Aldington, Richard

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Aldington, Richard

(1892-1962)

richminPoeta, romancista, tradutor, biógrafo, editor, autor de uma vasta obra, Richard Aldington é sobretudo conhecido, fora do Reino Unido, por ter sido um dos três autores do Manifesto Imagista, de 1912. Os outros eram Hilda Doolittle e Ezra Pound, o “inventor”, segundo Aldington, do “Imagismo”. Aldington foi também signatário do polémico Manifesto “Vorticista”, que veio a lume em 1914 (Blast, vol. 1), tendo-se demarcado, porém, do Vorticismo. Esteve na frente de guerra entre 1916-18 e integrou o grupo dos “War Poets”, ao lado de poetas como Wilfred Owen, Robert Graves ou Rupert Brooks. Escritor-viajante nato, Aldington nortearia a sua vida pela divisa “Allons, en route!” (inscrita na autobiografia, Life for Life’s Sake, 1941) – de resto, a sua ânsia de viagens levá-lo-ia bem cedo à Amazónia, embora só na imaginação. Na realidade, foram vários os países que visitou e revisitou, como a Suíça, a Áustria, a Alemanha, e sobretudo os latinos – Espanha, Portugal, Itália e França, onde viria a morrer, em 1962. Poliglota, com especial domínio do italiano e da língua francesa (traduziu Candide, entre outras obras), falando “a little portuguese” (idem: 361), Aldington demarcou-se do típico turista britânico dessa época, manifestando um genuíno interesse pelos países que visitava – desde o património artístico-cultural e questões sócio-políticas até à flora e à gastronomia.

Conforme testemunho autobiográfico, a “descoberta” de Portugal ocorre em 1910, quando ouve falar na implantação da República e na deposição da monarquia. Apenas com 18 anos, constrói então uma imagem idealizada e poética de Portugal, que lhe inspira mesmo um poema publicado no jornal de esquerda Justice. “At that time”, escreve em 1941, “[I] did not know, for instance, that quite half the population was made of illiterate peasants living mentally in the middle ages. Unconsciously I peopled the country with worthy and public-spirited abstractions, who had only to be freed from the tyranny (!) of Dom Manoel to enjoy an immediate utopia” (idem: 84). Aldington justifica esse entusiasmo em função da crença juvenil de que as monarquias são por definição corruptas e as Repúblicas, perfeitas, rematando a evocação desse episódio com considerações sobre os eventuais benefícios de uma Monarquia num país profundamente católico e rural.

A viagem real a Portugal teve lugar em 1933, seguindo-se outras viagens em ocasiões diversas e em número não especificado. A imagem positiva que então retém do país, registada no capítulo XXI da sua autobiografia, é indissociável da comparação com Espanha, que atravessava nesse ano de 1933 um período muito conturbado da sua história, com a iminência da guerra civil. Rendendo-se à arquitetura de Espanha e a uma toponímia que vê como “exótica”, Aldington alonga-se em juízos negativos sobre o que considera ser a propensão ditatorial dos seus governantes, condena o tratamento dado a artistas como Unamuno, Lorca, Machado, Azorin e Miró, fala na crueldade e vingança do povo espanhol, para concluir “I can’t think of Spain without an ache in my heart”. (idem: 352)

É com estas imagens em mente que Aldington chega a Portugal e é através delas que explora o país, a cada passo evocando o país vizinho: “There are places in Portugal where I could live very happily, which I never felt would be the case in Spain” (idem: 355). Só na arquitetura é Portugal apontado como mais pobre do que Espanha – e registe-se a ausência de referências às condições de vida do povo português. Aldington é pródigo nos elogios à simpatia dos portugueses e à beleza da paisagem, revelando o seu interesse ao ponto de relatar em pormenor uma conversa com um Professor de Botânica de Coimbra. Tendo lido Childe Harolde, de Byron, o mais famoso guia turístico de Portugal da época no Reino Unido, Aldington percorreria o país de lés a lés, desconstruindo algumas imagens mais estereotipadas de Portugal – considera exagerada a descrição da beleza de Sintra, aponta diferenças entre o Norte e o Sul, e projeta a invulgar imagem de um país que, desde tempos remotos, protege a terra da força destrutiva do mar, já não símbolo do Império, nem mítico. Ao lado do nome de Camões surge, surpreendentemente, o nome do Rei D. Dinis, relembrado também como poeta.

Tivesse Aldington o interesse de Aleister Crowley pelas ciências esotéricas e talvez a sua autobiografia (tão rica no retrato dos meios artísticos de vanguarda de inícios de século XX) incluísse um precioso capítulo para a história do Modernismo europeu: o do seu encontro com Fernando Pessoa. Em 1915, Pessoa possuía já dois livros emblemáticos do Imagismo: Images, de Aldington, e Cadences, de F. S. Flint. Em 1935, é o nome de Aldington que Adolfo Casais Monteiro indica a Pessoa para o ajudar na tradução e publicação, em Inglaterra, de O Banqueiro Anarquista – oferta que Pessoa declinaria. Na ausência de qualquer encontro ou contacto, registe-se este desencontro, porque de desencontros é também feita a História.

 

Passagens

Portugal, Inglaterra.

 

Citações

In some respects I preferred Portugal to Spain. True, it hasn’t the grandeur and the magnificient art, but the people are gentler and more friendly, while the very beautiful country has been treated far more intelligently and not rendered a treeless desert like so much of Spain. Every year by way of the Tagus the Spaniards make the Portuguese a present of their soil, which in the annual flood enriches large areas near Lisbon. This wastage could be diminished by proper attention to the problem of erosion and tree conservation, but I never heard of its even being discussed in Spain. On the other hand, in Portugal I found a very active movement towards tree planting on the mountains (to combat floods and erosion), and saw for myself something of what was being done in the area controlled by the botany professor at Coimbra. The sand dunes all along the coast are kept in check by plantations of pine, started by the mediaeval King Diniz, who had the further distinction of being a very pleasant poet. (…) This botany professor was an agreeable man, with the gentle manner characteristic of many Portuguese and was glad to find another soil-and-tree-conservation-crank. (…) At my request he showed me the university botanic garden, which was small and not very interesting. I supposed he noticed my disappointment, for he said: ‘Why do you bother to see a little garden like this when at Kew you have the finest collection in the world?’ I got out of it by saying – what is perfectly true – that we had nothing in England to compare with the superb collection of exotic trees planted by the monks at Bussaco from seeds and cuttings brought by the Portuguese explorers. I might have said that because I had read Shakespeare was no reason for neglecting Camões. As a matter of fact I was reading Camões with a university student with the great name of Magalhães (Magellan). He had one of the gentlest and sweetest natures I have ever known, and spoke his language so that it sounded really sonorous and beautiful, and not the nasal squeak Borrow said it is. He was a born teacher, buth though he taught me to read Portuguese, he didn’t succeed in teaching me to speak more than the indispensable smattering of a tourist. At various times I explored every province of Portugal by car, including the comparatively little visited Alemtajo and Algarve. (…) In general it is true to say as you go north in Portugal, the country becomes more beautiful, the people gayer and less crossed with Negro genes, and the peasant costumes brighter. The one exception is Leiria, where on Sunday women wear a beautiful mediaeval costume with a wimple, closely resembling that on the effigy of Queen Eleanor of Castile on Westminster Abbey. As they ride along on their little trotting donkeys (which are well treated in Portugal) you feel as if by some accident you had wandered into the female portion of the Canterbury pilgrimage. There are places in Portugal where I could live very happily, which I never felt would be the case in Spain. (…) Cintra is spectacular, but its reputation is exaggerated. (Life for Life’s Sake: 353-355)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

ALDINGTON, Richard (1915), Images: 1910-1915, London, Poetry Bookshop.
—- (1919), Images of Desire, London, Elkin Mathews.
—- (1923), Exile and Other Poems, London, Allen and Unwin, 1923.
—- (1929), Death of a Hero: a novel, New York, Covici, Friede.
—- (1932), Movietones: Invented and Set Down by Richard Aldington, 1928-1929. Edição de Autor (cópia na Morris Library at Southern Illinois University, Carbondale).
—- (1931), Stepping Heavenward: a Record, Florence, G. Orioli.
—- (1935), Life Quest, London, Chatto and Windus.
—- (1941), Life for Life’s Sake. A Book of Reminiscences (Memories of a vanished England and a changing world, by one who was a bohemian, poet, soldier, novelist, and wanderer), London, Cassel.
—- (1946), The Romance of a Casanova: a Novel, New York, Duell, Sloan and Pearce.
—- (1992) Richard Aldington. An Autobiography in Letters, ed. por Norman T. Gates, University Park, Pa.: Pennsulvania State University Press. (Compilação de cartas de Richard Aldington com notas introdutórias de Norman T. Gates).

 

Bibliografia Crítica Selecionada

KERSHAW, Alister; Temple, Frederic-Jacques (eds) (1965), Richard Aldington: an intimate portrait, Carbondale, Southern Illinois University Press.
DOYLE, Charles (ed.), Richard Aldington: Reappraisals (1989), Carbondale, Southern Illinois University Press.

Maria de Lurdes Sampaio