Macedo, Helder

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Macedo, Helder

(1935)

1300791336_heldermacedoExemplo de universitário português da diáspora, pelo menos entre a década de 70 e 2004, altura em que se aposentou da cátedra Camões que ocupava como Professor de Estudos Portugueses e Brasileiros, no King’s College, em Londres, Helder Macedo começou por cumprir alguns dos trajetos próprios aos antigos impérios coloniais. Filho de um administrador das colónias portuguesas, nasceu na África do Sul quando o pai aí cumpria funções pró-diplomáticas, e viveu em Moçambique até 1948, vindo então para a metrópole, onde viria a frequentar a Faculdade de Direito de Lisboa, entre 1955 e 1959. Opositor ao regime e como tal censurado, perseguido e preso, acabou por exilar-se em 1960, na capital londrina onde, alguns anos mais tarde, viria a doutorar-se em Letras. A vida universitária levou-o a passar por Harvard, pela École des Hautes Études de Sciences Sociales em França e pela Universidade de S. Paulo, no Brasil, além de o ter levado a muitas outras paragens pelo mundo, por ocasião de convites e de participação em colóquios.

Ainda que, na juventude, tenha chegado a dedicar-se à ficção, que não só seria censurada como deliberadamente abandonada, foi como poeta que Helder Macedo se estreou em 1957, com um livro intitulado Vesperal, tendo sido também co-organizador das revistas Folhas de Poesia (1957-59), Graal (1956-1957) e Hidra (1966).

Bem mais tarde, na década de 90, então já “poeta em anos de prosa” (Macedo, 1991: 10), a vertente narrativa da sua obra, paralelamente à ensaística, viria a impor-se no panorama literário português, tendo o triângulo – África, Londres e Portugal – como enquadramento geográfico de referência do seu universo ficcional. Partes de África, o seu primeiro romance publicado em 1991, baralhou alguns daqueles que eram os hábitos de leitura em Portugal, mediante um estilo declaradamente “oblíquo e dissimulado” (Macedo, 1991: 29) que, ao introduzir no próprio texto a figura do autor como “condutor biograficamente qualificado das suas factuais ficções” (idem: 150), recorria a uma estratégia enredada de autoficção, então ainda pouco comum entre nós, e que aliás voltaria a evidenciar-se nas suas obras seguintes, levando até aos limites um jogo confusional entre autor textual e autor empírico, tal como entre verdade e verosimilhança ou fingimento. Mas Partes de África não sobressaiu apenas por se tratar de uma obra heteróclita, no seu mosaico discursivo, com vários jogos de espelhos intertextuais e metaficcionais; as suas memórias reais e/ou ficcionadas reconstruíam um interessante fresco da África colonial portuguesa que, só então, começava a ser revisitada pelo ângulo da literatura.

Os romances seguintes de Helder Macedo acabariam por acentuar a mobilidade de perspetiva em relação a Portugal, ao colocarem em cena personagens, elas próprias divididas entre espaços como, de novo, África e a Europa (Pedro e Paula), ou Londres e Lisboa (Vícios e Virtudes, Sem Nome). Estes quadros narrativos, certamente potenciados pelo próprio facto de o autor viver fora de Portugal (com excepção do período entre 1975 e 1980, tendo então inclusive exercido o cargo de Secretário de Estado da Cultura, no curto governo de Maria de Lourdes Pintassilgo), permitiram-lhe desenvolver no próprio discurso uma acentuada veia de humor, ironia, quando não mesmo de sarcasmo, a incidir sobre alguns aspetos da realidade portuguesa, sobretudo sobre alguma complacência em torno das cristalizações da identidade nacional, sobre a qual chega a desabafar, pela voz do narrador (em ficção de Autor), em réplica a um seu interno concorrente, o também personagem-escritor, Francisco de Sá (in Vícios e Virtudes): “O tanas. O tanas a identidade nacional, não há tal coisa. Há pessoas e circunstâncias. Mudam umas, mudam as outras, muda a identidade nacional. E se muda já não é a mesma, deixa de ser o que era, de modo que não há.” (idem: 27).

Não obstante, como já antes reconhecia pela voz do narrador-autor, e usando de indisfarçável auto-ironia, quando está de passagem por Lisboa não escapa a esse “estado permanente de sobrevivência precária” (José Gil), de modo que – admitirá – “faço sempre o que posso pela identidade nacional” (idem: 15). De resto, e ainda que seja pela via da desconstrução e da ambiguidade, é ainda em torno da identidade nacional que giram as suas auto-proclamadas “fantasmagorias da História” que se erguem como formas de reflexão ativa, também e sobretudo, sobre os contextos históricos mais recentes. Daí que possamos considerar as suas obras narrativas como um dos casos tão paródicos como sérios de ficções políticas, e de consequente intervenção cívica, no contexto da literatura portuguesa contemporânea. Nesse quadro, destaca-se o seu penúltimo romance Sem Nome (2005) que, com particular e empenhada acutilância, desafiando aquela que poderia ser a “saudável [ou alheada] distância de Londres” do Autor como da sua personagem exilada, José Viana, apontava ou denunciava algumas realidades e acontecimentos praticamente simultâneos à própria escrita e edição do livro, como sejam a polémica em torno da unificação da língua portuguesa e do acordo ortográfico (idem: 56), o alegado terrorismo islâmico, o caso da pedofilia na Casa Pia, o fenómeno da chamada “literatura light” ou “roman rose” em Portugal (91) ou as histórias por contar quer dos bastidores partidários, sobretudo do PCP, quer do universo do jornalismo português actual. Em texto autobiográfico, publicado em Outubro de 2004, no JL, e que viria a ser citado na contracapa do romance, Helder Macedo confidenciava que começara a escrever Sem Nome, há mais de um ano atrás, mas que de repente tinha percebido que estava a acontecer em Julho de 2004 (data que, registe-se, coincide com a morte de Maria de Lourdes Pintassilgo e à memória da qual o romance viria a ser cripticamente dedicado): “É a coisa mais zangadamente política que alguma vez escrevi. […] Oxalá que entretanto se torne num romance histórico” – registava o autor (loc.cit.). E fazia-o como quem sabe, e quer, que debruçar-se sobre o imediato seja um modo de forçar um mundo alternativo, ou seja, à altura das possibilidades abertas pela literatura.

 

Passagens

Portugal, África do Sul, Brasil, França, Inglaterra, Moçambique.

 

Citações

Tenho estado com frequência em Lisboa ultimamente. Fico sempre no mesmo quarto no Tivoli, vista para a Baixa, o rio ao fundo, o castelo numa colina um pouco à esquerda, outra colina mais próxima à direita, casas engastadas. A cidade parece pintada de branco ao primeiro sol. Ou uma tela branca ainda só com os desenhos delineados, ruas, árvores, colinas, casas, castelo, rio, a outra anda ainda um morto insditinto do céu, a primeira gente a recortar-se em baixo na Avenida, corpos esparsos. Depois as cores começam a emergir de dentro da tela. Vale a pena acordar de madrugada para ver uma pintura acontecer assim, de dentro para fora. Quando eu vivia em Lisboa, antes de Londres e dos exílios que se tornaram noutro modo de ver as coisas, era muito novo, não precisava de acordar para observar estas evidências, bastava prolongar a noite até de madrugada. (Vícios e Virtudes, p. 11)

O caso é que não havendo ainda liceu na Guiné (e mesmo depois só foi autorizado até ao 5º ano), tinha tido de ficar em Portugal. Onde e como foi longamente discutido, com toda a família e não família a ter opiniões menos eu, que só achava não merecer qualquer dos dois degresos mais favorecidos: o Rouge ou o Noir, o Colégio Militar (homenagem do Avô) ou os jesuítas de Santo Tirso (vingança do tio Pedro). Também se pensou na casa de um velho correligionário do Avô, mais tarde deputado por Moçambique à Assembleia Nacional, e fez-se a experiência enquanto os meus pais e o meu irmão continuaram em Moncorvo e eu tive de voltara a Lisboa para o início das aulas. A casa era bonita, uma das mais bonitas da Defensores de Chaves, que era então uma das avenidas mais bonitas de Lisboa, que era então um das cidades mais bonitas da Europa. (Partes de África, p. 44)

Bissau era uma pequena vila nostálgica e ansiosa, que transpirava o panteísmo esponjoso de uma lenta dissolução. A humidade dos corpos prolongava-os na do ar, os pássaros caíam nas varandas, latejando, com os bicos abertos, junto aos cães que o calor espapaçara, como tapetes, de ventre nas lajes e patas a lado, abrindo de quando em quando um olho vidrado de insectos e logo desistindo, num rosnido ralo e bocejante.” (idem, p. 48)

Mas também neles havia qualquer coisa de paradoxal no modo como se sentiam universalizantes e se sabiam periféricos. Estavam melhor informados do teatro em Londres do que os londrinos, não acompanhavam menos as novidades literárias de Paris do que os intelectuais da margem esquerda, iam durante um mês todos os anos à Europa fazer cultura, falavam directamente para o mundo mesmo que o mundo ainda não o soubesse e, em todo o caso, recusando a mediação da provinciana metrópole lisboeta a que se consideravam indubitavelmente superiores mesmo quando ressentiam não lhe pertencer. (Pedro e Paula, p. 97).

Conheço um tipo aqui em Londres que estava no Rio de Janeiro quando aconteceu o 11 de Setembro. Ele próprio é que conta a história, a gozar imenso com o seu narcisismo. É português, professor no King’s College, onde o conheci. Mas também escritor. Tinha ido ao Brasil para o lançamento de um livro e deu uma série de entrevistas. Uma amiga telefonou-lhe de manhã a dizer que ligasse a televisão muito depressa. Era um incaracterístico dia de chuva, ainda estava deitado. Levantou-se num salto, estremunhado, e ligou logo, todo contente. Levou-lhe alguns minutos a perceber que aqueles aviões a baterem nas torres não eram uma introdução criativa a um programa sobre ele. O narcisismo é uma coisa risível, mas antes isso. (Sem Nome, pp. 124-125)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

MACEDO, Helder (1979), Poesia: 1957-1977, Lisboa.
—- (1991), Partes de África, Lisboa, Editorial Presença.
—- (1998), Pedro e Paula, Lisboa, Editorial Presença.
—- (2000), Vícios e Virtudes, Lisboa, Editorial Presença.
—- (2005), Sem Nome, Lisboa, Editorial Presença.
—- (2009), Natália, Lisboa, Editorial Presença.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

CARVALHAL,Tânia Franco, e TUTIKIAN, Jane (orgs) (1999). Literatura e História: três vozes de expressão portuguesa. Porto Alegre: Editora da Universidade/EFRGS.
CERDEIRA, Teresa Cristina (org.) (2002), A Experiência das Fronteiras, Rio de Janeiro, EdUFF.
GIL, José (2009), Em Busca da Identidade – o desnorte, Lisboa, Relógio d’Água.
SILVA, Marisa Corrêa (2002). Partes de África: cartografia de uma identidade cultural portuguesa. Niterói, RJ, Editora da Universidade Federal Fluminense.

Ana Paula Coutinho (2011/11/14)