Pessanha, Camilo de Almeida

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Pessanha, Camilo de Almeida

(1867-1926)

Poeta, tradutor de poesia, advogado, juiz, professor. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. Filho do juiz Francisco de Almeida Pessanha e de Maria Espírito Santo Nunes Pereira. Em 1864, crê-se que por não ser correspondido na paixão que votava a Ana de Castro Osório, irmã do seu amigo de faculdade Alberto de Castro Osório, Camilo Pessanha deixa Portugal e transfere-se para Macau, onde foi advogado, professor de Filosofia, conservador do registo predial e juiz de comarca. Volta por várias vezes a Portugal, a maior parte delas para recuperar a frágil saúde, ou visitar a família. Na sua poesia refere amiúde a situação do exílio. Mas trata-se de um exílio dentro da pátria, um desterro. Significativamente, a “Inscrição” que serve de epígrafe ao seu único livro de poemas publicado em vida, Clepsidra (1920), começa ambiguamente: “Eu vi a luz em um país perdido”. A distância geográfica torna-se uma componente fundamental da visão, que tem do país e dos seus lugares. Com latitudes semelhantes a Portugal, Macau é a única terra do ultramar português em que se pode ter até certo a ilusão de se estar em Portugal, uma situação que Pessanha diz ser “essencial ao exercício por portugueses da sua especial actividade imaginativa” (Pessanha, 1988: II, 183). Em 1912, o Governador queixa-se de Pessanha, “em demasia identificado com o meio” (José; Cascais, 2004: 191). Em 1915, o poeta incita os jovens portugueses a estudar a língua e cultura chinesas, um “inefável deleite espiritual” (Pessanha, 1988: II, 154). No levantamento dos livros da atual Biblioteca Central de Macau, seria descoberto em 2004 um exemplar da revista Centauro, de 1916, com anotações do autor aos poemas da revista (Macau, 2004): nele é patente que Camilo Pessanha foi retirando aos poemas o que eles tinham de circunstancial. Pela comparação entre as várias versões manuscritas, corrigidas ou publicadas, se nota hoje o crescente nível de abstratização. Estes documentos têm a vantagem de nos relembrar que Pessanha (re)escreveu grande parte da sua obra em Macau, cada vez mais influenciado por uma cultura em que o realismo espácio-temporal não é valorizado. Ao riscar títulos como “O Castelo de Óbidos”, o lugar torna-se omisso. Alguns críticos estranham que as referências a Macau se resumam quase a uma “viola chinesa”, ao abraço qual serpente asiática, a “ébrios chineses delirantes”, ou às “versões criativas” (apud António Quadros, em Pessanha, 1988: 16) das “elegias” chinesas que Pessanha diz ter traduzido “literalmente” (Pessanha, 1988: 157). Mas, como salientam os editores de 2004, na obra de Pessanha “não emerge fácil e superficial a chinoiserie, o bricabraque de antiquário de sensações ou de arrivista pasmado com a diferença”. Reconhecem-se porém as sombras de Macau: “os seus becos e as suas vielas”, “a insónia do bazar” e até “a presença obsessiva do mal, da dor e do prazer, da distância e da saudade” (José; Cascais, 2004: 17). António Ferro dirá que na sua arte “não há palavras, há sinais”. Macau é o paradigma de um lugar-sem-lugar. Macau torna-se província emprestada, transitória como a vida: “[…] que um homem, pelo que respeita à vida espiritual, em qualquer parte se governa”. Numa rua de Macau descrita em Clepsidra, um português ouve uma estranha “voz débil que passa”. E responde-lhe outra: “– Não sei o caminho./ Eu sou estrangeiro”. Ambas são a voz de Pessanha. A sua campa pode ser visitada no Cemitério São Miguel de Arcanjo, em Macau.

 

Passagens

Portugal, Índia, Japão, Macau/ Hong Kong/ China, portos do percurso naval entre Portugal e Macau.

 

Citações 

Adém: “Não vi coisa alguma do que dizia um artigo que eu li de António Enes: nem chins, nem turcos, nem índios, nem gregos… nem ingleses – seria dúzia de militares de uma palidez indescritível, graves, vestidos de ganga amarela. Um calor asfixiante, um país onde me dizem que se passam muitos anos sem chover. Vi um parte (os persas adoradores de fogo e que se expatriaram pela invasão muçulmana e que se distinguem de outros orientais por trazerem de fora a fralda da camisa) e um judeu que se me ofereceu para cambiar moedas. Um negro, de sandálias, aproximou-se com um chicote e deu-lhe uma chicotada. O mesmo negro deu outras chicotadas em outros negros que ou me ofereciam os seus artefactos, de uma indústria quase africana, ou me disputavam para os seus barcos (o mesmo sistema de Cádiz, onde não havia chicotes) ou altercavam. Disseram-me que era um policia inglês de Adém. […] De tudo o que ele viu, eu só encontrei os garotos negros, nus, em umas pirogas do comprimento de dois metros, com um único remo pequeníssimo, que parece uma colher, oferecendo-se para irem buscar, de mergulho, o dinheiro que se lhes lance ao mar – à la mer, à la mer -, e isto seguido de um grito gutural e selvagem, que fica muitos dias nos ouvidos.” (Carta de Pessanha a seu pai, escrita no estreito de Malaca a caminho de Macau, 17 de março de 1894, Pessanha, 1988: 71-72)

 

“Ceilão é uma floresta, que vem mesmo até às ondas do mar. Quantos costumes, quantos vestuários, quantas raças diferentes naquele parque que é Colombo, de caneleiras, de mangueiras, de cajueiros! E confundidos com todas aquelas raças dominadas, se não fazendo o fundo da população, portugueses descendentes, miseráveis, quase completamente nus, equiparados à casta ínfima dos hindus, puxando os carros mas falando ainda português, pedindo “uma esmola pelo amor de Deus”, alegando que são cristãos, benzendo-se com uma moeda de cobre que se lhes dá – uma saudade e uma tristeza como se fossem verdadeiramente meus irmãos.” (Idem: 72)

 

Macau: “A gente daqui é a de como quase todos os portos até à Europa, que em Adém leva chicotadas dos policemen, que em Colombo vende diamantes falsos e que em Singapura puxa os carros ou pede esmola. […] Como são parasitas e criados nestas babeis, que são os portos do Oriente, não sabem nem precisam de saber outra coisa mais de que de línguas o bastante para poderem roubar os passageiros dos vapores. Os daqui, advogados quase todos, cultivam um género especial de exploração: a dos chinas riquíssimos que aqui vivem, mais avarentos do que judeus, e que, com razão de sobra, têm um grande medo das justiças portuguesas. Quase me fazem bem os ingleses em Adém.” (Idem, carta de 8 de maio)

 

“Ando a estudar com todo o interesse, apesar da minha surdez, a língua e os costumes chinas.” (Ibidem)

 

Macau: “Em Hong Kong, quarenta e cinco óbitos por dia, e tende a crescer. Felizmente não chegou aqui por enquanto, mas, por isso mesmo, os vapores dos dois portos infeccionados todos os dias vêm cheios. Esta é que há-de deixar às aranhas o P.e António. Contam que há dias, em Cantão, foi encontrada morta dentro da casa uma família de cinco pessoas, e em um quarto separado, morto também, um chinque ali se tinha introduzido para roubar. Ainda outra notícia e que também hei-de contar ao P.e António, para ele ter pretexto de dizer como uma vez levou um tiro. O P.e António estava a jogar o fanfa em uma casa ao pé do Cais Novo, na sexta-feira passada. Pelas oito horas desembarcaram os piratas, armados de espingardas e taifas. Os chineses que jogavam fugiram todos e os piratas mataram um português empregado da casa, levantaram quatrocentas patacas, tornaram a embarcar nas suas lorchas, e lá se foram para o mar. […] Por hoje bastam de notícias à Tartarin. Aí mal se pode acreditar que tudo isto seja verdadeiro.”

Carta a seu pai, de Macau, 28 de maio de 1894, Pessanha, 1988: 82)

 

“Na China não existem odores: há uma pasta, feita de junquilhos esmagados, e de venenos, e de lama, e de arroz.”

Carta a Alberto Osório de Castro, de 1896 (Pessanha, 1988: 88)

 

“O hábito das longas viagens por mar acostuma a gente a esperar: esperar não o sentido de ter esperança, mas no de estar `espera sem impaciência, sem a obsessão das suas preocupações, distraído em futilidades a maior parte do tempo. È como quem joga na lotaria e se preveniu com o bilhete muitos dias antes de andar à roda.”

Carta a Carlos Amaro, de 1906 (Pessanha, 1988: 94)

 

Singapura: “Finalmente, em Singapura, encontrei-me com os padres da missão portuguesa, que além de, pelo conhecimento que têm daquele meio, me facilitarem enormemente os trabalhos, bastante complicados, do transbordo, me trouxeram de passeio pela cidade, e me deram um óptimo jantar de peixe e de frutos da região, alguns dos quais se não encontram em nenhum outro ponto do mundo. Havia entre esses frutos um, principalmente, que eu tinha grande desejo de conhecer – o durião. É celebrado pelo seu gosto delicioso e pelo seu cheiro abominável. Quem se habituou a ele dizem que o fica amando como um vício, irresistível. Efectivamente deve ser assim, tão completo é o sabor, em que o paladar, por muito tempo que se tenha na boca, vai descobrindo sempre delícias novas. O cheiro, forte, quando se abre o fruto, surpreende com um cheiro característico, de sentina, mas também pouco a pouco se vai descobrindo que é um perfume, compósito de outros perfumes.”

Carta a Carlos Amaro, de 26 de fevereiro de 1909, Pessanha, 1988: 99)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Pessanha, Camilo (1916). Centauro, Revista Trimestral de Literatura, vol. I, Lisboa.

—– (1920). Clepsydra, Lisboa, Edições Lusitânia.

—– (1969). Clepsidra e outros poemas, Lisboa, Ática.

—– (1986). Caderno Poético, Macau, DSEC/BNM.

—– (1995). Clepsidra, ed. Paulo Franchetti, Lisboa, Relógio d’Água.

—– (1988). Obras de Camilo Pessanha. org. António Quadros, 2 vols., Mem Martins, Publ. Europa-América.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

José, Carlos Morais; Cascais, Rui/ ed. (2004). A poesia de Camilo Pessanha, Macau, IIM. Com lista da Biblioteca de Camilo Pessanha.

Quadros, António/ ed. (1988). Obras de Camilo Pessanha. Mem Martins, Publ. Europa-América.

Maria Luísa Malato