Luxúria Canibal, Adolfo

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Luxúria Canibal, Adolfo

(1959-)

adolfominTransmutador de perspetivas sob o pseudónimo de Adolfo Luxúria Canibal, Adolfo Morais de Macedo nasce na cidade de Luanda, em Angola: “Crio personagens, é verdade. Mas isso não implica que um seja o Canibal e outro o Macedo. Não são esses que eu crio – são outros (cf. Silva: 2009). Cresce entre Vieira do Minho e Braga. Em 1978 passa a cursar Direito em Lisboa, onde vive até 1999, exercendo advocacia e consultoria jurídica. Na qualidade de especialista em Direito do Ambiente, profere inúmeras palestras em Portugal e no estrangeiro. Como músico, escritor e performer é assinalável a sua movimentação nacional e internacional, tendo sempre zelado, quer do ponto de vista ecológico quer etológico, por reservas naturais ontologicamente bem demarcadas.

Em 2003 é considerado, pelo semanário Expresso, uma das cinquenta figuras mais importantes da cultura portuguesa contemporânea. De 1993 a 1999 integra um Grupo de Peritos Jurídicos da Convenção de Berna, junto ao Conselho da Europa, em Estrasburgo. Muda-se depois para Paris, onde é tradutor, ator de figuração, gerente comercial, jornalista, cronista, voz para telemóveis, crítico musical ou gestor liquidatário de sociedades cinematográficas. No final de 2004 regressa a Braga e à consultoria jurídica.

A iteração entre a música, a escrita e as artes performativas é uma característica recorrente do fundador, letrista e vocalista do grupo Mão Morta, (desde 1984), depois de ter fundado e exercido igual função nos grupos Bang-Bang (1981), Auaufeiomau (1981-1984) e PVT Industrial (1984). Em 2000 passa a integrar o grupo francês Mécanosphère, como vocalista. Participa como ator nos filmes Gel Fatal, de António Ferreira, e O Dragão de Fumo, de José Carlos de Oliveira. Autor de espetáculos de spoken word, a solo (1999) ou com António Rafael (desde 2004). Escreve textos diversos para jornais e revistas, como a Vértice ou a 365, e é, de 2000 a 2004, correspondente do jornal Blitz. Tem uma coluna de opinião no semanário O Independente (1999) e mantém, de 2001 a 2004, uma crónica semanal na Antena 3. Publica os livros Rock & Roll (1984) e Estilhaços (2004) e escreve o prefácio para a edição portuguesa de Os Cantos de Maldoror (2004) de Isidore Ducasse (Conde de Lautrèamont). Traduz Heiner Müller (1997) e Vladimir Maiakovski (2008). Encena e é ator em performances e espetáculos multimédia como Rococó, Faz o Galo (1983), Dos Gatos Brancos que Jazem Mortos na Berma do Caminho de Ferro (1983), Labiu e a Pulga Amestrada (1984) e Müller no Hotel Hessischer Hof (1997) – com Mariana Otero, ou é apenas ator, como em Maldoror (2007), encenado por António Durães. Participa como vocalista ou letrista em diversos discos e espetáculos de mais de uma dezena de grupos e artistas portugueses e estrangeiros, como Pop Dell’Arte, Clã, Moonspell, WrayGunn, Houdini Blues, Pat Kay & The Gajos ou Steve McKay.

Os poemas, contos e ensaios de Estilhaços, parcialmente escrito em Paris, dão conta da digressão física e geomental adotada por Adolfo Luxúria Canibal a partir do final da década de 80. Algumas das secções estruturantes do livro são reveladoras do percurso intermedial e internacional do autor: «No Princípio era o Verbo», «Depois veio o Som», «Chegaram os Mão Morta», «Mutantes S.21», «Há já muito Tempo que nesta Latrina o ar se tornou irrespirável», «E tudo ao Verbo retorna», «Epístolas de Guerra» e «Francesices». A realidade em este autor manobra a sua perceção fala da “afectividade da língua” e leva-o à seguinte constatação: “o facto de utilizar o português não me torna particularmente compreendido pelos meus contemporâneos” (Canibal, 2004: 167). Em «Sobre a Palavra», evidencia que a sua conceção de território expressivo institui uma ordem outra: “fitando divergências e convergências, o meu ponto de vista pretende-se olhar externo, transversal, que atravessa o assunto como quem atravessa a China – sorriso nos lábios, sentidos alerta e o indescritível prazer de se maravilhar a cada curva do raciocínio”(Ibid.: 163).

«Mutantes S.21», por exemplo, é um diário de viagem por nove cidades – Lisboa, Istambul, Berlim, Amesterdão, Barcelona, Paris, Marraquexe e Budapeste em que, mais uma vez, se faz sentir neste autor a influência da Internacional Situacionista (de que são figuras de proa Guy Debord e Raoul Vaneigem) de criar uma espécie de supramundo assente em premissas privilegiadoras da reconquista do tempo, o usufruto da sua passagem, a consciência da sua rápida fuga, a certeza da urgência e a sensação da mais completa disponibilidade. Estes tópicos, emergentes em «Há já muito Tempo que nesta Latrina o ar se tornou irrespirável», são sintomáticos da utopia do urbanismo unitário ou de práticas como a deriva e a psicogeografia e persistem neste autor.

Passagens

Portugal, Suiça, França.

Citações

Paris

É agradável regressar a Paris, ao frio outonal que dispersa as folhas carmim pelo cair da noite. Voltar a ouvir o linguajar árabe, esses sons cavos soprados do céu da boca, e sentir o frenesim cosmopolita de milhentas raças e culturas a roçarem o entardecer, partilhando a vontade universal de ganhar o calor do lar. O mundo, na sua variedade, parece tão perto, mesmo ao alcance da mão, […] Adoro este silêncio feito de mil ruídos indecifráveis, numa amalgama que me devolve a pacifica serenidade do vazio […].

Paris, Novembro de 2002 (Canibal, 2004: 212)

De Estrelas Nada Sei

De estrelas nada sei
Nem mesmo os nomes
Bizarros
Com que as usam baptizar
Prefiro fitar
A negra que passa
Altiva
De nádegas espetadas

A beleza bamboleante
Feita de carnes rijas, africanas
Fremindo
No balanço das passadas

Ou, melhor ainda
A tímida magrebina
Aviltada
No lenço que a quer suprimida

No escuro dos seus olhos
Arpeja um ódio selvagem
Febril
De lascívia apenas pressentida

De estrelas nada sei
A não ser, talvez, a imensidão
Profunda
Deste olhar

Paris, Junho de 2001 (Canibal, 2004: 55)

Bibliografia Ativa Selecionada

CANIBAL, Adolfo Luxúria, Rock & Roll, Edições Auaufeiomau, Braga, 1984.
—-, Estilhaços, V.N. Famalicão, Quasi, 2003.
—-, Prefácio a Os Cantos de Maldoror, Conde de Lautréamont, Tradução de Pedro Tamen, V.N. Famalicão, Quasi Edições, 2004.
—-, 33 Poesias de Vladimir Maiakovski, Selecção, Tradução e Prefácio, V.N. Famalicão, Quasi Edições, 2008.
—-, “De Estrelas Nada Sei”, Diga Trinta e Três – Os Poetas das ‘Quintas de Leitura’, antologia poética com organização de João Gesta e fotografias de Pat, Fundação Ciência e Desenvolvimento, Porto, 2008.

Discografia

Mutantes S.21, Mão Morta, LP / CD, Fungui, 1992.
Müller no Hotel Hessischer Hof, Mão Morta, CD, NorteSul, 1997.
Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável, Mão Morta, CD, NorteSul, 1999.
Primavera de Destroços, CD, NorteSul, 2001.
Nus, Mão Morta, CD, Cobra, 2004 / LP, Lux Records, 2004.
Estilhaços, com António Rafael, CD, Transporte de Animais Vivos, 2006.
Mécanosphère, CD, Loop, 2003.
Limb Shop, Mécanosphère, CD, Raging Planet, 2006.
Maldoror, Mão Morta, 2xCD, Cobra, 2008.

Filmografia

Gel Fatal – António Ferreira (Actor, Ficção) 1996.
Müller no Hotel Hessischer Hof – Nuno Tudela (Documentário, VHS, NorteSul, 1998/ DVD, Cobra) 2005.
O Dragão de Fumo – José Carlos de Oliveira (Actor, Ficção) 1999.
Lucy – Nuno Costa e Cristiano Van Zeller (Narração, Ficção) 2008.
Maldoror por Mão Morta – Manuel Leite (Documentário, DVD, Cobra) 2008.

Bibliografia Crítica Selecionada

JUNQUEIRA, Vitor, Narradores da Decadência, V.N. Famalicão, Quasi, 2004.
—-, “Mão Morta”, in libreto de Maldoror, ed. Fundação Caixa Geral de Depósitos / Culturgest, 2008.
PAES, Rui Eduardo, “Os Cantos de Maldoror – Mão Morta”, in libreto de Maldoror, ed. Fundação Caixa Geral de Depósitos / Culturgest, 2008.
SILVA, Helena Teixeira da, “Adolfo Luxúria Canibal: “Portugal é o país em que todos gostam de ter títulos”, in Farpas / Jornal de Notícias, 30.03.2009.
SILVESTRE, Osvaldo Manuel, Um híbrido: Maldoror.
—-, Maldoror uma Adenda.
—-, Maldoror para terminar.
VENTURA, Vitorino Almeida, “Do Fruto Proibido. Experiências Limite: Sexo, Drogas e Rock’n Roll” (Sobre Mutantes S.21 e Estilhaços), As Letras como Poesia, Porto, Edições Afrontamento, 2008.

Manuela Velosa (2012/01/03)