Ruffato, Luiz

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Ruffato, Luiz

(1961)

Desde o romance de estreia eles eram muitos cavalos (Ruffato: 2013a), estão presentes na obra de Luiz Ruffato questões que põem em relevo a noção de pertencimentos e identidades, ideias que se manifestam na fragmentação e anonimato, nas migrações geográficas e culturais (Guimarães/Walty 2017: 53). Assim, seja em eles eram muitos cavalos, seja na pentalogia Inferno Provisório (Ruffato 2016), por exemplo, nas antissagas que questionam origens e multiplicam pertencimentos, vemos reveladas a busca de um lugar melhor, uma solução, ainda que essa se mostre fugidia e utópica. Para as autoras Guimarães/Walty (2017: 54), Ruffato está sempre a ligar literatura e preocupação social, literatura e desejo de nação, ato que também se revela, segundo elas, na declaração com que o escritor inicia seu discurso na abertura da Feira de Frankfurt, em 2013: “O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?” E segue: “Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil.” (Ruffato 2013b).

Entre as muitas reflexões sobre temas-chave, pensados a partir das relações entre literatura  e língua portuguesa, literatura brasileira e literatura de outros continentes, que Luiz Ruffato não se furta de partilhar de modo acutilante, podemos citar: “A sociedade brasileira, além de não ser leitora, ela tem um profundo desprezo pela cultura letrada, então, enfrentamos, como escritores, uma série de problemas”, pequeno extrato da entrevista concedida expressamente à autora deste verbete. (vd. entrevista)

Quando nos dá a conhecer a própria vida, Luiz Ruffato revela a relação indissociável que tem com a sua obra: nasceu pobre e mineiro, no interior de Minas Gerais, a mãe lavadeira e analfabeta, o pai pipoqueiro; precisou trabalhar desde muito cedo entre cachaças, operários, prostitutas e cafetões; aos quinze anos, talvez em busca da felicidade, foi para Juiz de Fora trabalhar na indústria; lá tornou-se jornalista, leu muito, dedicou-se a entender política; permanentemente no horizonte uma sociedade mais justa; desacreditando do seu talento, nos anos noventa abandona tudo e volta ao comércio de varejo e variado, fracassa, embarca para São Paulo, e, de novo jornalista, experimenta o sucesso, não apenas como tal, mas também como escritor, afirmando: “desde 2001, tento recriar histórias de gente sem rosto e sem nome na esperança de alguém lembrar-se delas na passagem pela Terra.” (Ruffato 2014b).

Em 2007, Luiz Ruffato participa do projeto Coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, cuja proposta para os autores selecionados pressupunha viajar em busca de inspiração para contar uma história de amor, que por suas fundações abriria portas para adaptações cinematográficas. Com tema definido e prazo delimitado, o trabalho de Ruffato deveria render um documentário, blog, filme e, claro, o romance – Estive em Lisboa, lembrei-me de ti (Ruffato 2010).

Talvez porque não queira esquecer de onde partiu, sempre sonhando com uma sociedade mais justa (Ruffato 2014b), o “eu Ruffato” se mistura ao “eu Serginho”, antes mesmo de o personagem vir ao mundo crescido e criado, e manifesta seu estranhamento na terra de chegada conforme postagens do blog do escritor- “sinto que minha vida de viajante nada corre de interessante”; ”acompanho, todos os dias, o noticiário do Brasil… nas outras redes de televisão, praticamente nada sobre o Brasil…No mais, não existimos… nem mesmo em nossas tragédias cotidianas…”(Ruffato 2007).

Seis meses depois das vivências em Lisboa, Ruffato finaliza Estive em Lisboa lembrei-me de ti (Ruffato 2010). O romance narra a história de Serginho, um mineiro de Cataguases que, apanhado de surpresa por uma demissão, tendo no currículo um casamento fracassado e um filho não programados, deixa-se empurrar pelos ventos que sopram maravilhas sobre os vaivéns migratórios e parte para Portugal, em busca de fazer um pé de meia e voltar por cima ser chamado de doutor ser motivo de orgulho para o filho. (Ruffato 2010: 47).

Cataguases, Lisboa. Duas cidades, dois tempos, dois países, duas partes. Com essa estrutura, Ruffato problematiza na deslocação de Serginho, as alternâncias, as circunstâncias desfavoráveis, próprias do imigrante que viaja sem levar na bagagem qualificação. E Ruffato nos dá pistas dos possíveis dissabores que Serginho vai enfrentar já nas epígrafes, sejam chutes e pontapés (Xutos e Pontapés) (Ruffato 2010: 11) a exprimirem a rejeição, o não-acolhimento, seja nos versos de Miguel Torga que falam do sofrimento experimentado na sua emigração para o Brasil (Ruffato 2010: 13).

A obra comporta ainda uma “Nota introdutória”, com uma dedicatória dupla, onde se registram os dois eus ativos do romance, personagem e autor. Sergio de Souza Sampaio, devidamente qualificado, personagem real–fictício, atestado por Luiz Ruffato, jornalista e escritor, ambos nascidos em Cataguases, ambos na vivência de Lisboa. Uma relação sinérgica de identificação e de pertencimento. Realidade ou ficção? O fato é que ao lançar mão da Nota, o autor se coloca na posição de receptor, ouvinte, posicionando Serginho na condição de produtor do discurso que fala não somente para Luiz Ruffato, que também é jornalista, mas se dirige, embora não explicitamente, ao leitor. Com essa mediação, Ruffato, lança mão de uma estratégia que é criar um mecanismo artificial para emprestar verosimilhança à história. A mediação da nota/dedicatória entre a instância de artífice das palavras e a voz do narrador cria uma moldura de enunciação que torna reais Serginho, o protagonista do romance, e outros dois personagens: Paulo Nogueira, que teria apresentado Serginho a Ruffato, e Gilmar Santana, que teria conhecido Serginho no Brasil (Ruffato 2010: 15).

O duplo, dividido em tempos, países e partes, assume um aspecto muito interessante na caracterização da linguagem utilizada por Serginho. Em Cataguases, expressionismos mineiros, bem regionais, marcados por ritmos e harmonia, cantados mesmo, ignorando o pronome reflexivo dos verbos que o exigem. Em Lisboa, um ritmo mais pausado com expressões locais (vide citações). O resultado, uma narrativa extremamente visual e sonora (Cadore/Ramos 2010: 152), que, sem dúvida, transmite uma atmosfera de conversa entre amigos. Ainda no jogo da partição dual, parar de fumar e voltar a fumar atos simbólicos de chegada e de partida, acertos e desacertos do personagem. Esperança e desesperança. Luta e conformação.

Cinco anos após o lançamento de Estive em Lisboa e lembrei-me de ti, Luiz Ruffato publica Flores Artificiais, uma compilação de memórias alegadamente recebidas de Dório Finetto, um engenheiro funcionário do Banco Mundial. De novo se recorre à problemática da deslocação, bem como ao uso da estratégia narrativa de fazer parecer ao leitor que aquilo que está a ler não é fictício, mas resulta da reprodução de um testemunho. Finetto teria redigido as memórias a partir de suas viagens de trabalho – de Beirute a Havana, passando por Hamburgo, Timor Leste, Buenos Aires e muitas outras cidades ao redor do mundo. Um livro dentro de um livro. Ao refletir sobre esse romance, Ruffato repensa a própria produção literária, não mais apenas como uma biografia da classe operária do Brasil, mas como um processo de desenraizamento, provocado pela industrialização, que esfacela grupos familiares e leva muitos indivíduos além das fronteiras do Brasil. Ainda de acordo com o autor, Flores Artificiais se enquadra na contemporaneidade, porquanto não tem começo, meio nem fim; constrói-se a partir de fragmentos, que é como ele entende os tempos atuais (Ruffato: 2014c).

 

Passagens

Lisboa

 

Citações

“…e de repente tudo precipitou, a Semíramis hipotecou a parte dela na casa, encaminhou minha cota menor que a combinação, mas questão de honra provar praquela ralé, bem que o Ivan avisou, quem era Sérgio de Souza Sampaio – e, orientado pelo seu Oliveira, marquei o bilhete, troquei dinheiro (com ele mesmo, de-favor, a um preço camarada, ainda que caro pra chuchu), anotei o endereço do contato, e os dias desencaminharam…” (p.37)

 

…e, confesso, eu, que não costumo dobrar essa bobiça de sentimentalismos, desatei o nó da garganta, e, umas lágrimas extravasaram, reclamei, << Ô merda, sô!>>, …de um cisco no olho, e meio besta, fiquei ali acenando,… (p.38)

 

<< Nós estamos lascados, Serginho>>, aqui em Portugal não somos nada, <<Nem nome temos, somos os brasileiros, E o que a gente é no Brasil?>>, nada também, somos os outros,… (p. 80)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

RUFFATO, Luiz (2010) , Estive em Lisboa, lembrei-me de ti, Lisboa, Quetzal Editores.

–(2013a), eles eram muitos cavalos, São Paulo, Companhia das Letras.

–(2014a), Flores Artificiais, São Paulo, Companhia das Letras.

— (2016), Inferno Provisório, São Paulo, Companhia das Letras.

–(2017), Entrevista dada a Marisa de Oliveira e Souza para a Enciclopédia Digital Ulyssei@s/ILCML.

Disponível no site www.ulysseias.com

 

Bibliografia Crítica Selecionada

CADORE, Amanda; RAMOS, Tania, (2010), Desamores Expressos – Estive em Lisboa e lembrei de você; in: Navegações, p. 148-153, Porto Alegre, BRASIL.

GUIMARÃES, Raquel Beatriz; WALTY, Ivete. Ruffato: um escritor e um projeto de nação, in: Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, n51, p.41-63, maio/ago.2017, Brasília, UNB.

LIMA, Isabel Pires de, (2016) Vaivéns literários hoje: Brasil/Portugal, in: Cadernos de Literatura Comparada, n34, p. 11-125, junho/2016, Porto, ILCML.

RUFFATO, Luiz. Entrevista. Disponível no site da Companhia das Letras. Acesso em 9/11/2017.

–.(2013b), Discurso para a abertura da Feira de Frankfurt. Disponível na página do Facebook de Luiz Ruffato.

–.(2014b), Sabe com quem está falando?, in: El País, São Paulo, 24/11/2013, disponível no site do periódico El País. Acesso em 07/11/2017.

–.(2014c), Escritor brasileiro fala sobre o romance Flores Artificiais. Entrevista a Rodrigo Simon. São Paulo: Univesp. On-line. Disponível no site da Univesp. Acesso em 11/11/2017.

–.(2007).blogdoluizruffato.blogspot.com/Último acesso em 30/11/2017.

SILVEIRA, Carolina Nalon, (2015) O projeto político de Luiz Ruffato: práticas discursivas de um escritor na imprensa, in: XXXVIII Congresso de Ciências de Comunicação, I, Rio de Janeiro, 4 a 7/9/2015, INTERCOM.

 

Marisa de Oliveira e Souza – 1º ano MELCI 2017/2018