Braga, Maria Ondina

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Braga, Maria Ondina

(1932-2003)

ondinamiMaria Ondina Soares Fernandes Braga nasceu em Braga, onde fez os estudos liceais e de onde partiu na década de cinquenta em busca de novos horizontes. Após uma breve passagem pela Escócia e Inglaterra, onde exerceu a função de precetora e frequentou a Royal Society of Arts, instalou-se em Paris, aliando o trabalho e os estudos na Alliance Française. Em 1959, atraída pela distância, rumou até Angola, Goa (onde esteve aquando da ocupação indiana) e, mais tarde, Macau, onde ensinou Português e Inglês até 1966, data do seu regresso a Portugal. O fascínio que nutriu durante longos anos pelo povo chinês levou-a a aceitar o cargo de Leitora de Português no Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim em 1982, ano em que redigiu as crónicas sofridas reunidas em Angústia em Pequim (1984), uma “narrativa dolorosa, cirúrgica”, segundo as palavras de Inês Pedrosa. A convite da Fundação Oriente, Maria Ondina Braga regressou a Macau em 1991, tendo registado esse reencontro em algumas páginas da narrativa de viagens Passagem do Cabo (1994).

Maria Ondina Braga revelou, desde muito cedo, um acentuado pendor para a escrita. Após uma breve incursão pela poesia reunida em O Meu Sentir (1949) e Almas e Rimas (1952), dedicou-se inteiramente à prosa, aliando com extrema sensibilidade memórias, contos, crónicas, novelas e romances fortemente comprometidos com o registo poético, onde o ritmo, a imagem e o estranhamento se sobrepõem ao enredo, conferindo-lhes uma dimensão estética com forte poder de sedução. Da sua passagem por Angola, Goa e Macau, deixou-nos vários testemunhos em forma de livros, destacando-se as primeiras crónicas de viagem, inicialmente publicadas na página literária do Diário de Notícias e posteriormente reunidas em Eu vim para ver a Terra (1965), a autobiografia romanceada Estátua de Sal (1969), como testemunho da sua experiência vivencial dos tempos de Macau e o livro de contos A China fica ao Lado (1968), que a deu a conhecer ao grande público.

De regresso a Portugal, instalou-se em Lisboa e abandonou a sua carreira de professora para se entregar de corpo e alma ao rigoroso exercício da escrita e da tradução (de grandes autores como Graham Greene, Bertrand Russel, John Le Carré, Herbert Marcuse, Anaïs Nin e Tzvetan Todorov). Da sua vasta obra publicada, contam-se alguns livros premiados, entre os quais o volume de contos Amor e morte (1970) – Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa 1979, o romance Nocturno em Macau (1991) – Prémio Literário Eça de Queirós 1992, e o livro de memórias Vidas Vencidas (1998) – Prémio ITF da Literatura 2000.

Composta por uma vintena de títulos, a obra de Maria Ondina Braga inscreve-se sob o signo da viagem, da descoberta de geografias distantes e da abertura ao estrangeiro, o Outro simultaneamente inquietante e fascinante que incita o sujeito a percorrer os meandros vertiginosos da sua própria interioridade. O encontro com a alteridade, que coloca o Eu perante a diferença, a dissemelhança, o oposto, suscitando nele todo o tipo de conflitos e de interrogações, surge como elemento catalisador do processo de aprofundamento e de desenvolvimento da interioridade que constitui o ponto fulcral da escrita ondiniana. Ao sugerir um retorno ao primitivo, as inúmeras descrições de paisagens, cuja imensidão e beleza constituem um convite à exploração do mundo onírico e imaginário, mantêm uma ligação estreita com a busca de autenticidade primitiva, pessoal e coletiva evidenciada no conjunto da obra.

Maria Ondina Braga traça-nos um itinerário que se estende até ao Extremo-Oriente. A viagem pela distância constitui, na sua escrita, o motor de um verdadeiro trabalho de construção identitária. De Goa a Macau, de Hong Kong a Pequim, desenha-se, de um livro ao outro, a geografia da distância, um ponto de encontro onde o sujeito se procura, dividido entre o apelo das origens e a atração pelo desconhecido. A viagem constitui um suporte iniciático que lhe permite renascer “outro” em espaços distantes que apelam a origem e inscrevem o sujeito numa dinâmica que conjuga centro e periferia, aproximação e distância, pertença e separação (“Tão difícil o encontro quão difícil é o apartamento.” lemos no poema de Li Shang-Yin, colocado em epígrafe do romance Nocturno em Macau). Ao lermos os livros de Maria Ondina Braga que assentam, na maioria, num jogo estratégico desenvolvido entre transparência e opacidade, deparamos finalmente com um exotismo baseado na afirmação de um princípio de distância e no reconhecimento da Diferença e do Diverso (Segalen, 1978), evidenciando-se a dimensão de uma alteridade irredutível, de uma persistente e intrínseca heterogeneidade.

 

Passagens

Portugal, França, Inglaterra, Escócia, Angola, Goa, Macau, Pequim.

 

Citações

Palmilhei capitais europeias. Sonhei nas terras úberes de África os mais puros, os mais ardentes sonhos telúricos. Nasci numa cidade sossegada com pedras do tempo dos romanos e Nossas Senhoras de todos os nomes. E não posso esquecer Paris – a sedução, o charme de Paris, na grandeza dos Campos Elíseos ou nas ruelas cosmopolitas e boémias de Saint-Michel. Tenho de lembrar o perfil dos monumentos de Londres por entre os véus do nevoeiro ou o chuvisco gelad. Tenho também de confrontar Angola com Macau para saber que há sangue e saber que há sono. Mas, acima de tudo, quero encontrar-me comigo. (Estátua de Sal, 3a ed.: 6)

Hong Kong. Asiáticos pequenos, amarelos, de olhos apertados. Ingleses de pele encarnada, membros angulosos. Marinheiros americanos, marinheiros nórdicos, de andar balouçante, gestos soltos. Atravessando as ruas em passo miúdo, chinesas de filhos às costas, e inglesas desempenadas com carrinhos de bebé e passo decidido. Eu caminhava só e ao acaso. Tinha ido ver os barcos e trazia comigo a nostalgia do mar, das velas, dos cascos enrolados. (idem: 100)

E teimo na minha terra: as ruas de Braga, cada esquina, cada pedra, quase. Um a um, vou transpondo os passeios estreitos das ruas velhas, tortas, a brancura das avenidas, as lojas, as igrejas, os largos. Ando por lá peregrinando. É noitinha, e os sinos a Trindades – tantos sinos, meu Deus! Os pardais esvoaçam, murmurantes, nas tílias do jardim. Ando por lá e ninguém dá conta. Que coisa boa! Escusado falar, dizer que estou bem, obrigada. De repente, um vibrar de campainha. Já estou na Arcada. Uma música familiar, impertinente. É o eléctrico. Como eu ia distraída a atravessar! Fazem-me saudades esses tinidos. Tão bom o eléctrico a desengonçar-se até ao Bom-Jesus. Os chalés brasileiros com estátuas de louça. O perfume da madressilva pela Primavera. (idem: 130)

Transbordando da terra para a água, Macau alonga-se em ruas de junco e lorchas – uma cidade balouçante, de chão metade rio, metade mar, onde vivem milhares de chineses, famílias inteiras, cada qual com o seu cão, seu gato, sua criação, passarinhos. […] Cenário deveras impressionante o dos barcos de Macau. Bonito não posso dizer que seja, pois é melancólico, pobre, vetusto, mas tão diferente e tão marcado pelo tempo e pela angústia dos homens que, se não for bonito, belo é de certeza. (idem: 150)

Angola – quão diferente que era! Lá a vida estava a começar. Ares claros, ardentes, audaciosos. Chão de lume, terra moça, abandonada, primitiva. Era a Vénus de Milo. Era “Le Baiser de Rodin”. Só vida, só beleza, só vigor – “As palmas das palmeiras” na ilha de Mussulo; os segredos do mato; as noites de luar e de chuva copiosa qual rio que, tendo a sua fonte no céu, desabasse perfumado e morno. (Eu Vim para Ver a Terra, 1965: 120).

Via-me a chegar a Goa duas semanas antes. Manhã de sol ardente. O carro levando-me por estradas de terra vermelha entre coqueiros verdes. O Paraíso devia ter sido assim: paisagem de sol e de seiva. De um e de outro lado, vales de vegetação luxuriante onde talvez Adão tivesse adormecido imensamente belo e cansado do esforço de ter nascido. […] Depois os rios tão largos e azuis como o céu – o Zuari, o Mandovi – até ao mar de águas espraiadas na areia morena. Havia as árvores de gralha, sagradas, de raízes aéreas e escorridas como cabelos; as vacas brancas do tamanho de bodes qie serviam a mesma religião misteriosa; as cisternas na beira do caminho, onde as mulheres, sobraçando as ânforas, vinham buscar água – as mulheres de manto e de rosto grave como a Samaritana do Evangelho. O tempo parecia pouco demais para tantas emoções. (idem: 58-59)

Cidade imensa, Pequim, monótona, prédios uniformes e escuros, o incessante rodar das bicicletas, um ar ao mesmo tempo desolado e majestoso, um povo calmo de olhar remoto e riso fácil. O autocarro do Hotel da Amizade leva-nos ao passeio de sábado, desta vez o Buda de Jade, sentado, jovem, feminil, os lóbulos das orelhas como brinco, as plantas dos pés voltadas para cima, sinal de tranquilidade. Depois, o jardim de um dos palácios imperiais do fim da dinastia Ming e última dinastia. Um parque dentro de parques, com a sua Biblioteca Consoladora do Coração, que, para os chineses, a inteligência aloja-se no peito e não na cabeça, conforme os ocidentais. Bei-hai: mar-do-Norte: o vasto canal a sugerir o ovceano. E outeiros artificiais de rochas trazidas das mais longínquas partes do país, arvores em caramanchão e em gruta, poços-do-inferno, portas-do-paraíso. (Angústia em Pequim, 2a ed.: 41)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Braga, Maria Ondina (1965), Eu Vim para Ver a Terra, Lisboa, Agência-Geral do Ultramar.
—- (1968), A China Fica ao Lado, 2ª ed., Amadora, Livraria Bertrand, 1974.
—- (1969), Estátua de Sal, 3ª ed. Lisboa, Ulmeiro.
—- (1982), O Homem da Ilha e Outros Contos, Lisboa, Ática.
—- (1984), Angústia em Pequim, 2ª ed., Lisboa, Rolim, 1988.
—- (1991), Nocturno em Macau, Lisboa, Caminho.
—- (1994), Passagem do Cabo, Lisboa, Caminho.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

ÁVILA, Henrique Manuel (1992), “As sobras do Império Colonial: a propósito do Romance Nocturno em Macau de Maria Ondina Braga”. Letras & Letras, 85, p. 6.
BESSE, Maria Graciete (2001), Percursos no feminino. Lisboa: Ulmeiro, pp. 61-99.
CARVALHO, Gil de (1993), “Notícias da China e de Macau”. Colóquio/Letras, 129-130, Julho-Dezembro, pp. 213-216.
CHEN, Zhang Zheng (1992), “Maria Ondina Braga: o encontro de culturas”. Jornal de Letras, 29 de Setembro, pp. 16-17.
DUARTE, Luiz Fagundes (1985), “Angústia em Pequim, Maria Ondina Braga”. Colóquio/Letras, 86, Julho, pp. 92-93.
DUMAS, Catherine (1995), “Da Circumnavegação e do umbigo: a ocupação do espaço pela mulher na obra de Maria Ondina Braga”. O Rosto Feminino da Expansão Portuguesa – Actas II, Cadernos Condição Feminina n.° 43, Lisboa: Ed. da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres, pp. 389-405.
LISBOA, Eugénio (1975), “A China Fica ao Lado de Maria Ondina Braga”. Colóquio/Letras, 23 de Janeiro, pp. 81-82.
LOURO, Regina (1991), “Viagem pelos bastidores de Macau”. Jornal Público, 18 de Agosto, pp. 24-25.
MAIA, João (1969), “Dos livros de viagens”. Brotéria, Novembro, pp. 514-517.
MORÃO, Paula (1991), “Segredo e mito em Nocturno em Macau de Maria Ondina Braga”. Vértice, 44, Novembro, pp. 111-113.
NUNES, Maria Leonor (1994), “Maria Ondina Braga. Passagens comoventes do Cabo”. Jornal de Letras, 607, 22 a 28 de Fevereiro, p. 6.
PADRÃO, Maria da Glória (1989), “Angústia em Pequim. Maria Ondina Braga”. Letras & Letras, 15, 5 de Março, p. 20.
RAMOS, Rui (1991), “Nocturno em Macau. Maria Ondina Braga” Letras & Letras, 60, 4 de Dezembro, p. 14.
RECTOR, Mónica (1999), Mulher objecto e sujeito da Literatura Portuguesa. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa, pp. 226-229.
RUBUS, João (1992), ” Ficções orientais”, Letras & Letras, 74, 1 de Julho, pp. 5-6.
SILVA, Maria Araújo (2005), Voyage et quête de soi dans l’oeuvre de Maria Ondina Braga, Tese de Doutoramento em Literatura portuguesa contemporânea. Paris: Université Paris Sorbonne- Paris IV.
SIMÕES, João Gaspar (1981), Crítica IV – Contistas, novelistas e outros prosadores contemporâneos – 1942-1979. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, pp. 345-352 e pp. 357-362.
VALENTE, Maria Adelaide (1994), “Passagem do Cabo, de Maria Ondina Braga. A memória de além dos mares”, Letras & Letras, 108, Maio, pp. 19-20.

Maria Araújo Silva