Grass, Günter

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Grass, Günter

(1927-2015)

Danzig, a cidade onde Günter Grass nasceu a 16 de outubro de 1927, pertencia ao estado livre com o mesmo nome, era um enclave de língua alemã na então Prússia oriental. Hoje chama-se Gdańsk e pertence à Polónia. Com um estatuto especial no contexto dos territórios sob administração alemã entre as duas Grandes Guerras, a cidade encontrava-se afastada, política e territorialmente, da Alemanha por um «corredor polaco», ainda que próxima pela língua e cultura. O pai de Grass era protestante, a mãe, católica, proveniente de uma etnia de origem eslava, os cassúbios. Crescer neste ambiente multicultural e multiétnico, a que acresce o afastamento territorial em relação ao Reich alemão, é uma realidade comum a muitos escritores do século XX, entre eles Franz Kafka, Paul Celan, Elias Canetti, Herta Müller, para citar apenas alguns nomes. Como estes, Grass move-se numa identidade por definição sob o signo da impermanência, da deslocalização.

A dupla pertença nacional, à Alemanha e à Polónia, bem como as particularidades da sua afiliação religiosa, cultural e étnica, atravessam toda a obra de Grass. Günter Grass viajou muito ao longo da vida, quer para divulgar a sua obra literária, sobretudo a partir das décadas de 70 e 80, quer no âmbito da sua atividade política, ou melhor, no apoio ao «seu» partido, o SPD, ao «seu» chanceler e amigo, Willy Brandt, em campanhas de estrada desde a década de 60. Contudo, Grass não é o escritor-viajante típico, aquele que procura a viagem como móbil da escrita ou o que, na viagem, encontra motivos de reflexão mais ou menos circunstanciais acerca de si próprio.

Grass viajou no espaço geográfico; foi, no entanto, alguém que viajou sobretudo no tempo e são principalmente as marcas desta viagem aquelas que encontram eco na sua escrita. No seu universo ficcional – desde a obra inaugural O Tambor de Lata (1959), escrita quando vivia em Paris, e em toda a «trilogia de Danzig», de que fazem parte também a novela O gato e o rato (1961) e O cão de Hitler (1963), até pelo menos um dos últimos grandes romances, A passo de caranguejo (2002), e em particular na autobiografia Descascando a cebola (2006) –, ressalta um imenso e intenso labor de rememoração histórica: da infância, dos seus escritores (Theodor Fontane, em Uma longa história, de 2006, ou os Irmãos Grimm, em Grimms Wörter, de 2010), dos seus países, sobretudo da Alemanha, desde tempos remotos até ao (seu) presente. Em todas as suas narrativas, longas e mais breves, é essa ânsia de contar as suas histórias, e através delas a História, que se desdobra profusamente nos seus textos. Uma viagem, muitas viagens, incessantes e minuciosas.

Não foi pela escrita que Günter Grass começou a sua atividade artística, foi pelas artes plásticas. Com formação académica nesta área, desenvolveu-a ao longo de toda a vida. Começou, porém, a escrever antes da II Guerra Mundial, adolescente ainda, e depois de ter passado, já adulto, pela vertiginosa experiência da guerra e por diversos trabalhos para se sustentar. É nesta fase, já em meados da década de 1950, que a escrita se abre definitiva e torrencialmente para dizer o que até ali estava represado, o passado mais recente (o do nazismo, da guerra), e o mais remoto. Este passado é entretecido de formas diversas com o seu próprio passado, o das suas origens cassúbias, o da Alemanha, da Europa.

Grass visitou muitos países e viveu longas temporadas nalguns deles, como a França, no final da década de 50; noutros, como Portugal ou a Dinamarca, teve casas; outros lugares ainda, como a Índia, sobretudo Calcutá, foram objeto de visitas mais fugazes. Mas todos eles deixaram marcas distintas na sua obra. A viagem assume, tanto na sua representação literária como nos trabalhos gráficos, um sentido eminentemente político. As viagens à Índia, primeiro em 1975, depois entre 1986 e 1987, ou a vários países asiáticos, em 1979, renderam principalmente desenhos, através dos quais se exprimiu o contacto com um universo a todos os níveis distante da Europa próspera. Em livros como Zunge zeigen (2000), registo da viagem à Índia, ou Kopfgeburten oder Die Deutschen sterben aus (1980), da viagem à Ásia, é mormente a consciência política do cidadão Grass que se destaca na relação com estes países: condições de vida, demografia, em contraste profundo com a realidade europeia e ocidental.

Portugal representa o extremo oposto destes universos, a vários títulos; do ponto de vista geográfico e territorial e também do ponto de vista do impacto emocional e afetivo que o país teve em Grass: na ponta sudoeste da Europa, Grass procurou no nosso país, desde princípios da década de 80, um lugar de (alguma) permanência, não um destino de viagem. Tranquilo, com um clima ameno, o interior do Algarve prestava-se a ser um lugar de trabalho, uma nova oficina para o escritor e artista plástico quando na Alemanha fazia muito frio. Um lugar rente à natureza, à vegetação, onde encontrava os muitos peixes que, cozinheiro apaixonado que sempre foi, converteu em iguarias, mas também em aguarelas, gravuras, desenhos.

A recente exposição «Encontros», patente em Portimão, depois no Porto, entre dezembro de 2017 e setembro de 2018, foi precisamente uma mostra dessa relação, apaixonada e distante ao mesmo tempo, nas deslocações de Grass a Portugal. Apaixonado pela natureza, pelas plantas suculentas que sobrevivem sem água na sua ausência, pelos limões, fruto quase exótico para um europeu do norte, ali à mão para o chá quotidiano, pela tinta que extraía dos chocos para pintar a sépia, pelos exuberantes peixes que pintou desde o fulgor da pele fresca e intacta até às espinhas que suspendeu acima de nuvens, tudo isto erigiu em objeto estético. Portugal, e o Algarve mormente, não foram certamente o lugar turístico, do sol, da praia, do mar azul. As aguarelas, desenhos e gravuras com motivos algarvios trazem vegetação, luz, os frutos, mas também as nuvens densas e escuras, o terreno pedregoso e seco, uma natureza um pouco rude e deixada aos seus ritmos. No Algarve encontrou ainda, ao longo de vários anos, um espaço de exposição, no Centro Cultural de S. Lourenço, em Almancil, dirigido pelo casal alemão Huber.

Mas Portugal é distante (e desconhecido) também. Embora tenha escrito bastante em Portugal – partes do discurso que proferiu em Estocolmo, aquando da atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1999, ou uma importante palestra que viria a proferir nas Conferências de Poética da Universidade de Frankfurt, intitulada Escrever depois de Auschwitz (1990). No diário De uma Alemanha à outra. Diário – 1990 (2009), escrito em grande parte em Portugal, Grass pouco escreve sobre Portugal e os portugueses, embrenhado que está na viagem da reunificação. Entre as suas notas acerca de Portugal, encontram-se referências à modernização forçada pela integração europeia; mais adiante, Grass não entende uma certa indiferença portuguesa face à primeira Guerra do Golfo, especulando sobre o efeito de nostalgias coloniais não digeridas; noutro lugar, num registo mais prosaico, questiona-se acerca dos brios sancionatórios de um polícia de trânsito e de como será na sua vida quotidiana. Grass travou conhecimento com José Saramago, com quem manteve de resto um aceso debate no Goethe-Institut, em Lisboa (1998), e cujo derradeiro livro, Alabardas (2014), tem ilustrações de Grass; não se lhe conhecem, porém, incursões ou um interesse especial pela literatura portuguesa.

1990 foi o ano que se seguiu à queda do Muro de Berlim, anunciando-se a (re)unificação alemã, algo que inspira a Grass grandes reservas. Para o autor, a reunificação foi um bom negócio para a RFA, uma «compra» ou «anexação» da RDA a preço de saldo, como refere num famoso artigo, publicado no jornal Die Zeit. É, curiosamente, em Portugal (mas não apenas) que se faz uma parte daquela que é porventura a grande viagem de Grass, e aquela que mais fortemente se plasma na sua escrita: a viagem no próprio país, a Alemanha, que redunda em boa parte, uma vez mais, numa viagem temporal. A viagem pelas Alemanhas, a República Federal da Alemanha e a República Democrática Alemã, territórios políticos surgidos da divisão feita pelos Aliados no final da II Guerra Mundial, é uma das últimas e grandes viagens de Grass; tal como a das obras iniciais, é aquela a que sempre regressa. Deslocação territorial e temporal ao mesmo tempo, o acontecimento de hoje é visto sempre em perspetiva histórica e política; assim se projeta graficamente, assim se plasma na escrita.

 

Passagens

França, Polónia, Índia, China, Portugal, as duas Alemanhas (RFA e RDA)

 

Citações

«Quando estou em casa, o que faço é normalmente literatura; quando parto em viagem, é política.» (1970, ER II, 7)

«Este discurso, a que dei o título de <Por exemplo, Calcutá>, pretende significar que a situação existencial desta cidade se encontra para lá das categorias europeias de esperança e desespero…» (Junho 1989, ER III, 206)

«Ontem, a partir de quatro chocos de tamanho médio, extraí uma garrafa de três quartos de litro quase cheia de sépia natural […] O processo de obtenção da tinta – hoje houve chocos cozidos com legumes – constitui um prazer. (Usei esta tinta pela primeira vez em finais dos anos 60 na Bretanha, e não voltei a usá-la senão a partir de meados dos anos 80, desde que em Portugal estou próximo da origem, sobretudo após o regresso de Calcutá…» (8.1.1990, DAO, 18)

 

«À noite é frequente não conseguir dormir, tenho deprimentes visões de uma Alemanha que já não pode ser a minha. Este monstro gerado por Kohl: autocrático, patético, bonacheirão, duro e condescendente, poderoso e fingindo-se inofensivo.» (5.6.1990, DAO, 122)

 

«Depois de três quartos de um ano de ausência, […] o reencontro com esta parte de Portugal resulta repugnante e de uma assustadora fealdade. […] No entanto, uma vez que nada há a disfarçá-lo, tal só acentua o quanto a região costeira de Faro até Lagos está destruída. É uma faixa que não está apenas tapada com construções, já começam também os sinais de declínio: lixo e sucatas orlam a estrada principal. Pedaços fragmentados, que, como que por acaso, se mantiveram incólumes, demonstram aqui e ali, recortadamente, como em tempos esta região foi bonita.» (13.10.1990, DAO, 221)

 

«Os Portugueses pouco ligam à Guerra do Golfo. Um melancólico abanar de cabeça, é tudo. Um povo que manifestamente, com a perda das últimas colónias, resolveu, por fim, a sua história. Uma sensatez que aos Alemães parece ser impensável…» (1.2.1991, DAO, 286)

 

© Aguarela «Nuvens sobre o algarve» de Günter Grass, reproduzida com a gentil permissão da Fundação Günter und Ute Grass (Günter und Ute Grass Stiftung, Lübeck).

 

«Prescindir dos Alpes com vista de cima / sempre foi fácil. // O Nepal nunca me atraiu, Neuschwanstein é para mim puro pesadelo. (…) Ah, meu Portugal perdido, que falta me faz / a tua Costa Vicentina.» (2015, SF, 39)

 

 

Bibliografia Ativa Selecionada

GRASS, Günter (2009). O tambor de lata, Lisboa, Publicações D. Quixote (trad. Helena Topa) [Die Blechtrommel, Darmstadt, Luchterhand, 1959].

— (1968), O gato e o rato, Lisboa, Círculo de Leitores (trad. Carmen Gonzales) [Katz und Maus, Neuwied a. Rhein, Luchterhand, 1961].

— (1966), O cão de Hitler, Lisboa, Estúdios Cor (trad. Lídia de Castro) [Hundejahre, Neuwied a. Rhein, Luchterhand, 1963].

— (1980), Kopfgeburten oder Die Deutschen sterben aus, Göttingen, Steidl [Nascidos da cabeça ou Os alemães estão em vias de extinção, sem tradução portuguesa, trad. excerto: HT].

— (1990), «Ein Schnäppchen namens DDR», Die Zeit, 5.10.1990 [«Uma pechincha chamada RDA», sem tradução portuguesa].

— (1997), Uma longa história, Lisboa, Ed. Presença (trad. Mª Antonieta Mendonça) [Ein weites Feld, Göttingen, Steidl, 1995].

— (1997a), Essays und Reden II. 1970-1979 [ER II], Göttingen, Steidl [Ensaios e discursos II. 1970-1979, sem tradução portuguesa, trad. excerto: HT].

— (1997b), Essays und Reden III. 1980-1997 [ER III], Göttingen, Steidl [Ensaios e discursos III. 1980-1997, sem tradução portuguesa, trad. excerto: HT].

— (2000), Zunge zeigen, Göttingen, Steidl [Deitar a língua de fora, sem tradução portuguesa].

— (2003), A passo de caranguejo, Lisboa, Editorial Notícias (trad. Mª Antonieta  Mendonça) [Im Krebsgang, Göttingen, Steidl, 2002].

— (2002), Totes Holz, Göttingen, Steidl [Madeira morta, sem tradução portuguesa].

— (2007a), Descascando a cebola, Lisboa: Casa das Letras (trad. Helena Topa)   [Beim Häuten der Zwiebel, Göttingen, Steidl, 2006].

— (2007b), Steine wälzen. Essays und Reden 1997-2007, Göttingen, Steidl [Arrastar pedras. Ensaios e conferências 1997-2007, sem tradução portuguesa].

— (2008), Escrever depois de Auschwitz, Lisboa, Publicações D. Quixote (trad. Helena Topa) [Schreiben nach Auschwitz, in ER III].

— (2010), Grimms Wörter. Eine Liebeserklärung, Göttingen, Steidl [As palavras dos Irmãos Grimm. Uma declaração de amor, sem tradução portuguesa].

— (2013), De uma Alemanha à outra. Diário – 1990 [DAO] Lisboa, Publicações D. Quixote (trad. Paulo Rêgo) [Unterwegs von Deutschland nach Deutschland. Tagebuch 1990, Göttingen, Steidl, 2009].

— (2015), Sobre a finitude [SF], Lisboa, Publicações D. Quixote (trad. João Bouza da Costa) [Vonne Endlichkait, Göttingen, Steidl, 2015].

 

 

 

Helena Topa

(Tradutora (8/12/2018))

 

Como citar este verbete:
TOPA, Helena (2018), “Günter Grass”, in Ulyssei@s: Enciclopédia Digital. ISBN 978-989-99375-2-9.
http://ulysseias.ilcml.com/pt/termos/grass-gunter/