Almada Negreiros, José

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Almada Negreiros, José

(1893-1970)

almadaminDe sangue e virtù intercontinental, nasce, a 7 de Abril, José Sobral de Almada Negreiros, na Roça da Saudade, Ilha de São Tomé e Príncipe, terra de sua mãe e cujo concelho era administrado por seu pai, jornalista e colonialista, natural de Aljustrel. Almada Negreiros morre a 15 de Junho, no Hospital de S. Luís dos Franceses, em Lisboa, no mesmo quarto onde tinha falecido Fernando Pessoa, a quem escreve a Ode em que se lê: «A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade» (“Ode a Fernando Pessoa”). Em 1900 é internado no Colégio dos jesuítas de Campolide, em Lisboa, altura em que o pai é nomeado encarregado do Pavilhão das Colónias na Exposição Universal de Paris. Em 1910, a Primeira República encerra este colégio e Almada vai para Coimbra, ingressando, em 1911, na Escola Internacional de Lisboa, que frequenta até 1913. Faz, desde então, inúmeras exposições individuais, em Portugal e no estrangeiro. A errância, que envergou também nos vários meios de expressão, leva-o, pela mão de “Narciso do Egipto, que lhe era a pátria” (França, 1997: 17), a ser pintor, desenhador e vitralista, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, enfim, como diz Herberto Helder, «Almada encontrara o ponto exacto na trama dos pontos, o centro, para nele pôr o pé» (Hélder, 2002). 1915 é um ano efervescente na produção literário-artística de Almada Negreiros e em que particularmente se faz sentir a nova identidade do seu cosmopolitismo, veiculado pelo Sensacionismo de Orpheu, que propõe «Ser-tudo-de-todas-as-maneiras» e uma arte nacional sem ser nacionalista, que possa transitar pela Europa. Participa na 3ª exposição dos Humoristas Portugueses, no Porto. Publica Frisos, no Orpheu, nº 1, onde se pode ler «Eu amo a Lua do lado que eu nunca vi» (em “Canção da Saudade”). Escreve o poema, dedicado a Álvaro de Campos, Cena do Ódio (publicado parcialmente em 1923 e integralmente em 1958), em que se auto-define como «poeta sensacionista e Narciso do Egipto» e onde, em nome da «Hegemonia de Mim», do «meu sentir internacional», tem por conselho «Larga tudo e a ti também!».

Com o Manifesto Anti Dantas e por extenso (1915) e o Manifesto da Exposição de Souza Cardoso (1916), Almada Negreiros anuncia o aparecimento do Futurismo em Portugal, muito antes da visita a este país do líder do Futurismo Iltaliano, F. T. Marinetti, em 1932. Mima Fataxa – Sinfonia Cosmopolita e Apologia do Triângulo Feminino (1916), é um texto exemplificativo da singularidade satírica que o Futurismo de Negreiros adopta no contexto do Modernismo Europeu: «Selecção dos exotéricos / Nuances de tisnas da Europa / Entourage do Gentleman / Wilde, Nijinski e Eu: Sacrossanta melodia da Carne!».

Em 1914 tinha pensado partir para Paris, onde Mário de Sá Carneiro o esperava, no entanto, só iria em 1919 para esta cidade. Aí se dedica ao desenho, é bailarino de cabaret, empregado de armazém e escreve Antes de Começar, peça em 1 ato, que tem como personagens um boneco e uma boneca que se mexem como pessoas, algures no teatro do mundo. É também no seu ano inaugural em Paris que escreve e ilustra Histoire du Portugal par coeur, texto que reivindica uma história pessoal do seu país, focando um período em que a coletividade e a individualidade estavam em equilíbrio – o período dos Descobrimentos – e seleciona os seus leitores por estar escrito em língua estrangeira: “par coeur, c’est-a-dire – c’est le coeur qui s’en souvien!”. Numa conferência proferida antes de partir para Lisboa – em 1926, na festa de encerramento do II Salão de Outono – intitulada Modernismo, Almada afirma claramente o que percebeu no estrangeiro: “A Arte não vive sem a Pátria do Artista”, sendo que “As regras do pensamento universal só as pode encontrar cada um isoladamente”.

Parte para Madrid em 1927 e aí permanece até 1932. Três meses depois de chegar, em Junho, Almada abre uma importante ligação entre as vanguardas peninsulares, ao fazer uma exposição de desenhos nos salões da Union Ibero-Americana, uma iniciativa de La Gaceta Literária, que contava com colaboradores como Luis Buñuel, Ortega e Gasset, Ramon Gomez de La Serna, entre muitos outros, dos quais “El Português Almada” passa a fazer parte. A partir de 1928, realiza a Ciudad Magica Portuguesa em várias feiras espanholas, escreve El Uno, tragedia de la Unidad, que engloba duas peças: Deseja-se Mulher (publicada em 1959) e SOS (2º acto publicado nos cadernos SW-Sudoeste, em 1935), que apresenta ao público português, ao chegar a Lisboa, depois de seis anos no estrangeiro, na conferência “Direcção Única”.

Em Prometeu, Ensaio Espiritual da Europa (publicado em SW-Sudoeste, em 1935), Almada diz que «Os continentes têm a sua expressão espiritual ao lado da geografia física e política», fala do facto de a Europa ter encontrado a sua coesão na diferença e que Portugal se carateriza por ter uma cultura de fronteira. Esta é uma perspetiva que adoptará para sempre na vida e na obra. Nos restantes anos – grosso modo passados em Portugal – que viriam a perfazer mais de cinco décadas da sua produção artística – fez como disse no poema As Cinco Canções Mágicas: «Só caibo no Universo / e mais do que em mim / assim me trouxeram desde o princípio / como puderam até aqui / intacto da presença de todas as / actualidades».

 

Passagens

Portugal, França, Espanha.

 

Citações

Uma noite no bridge, n’este meu habito de levianamente sympathico, emquanto as estrellas, orifícios de luz no firmamento, espreitavam atónitas os jardins às escuras, comecei a fazer intelligentemente a distinção do viver em Londres e do viver em Lisboa e distanciava com elegância as minhas razões a conta-las plos dedos bem estimados. Ella voltou para mim o seu perfil estylisado de nobreza onde transparecia toda a gloria dos brazões de seus antepassados e aprovou-me co’os olhos poisados na cigarreira de prata fosca reluzente sobre o panno verde da meza do bridge: diz muito bem! E pouco a pouco como dois astros perdidos no infinito e cujas trajectórias antecipadamente traçadas por Aquelle que tudo rege, forçosamente um dia se hão-de cruzar, assim também as nossas duas almas, já por várias vezes o tinha pressentido, era inevitável que mais cêdo ou mais tarde não viessem a encontrar-se face a face. E, ainda bem pra mim, não me enganei! (K4 – O Quadrado Azul, LISBOA 1917 – EUROPA modelo 1920)

 

AQUI PORTUGAL

Aqui Portugal
Bicesse
O Fim-do-Mundo mais perto de
Lisboa a da boa flordelis
e
Entre a Serra da Lua (Sintra)
As grutas e necrópole daqueles
Que nascidos em Creta
Passaram em Homero
Em Cristo
E a vista de Roma
Saíram do Mediterrânio
E aqui ficaram e passaram
Trazendo consigo para toda a parte
A Civilização da Liberdade individual
Do Homem

 

Bibliografia Ativa Selecionada

NEGREIROS, Almada (1965), Orpheu 1915-1965, Lisboa, Ática.
—- (1982) Sudoeste, Ed. Fac-similada, Lisboa, Contexto.
—- (1997) Almada Negreiros – Obra Completa, org. Alexei Bueno, Introdução José Augusto França, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar.
—- (2000) K4 – O Quadrado Azul, Eds. Fernando Cabral Martins, Luis Manuel Gaspar e Mariana P. Santos, Lisboa, Assírio & Alvim.
—- (2002) Ficções, Eds. Fernando Cabral Martins, Luis Manuel Gaspar e Mariana P. Santos, Lisboa, Assírio & Alvim.
—- (2005) Poemas, Eds. Fernando Cabral Martins, Luis Manuel Gaspar e Mariana P. Santos, Lisboa, Assírio & Alvim.
—- (2006) Manifestos e Conferências, Eds. Fernando Cabral Martins, Luis Manuel Gaspar e Mariana P. Santos, Lisboa, Assírio & Alvim.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

AMARAL, Ana Luísa (1990), “’A Cena do Ódio’ de Almada Negreiros e The Waste Land de T.S. Eliot”, Colóquio/Letras, 113-114, 1990.
FRANÇA, José-Augusto (1974), Almada, O português sem mestre, Lisboa, estúdios Cor.
—- (1986) Amadeo & Almada, Lisboa, Bertrand Editora.
—- (1988) Almada, Paris, Centre Culturel Portugais, Fundação Calouste Gulbenkian.
—- (1997) “Introdução” a Almada Negreiros – Obra Completa, org. Alexei Bueno, Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar.
HELDER, Herberto (2002), “Desalmadamente”, Jornal O Público, 26 de Janeiro.
LOURENÇO, Eduardo (s.d.), “Presença ou a contra-revolução do modernismo português”, Porto, Porto Editora.
—- (1985) “Almada, ensaísta?”, Actas do Colóquio Almada, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 79-85.
MAGALHÃES, Isabel Allegro de (1987), “Almada: ‘Mima-Fataxa’ em dois tempos”, Colóquio/Letras, 49-59.
MARTINS, Fernando Cabral (2004), “A Cidade Mágica Portuguesa”, Marginálias – Ramón Gomez de la Serna / José de Almada Negreiros, Lisboa, Assírio & Alvim.
MOURÃO-FERREIRA, David (1979), “Almada Negreiros”, Portugal, a terra e o homem, v. II, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian / INCM, 55-64.
O’NEILL, Alexandre (1984), “Almada, para além da tela ou do Fabriano”, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 18 Set..
PEDRO, António (1932), “À margem dum livro: Direcção única”, Revolução, 22 Jul..
PEREIRA, Margarida / VELOSO, Manuela, “A Inter-(in)dependência de Wyndham Lewis e Almada Negreiros face às vanguardas europeias”, Literatura e Pluralidade Cultural, Actas do III Congresso Nacional da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, Lisboa, Edições Colibri, 297-308, 2000.
SILVA, Celina, “A ficção da pátria em Almada Negreiros”, Revista da Faculdade de Letras, II série, v. IV, 341-349,1987.
TORGA, Miguel, Almada Dessins, Paris, Centre Culturel Portugais, 1993.

Manuela Veloso