiências fugazes ou circunstanciais a propósito, por exemplo, de encontros pessoais ou de visitas a exposições de pintura e museus, quer sobre questões de fundo ou individualidades ligadas ao mundo social, político ou cultural.

Marcello Duarte Mathias começou a publicar, em 1980, os seus diários, com o subtítulo de declarada resistência à fugacidade No Devagar Depressa dos Tempos. O primeiro recobria o período de 1962 a 1969. Só passados mais de vinte anos voltaria a reunir em volume as suas notas diarísticas, desta feita, congregadas em torno da sua experiência como Embaixador na Índia ((1993-1997). Porém, tanto o intitulado Diário da Índia como o posterior Diário de Paris (2007), acolhem também notas de viagem e estadia pontual noutros lugares, seja de estadia no estrangeiro seja de “regresso” ou passagem pela sua casa em Cascais. O autor tem ainda previsto publicar um Diário referente ao período que vai de 1970 a 1983.

Tendo sempre feito por separar a sua vida profissional, isto é, os meandros da diplomacia, do seu universo de escrita, os diários de Marcello Duarte Mathias não são pois volumes de notas diplomáticas de um notário zeloso de equidistâncias, nem tão pouco textos de registo de todos os meandros da vida própria e/ou alheia. Acima de tudo, o autor cultiva uma abordagem claramente subjetiva, experiencial, do mundo, reservando-se o direito (ou melhor até, o dever de escrita) da recriação ou da ficcionalização. Embora uma vez se tenha auto-retratado como “turista apressado e distraído por entre coisas e pessoas” (Mathias, 2004: 289), a sua argúcia ou atenção reflexiva a tudo o que o rodeia desmentem essa alegada distração e incutem tanto nas suas breves notas como nos seus textos mais longos um demarcado sentido de continuidade entre vida e cultura. Esse modo de se situar na literatura, quer como autor quer como leitor, insere Marcello Duarte Mathias na longa tradição montaigniana da busca do universal a partir do ensaio da “oscilante verdade” do eu, que revela ser uma forma de descoberta ou de busca de coincidência consigo mesmo. Também por isso mesmo lhe têm sido tão gratas a forma do diário e a figura do diarista em quem, aliás, reconhece a condição fundamental de um exilado em permanente demanda (Mathias, 2008: 112).

No seu livro mais recente, Marcelo Duarte Mathias cria inclusive um diário fictício de um exilado histórico, Máximo Gorki (seu alter-ego?), visitado por duas vezes por outro exilado, Lenine, na Ilha de Capri, aproveitando esse quadro de enunciação híbrida, entre novela e ensaio, para reflectir sobre os acontecimentos históricos do início do século XX e sobre a simultânea força e fragilidade da(s) ideologia(s) de que extravasa a complexidade da existência humana.

 

Passagens

Portugal, França, Estados Unidos, Índia, Alemanha, Argentina, Brasil, Bélgica, Macau.

 

Citações

Hotel Forte Aguada, Goa
Do mundo português, conheço Olinda no Recife, Ouro Preto e Sabará em Minas, e ainda Mazagão e Arzila, e a ilha de Moçambique, que é a síntese de tudo isto e muito mais.
Chego agora aqui com alguma emoção e uma intensa curiosidade.
Portugal decerto teria existido sem Goa, mas é esta que lhe confere projecção histórica e lhe enriquece a definição do que foi e é” (Diário da Índia: 110)

Cascais, sábado, 23 de Abril de 1994
Sopa de coentros, pastéis de bacalhau, alface, feijão frade, azeite e vinagre. Queijo de Azeitão e arroz doce.
Que ando eu a fazer do outro lado do mundo, pelos Ganges e Himalaias, se tenho aqui, à mão de semear, o paraíso à minha espera…!” (Diário da Índia: 152)

Da imensa e luminosa árvore de Natal toda engalanada do Centro Rockefeller aos quarteirões do sul do Bronx, esventrados, bombardeados, abandonados – quarto mundo à espera do auxílio americano -, Nova Iorque passa do oito ao oitenta à velocidade de um Ferrari. Sim, o contraste é aqui uma forma de velocidade. (“Nova Iorque” in A Memória dos Outros: 243)

Em Budapeste, pela primeira vez. Pertenço a uma geração que foi marcada pela insurreição operário-estudantil de Outubro de 1956 contra a ocupação soviética. Tanto ou tão pouco me marcou que o único romance que escrevi se inspirou nela. Na verdade, a minha personagem principal, Carlos Molnar, é um refugiado húngaro naturalizado português, e as cidades que refiro como Magyaróvar, nas proximidades da fronteira austríaca de onde ele se escpa, e Debrecen, situada na zona leste, fui buscá-las ao mapa.
Tenho assim com a Hungria uma velha relação platónica feita de alguma simpatia. (Diário de Paris: 181).

Berlim, sexta-feira, 20 de Junho
Primeira impressão: julgava vir encontrar uma moderníssima Hong Kong…dou com a praça do Areeiro! Cidade bem à imagem da Alemanha de hoje: assimétrica, amputada, adiada.
Escrevi há anos nestes cadernos, quando visitei a Alemanha pela primeira vez: «O nacional-socialismo tresmalhou-lhe a alma; a social-democracia deu cabo dela.». Julgo o diagnóstico ainda acertado: esta gente continua órfã. (Diário de Paris: 309)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

MATHIAS, Marcello Duarte (1980), No Devagar Depressa dos Tempos (Diário 1962-1969), Lisboa, Bertrand.
—- (1988), Lembrar de Raízes, Lisboa,Quetzal.
—- (2001), A Memória dos Outros – Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001. [Prémio D. Dinis, da Fundação Casa Mateus, e prémio de ensaio Jacinto Prado Coelho, da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários] —- (2004), Diário da Índia 1993-1997, Lisboa, Gótica.
—- (2006), Diário de Paris 2001-2003, Lisboa, Oceanos.
—- (2008), “Escrever a vida – Notas”, Escrever a vida: verdade e ficção. Org. de Paula Morão e Carina Infante do Carmo, Porto, Campo das Letras, 2008, pp.107-114.
—- (2008), Encontro em Capri ou Diário Italiano de Gorki, Lisboa, Oceanos.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

GASTÃO, Ana Marques (2007), Entrevista a Marcello Duarte Mathias in Diário de Notícias, 22 de Maio.
MENDES, Ana Paula Coutinho (2009), “Aquém e além da diplomacia: escritores no estrangeiro com Portugal no horizonte”, Lentes Bifocais. Representações da Diáspora Portuguesa do Século XX, Porto, Edições Afrontamento e Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, pp. 83-97.
MORÃO, Paula (2006), Prefácio a Diário de Paris 2001-2003, Lisboa, Oceanos, pp.I-IX.

Ana Paula Coutinho (2011/11/18)