Luzia

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Luzia

(1875-1945)

PT-ARM-COLFOT-JST-12-31_009_m0002Luzia, pseudónimo de Luísa Susana Grande Freitas Lomelino, uma das mais cultas escritoras portuguesas de finais do século XIX e das primeiras décadas do século XX, nasceu no Alentejo, em Portalegre, e faleceu em 1945, no Funchal. Ainda recém-nascida, foi enviada para a casa da tia, já que a sua mãe não resistiu ao parto. Aos seis meses, o pai, Eduardo Dias Grande, secretário-geral do Governo Civil do Funchal, muda-se para a Ilha da Madeira com as filhas e instalam-se na Quinta das Cruzes, actual Museu Quinta das Cruzes, na companhia dos avós maternos.

O casamento com um primo de ascendência fidalga, Francisco João de Vasconcelos, a 3 de Abril de 1896, de quem se divorciou aos 36 anos, não tendo voltado a casar, cedo frustraria o desejo de constituir a família que nunca teve. O divórcio só se concretizaria após a proclamação da República (lei de 3 de Novembro de 1910). Um malogro sentimental que contribuiu para que o sofrimento se instalasse de modo permanente na sua vida. É desde muito cedo que a viagem irá fazer parte da sua existência, levando-a a viajar entre Portugal continental e a Ilha da Madeira, mas também por várias cidades europeias, sobretudo para Itália e França, onde passava grandes temporadas em busca de uma cura para a dor de alma. Viagem que se lhe impõe desde o primeiro momento, veiculada pela saudade, cingida nessa outra viagem pelo tempo em busca daquilo que foi, como modo de se reencontrar. Através da memória, Luzia reabre um mundo que fica para trás, juntando os fragmentos de que é feita a sua existência para reconstruir a sua identidade.

Não sem deixar de evocar o modo dos dialogadores franceses, Luzia, considerada por João Gaspar Simões como “uma das mais impiedosas e agudas retratistas da sociedade dita elegante da nossa capital” (Simões 1941: 7), traça, com inteligência descritiva, crítica e irónica, um quadro subtil da sociedade e do mundo, com particular incidência na vida e nos costumes da aristocracia, nos primeiros anos da transição da Monarquia Constitucional, de que foi simpatizante, para os conturbados tempos da 1ª República, característica talvez invulgar para as mulheres, na época em que viveu.

A sua obra convoca outras vozes, abrindo-se ao diálogo com uma vasta constelação de escritores e filósofos, de que podem ser exemplo Voltaire, Schopenhauer, Jules Lemaître, Proust, Chateaubriand, Henry de Montherlant, Madame du Deffand, Madame de La Fayette, Madame de Staël, George Sand, Horace Walpole, Colette, Pierre Loti, William Shakespeare, Lord Byron, entre muitos outros.

Desiludida com a vida, Luzia optava por partir, viajar, deslocando-se de um para outro lugar, a olhar sempre de modo crítico para tudo o que sob os seus olhos passava. Na ambiguidade que por vezes lhe confunde as fronteiras genológicas, as cartas, reflexões, diálogos ou monólogos que compõem a maioria dos seus livros, apresentam uma análise perspicaz, por vezes sarcástica, da (alta) sociedade lisboeta do Pós-Primeira Guerra Mundial, dando a ver ao leitor, através da ironia que perpassa pela sua escrita, a mentalidade e hábitos de uma sociedade frívola.

Tanto na epistolografia, como no discurso memorialístico-reflexivo, como na ficção, sobressai no estilo coloquial da escrita de Luzia a temática da viagem, não apenas geográfica, mas também da existência, revelando a ironia trágica da vida, a sua, como um caminho percorrido muitas vezes entre risos e lágrimas.

 

Passagens

Ilha da Madeira, Espanha, França (Paris, Pau), Itália

 

Citações

“A gente quando não se suicida vai sempre viajar…”. Cartas do Campo e da Cidade, 1923, p. 94.
“Não invejes tanto os que viajam. Há quem o faça por prazer, bem sei. Mas há quem ande de terra em terra, para fugir a uma lembrança, para enganar a uma saudade, trocar o nome que teve e foi querido só de alguém, por um número nos hotéis, que já foi de toda a gente!”, Sobre a vida… sobre a morte: máximas e reflexões, p. 59.
“Levaram-me, desarreigaram-me… E agora, como os ciganos, eu passo em tôda a parte, não fico em parte alguma”, Almas e terras onde eu passei, p. 33.
“Eu morro de pena quando parto, mas heide sempre partir… Cartas d’uma Vagabunda, p. 309-310.
“O passado é a mais enganadora de todas as illusões”, Cartas d’uma Vagabunda, p. 26.
“Por amor da belleza da terra perdôo a fealdade do coração dos homens […]. E pela doçura de tudo o que fica, esqueço a amargura de tudo o que passa”, Cartas do Campo e da Cidade, p. 13.
“Existe apenas uma só Lisboa: a das matinées e do «Tivoli», a do Mah Jong e dos jantares na legação alemã… Muito mais do que ver florir um jacarandá, apraz-lhe[s] ver despontar uma bisbilhotice màzinha, sobretudo se tiver por objecto alguma amiga íntima… […] Mudar de estação é apenas um pretexto para toda senhora alfacinha que se preza – e nenhuma se preza mais do que Fanny! – dizer ao marido: – «Não tenho nada que vista!» Em seguida, correr da Déligant, onde acerta do primeiro ao último chapéu, às costureiras elegantes, onde dúzias de vezes lhe é infligido o martírio de erguer os braços para mangas que se recusam a deixá-los entrar, emquanto, contra a estreita abertura da gola, teima em arremeter a já congestionada cabeça”, Almas e Terras onde eu Passei, p. 118.
“Em Paris, dizem-me, já tende a desaparecer a praga dos novos ricos. Pois entre nós eles crescem, multiplicam-se, surgem de cada lado e com que arrogância! […] Ignoro se aquelle doce mandamento de Deus: amarás o teu próximo como a ti mesmo, inclue os novos ricos. É de esperar que não. Eu jamais poderia seguil-o. Odeio a espécie. […] pela sua horrível deselegância physica e moral. Tornam o mundo mais feio. Depois são como as nodoas de gordura, alastram…” Cartas de uma Vagabunda, p. 49-50.

 

Bibliografia Activa Seleccionada

Luzia. Os que se divertem – A Comédia da Vida (1920)
—- Rindo e Chorando (1922)
—- Cartas do Campo e da Cidade (1923)
—- Cartas d’uma Vagabunda (s/d)
—- Sobre a Vida… sobre a Morte: máximas e reflexões (1931)
—- Almas e Terras onde eu Passei (1936)
—- Última Rosa de Verão (1940)
—- Lições da Vida – Impressões e Comentários (1943)
—- Dias que já lá vão (1946, livro póstumo)

 

Bibliografia Crítica Seleccionada

Barros, Thereza Leitão de (1924), Escritoras de Portugal. Génio feminino revelado na literatura portuguesa, Lisboa, (s/n), Vol. II.
Clode, Luís Peter (dir.) (1957), “Três inéditos de Luzia”, in Das Artes e da História da Madeira, Revista de Cultura da Sociedade de Concertos da Madeira, v. 5, nº 25.
— (1983), Registo bio-bibliográfico de madeirenses: sécs. XIX e XX, Funchal: Caixa Geral de Depósitos, p. 251.
Conde, José Martins dos Santos (1990), Luzia, o Eça de Queiroz de saias, Portalegre, COGRAPOR, Gráfica de Portalegre.
Emonts, Anne Martina, “Cartas do campo e da Cidade. Luzia no seu jogo de identidades”, in Helena Rebelo (coor.) (2011), Lusofonia, Tempo de Reciprocidades, Volume I, Porto, Edições Afrontamento, 207-213.
Simões, João Gaspar (1942), Crítica I – A Prosa e o Romance Contemporâneos, Porto, Livraria Latina Editora.
Soares, Feliciano (s/d), Luzia – Espectadora das Comédias do Mundo, inédito, Instituto de Coimbra.
Trigueiros, Luís Forjaz (1987), “Literatura de Viagens”, in Dicionário de Literatura, 3ª ed., Vol. 4, Porto, Figueirinhas.
Veríssimo, Nelson (1990), Narrativa literária de Autores da Madeira – séc. XX – Antologia, Região Autónoma da Madeira, Direcção Regional dos Assuntos Culturais.

 

Periódicos, documentos de arquivo e outros

Barros, Teresa Leitão de, Diário de Lisboa, 10-12-1956.
Cartas de José Martins dos Santos Conde a José de Sainz-Trueva, sobre Luzia, Espólio de José de Sainz-Trueva, Arquivo Regional da Madeira.
Gouveia, Horácio Bento de, Jornal da Madeira, 1956.
Rodrigues, Maria do Carmo, Diário Ilustrado, 2-2-1956.
Simões, João Gaspar, Última Rosa de Verão, rubrica “Os livros do mês”, in Ultramar. Lisboa, Nº 2, Março, 1941.
Soares, Feliciano, “Luísa – A Vagabunda”, in Jornal da Madeira, 11-12-1956.

Ana Isabel Moniz (2011/11/14)