Peixoto, José Luís

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Peixoto, José Luís

(1974)

Nasceu na aldeia de Galveias, em Ponte de Sor, no Alentejo. Aos 18 anos, mudou-se para Lisboa. Terminada a licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de estudos ingleses e alemães, foi professor em algumas escolas em Portugal e na Cidade da Praia, em Cabo Verde.

Estreou-se na escrita com a publicação de poemas no Suplemento Jovem do Diário de Notícias, mas foi o romance Nenhum Olhar, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2001, que lhe trouxe o reconhecimento e a possibilidade de se dedicar inteiramente à escrita.

Privilegiando o universo da escrita de si, os romances de Peixoto colocam em foco o mundo rural português, nomeadamente as Galveias da sua infância que deram o título ao romance homónimo de 2014. Além dos romances, publicou ainda três livros de poesia, entre outros projetos literários relacionados com a música, com o teatro, com a literatura infantil e também com a crónica. O autor escreve regularmente para órgãos de imprensa tais como o Jornal de Letras, as revistas Visão, GQ, Time Out, Notícias Magazine, UP ou ainda a revista de viagens Volta ao Mundo.

O tema da viagem é inaugurado por Peixoto em Livro. Neste romance, um grupo de personagens apanhadas na vaga de emigração para França, na segunda metade do século XX, retoma o percurso da própria família do autor. As personagens de Peixoto evocam o destino de milhares de portugueses, analfabetos em grande parte, desconhecendo totalmente a Europa dos anos 60 e que, de repente, são catapultados para uma realidade linguística, política e socioeconómica que os subjuga. Exploradas pelos patrões e humilhadas na sua condição de emigrantes, estas personagens revelam as dificuldades da emigração e acabam por explicar o silêncio que pesou durante décadas na literatura portuguesa sobre este fenómeno.

A viagem migratória é evocada nos dois sentidos: a partida e o regresso. As personagens que voltam a Portugal têm de lidar com a incompreensão dos outros aldeãos que os ostracizam, por um lado, porque já não reconhecem nos adultos envelhecidos pelo trabalho os jovens que viram partir e, por outro lado, porque há uma fissura cultural e linguística que os separa.

A emigração portuguesa para França é tratada em diferentes ângulos, pois não é só Cosme que emigra para fugir à guerra colonial, mas também Libânia e o marido que emigram para fugir à miséria e Constantino que se exila por questões políticas. A figura do exilado é assim retratada através desta personagem que permite estabelecer uma ponte entre a história recente do país e o presente.

Em 2012, Peixoto estreou-se na literatura de viagens com o livro Dentro do segredo, uma viagem na Coreia do Norte, experiência repetida em 2017, com a publicação de O Caminho imperfeito, livro sobre uma viagem à Tailândia que acaba por levá-lo também a Las Vegas.

O interesse pela Coreia do Norte é justificado pelo autor como uma vontade de conhecer o regime mais fechado do mundo, uma forma de viver o fantasma que afirma assolar a sua geração: ter nascido em 1974 e não ter vivido a ditadura portuguesa.

Assim, o escritor procura compreender a retórica oficial do regime e observar a ténue linha que separa a realidade da ficção, não é por acaso que Peixoto leva na mala o livro D. Quixote. A narrativa desta viagem assenta na reflexão sobre a distinção entre verdade, verosimilhança e ficção: como classificar um regime que afirma ao seu povo ser o mais avançado do mundo, apesar de viverem na miséria extrema?

Por outro lado, entrar na casa do Outro, conhecer uma sociedade asiática, é uma forma de continuar a procura do Eu, temática privilegiada na obra deste autor. A busca de si num espaço desconhecido é uma forma de construção e de compreensão da evolução do Eu no tempo, enquanto homem e enquanto escritor, os seus preconceitos e limites culturais.

Partindo da imagem mental que autor e leitor têm da Coreia do Norte e da Tailândia, e sempre através da focalização na primeira pessoa, logo subjetiva, o autor contrapõe a realidade observada às imagens prévias que tinha sobre os dois países. As diferenças culturais: o alfabeto, a língua, a gastronomia são sentidas pelo leitor através da técnica de introdução no texto de palavras coreanas e tailandesas relativas a costumes culturais ou através da analogia, comparando realidades que ajudam a construir a imagem do Outro.

Na Coreia do Norte, as deslocações são impostas pela organização da viagem e pelo controlo total do regime; na Tailândia, o autor experimenta uma total liberdade de movimentos. No entanto, numerosas são as palavras ligadas à ordem, à organização, à propaganda ouvida nos altifalantes presentes nas ruas em ambos os países, provocando uma impressão de clausura permanente. Apesar das inúmeras observações sobre a perigosa realidade política nestes países, os diversos apontamentos relativamente aos comportamentos amistosos dos norte-coreanos,  valeram a Peixoto, em 2012, inúmeras críticas em Portugal, por se considerar que ao privilegiar as notas sobre a alegria natural da população o autor estava a relativizar a dureza do regime.

As viagens narradas coincidem com o fim de ciclos na obra de Peixoto. Não é de estranhar, por isso, que o descentramento provocado pela saída da zona de conforto seja uma ocasião de balanço e reconhecimento de que a vida é um caminho imperfeito. Nas duas narrativas mencionadas, o tempo presente da viagem é frequentemente interrompido pelo tempo da memória no qual se alternam episódios da infância ora felizes ora dolorosos.

A viagem é também uma metáfora da escrita e inúmeras são as considerações sobre a criação literária e o trabalho do escritor, nomeadamente, no que concerne à construção da obra, ao lugar do autor, do leitor e à questão do espaço da autobiografia e da ficção na obra de Peixoto.

 

Passagens

Portugal, Cabo Verde, Coreia do Norte, Tailândia

 

Citações

Viajar é interpretar. Duas pessoas vão ao mesmo país e, quando regressam, contam histórias diferentes, descrevem os naturais desse país de maneiras diferentes. (…) Se a imparcialidade é sempre impossível, na Coreia do Norte é mais impossível ainda. (…) Com frequência, senti que apenas me restava o papel de testemunha alucinada, tentando distinguir a realidade real da realidade retórica apenas através do instinto. Não foi por acaso que escolhi reler D. Quixote na Coreia do Norte. Como ele, basta-me ser fiel à verdade que conheço e em que acredito. Na vida, talvez seja sempre assim. A sinceridade salva-nos perante nós próprios. (Dentro do segredo, uma viagem na Coreia do Norte: 61-63)

É tão fácil comparar a vida com uma viagem. Faz tanto sentido. Viagem ou vida, chegamos sempre aqui. Como se estivéssemos no alto de uma montanha, podemos olhar em volta. Aqui é o lugar onde tudo acontece. Há serenidade nesta certeza. Tens o dever livre de aproveitá-la. Se estás a ler estas palavras é porque estás vivo. (Dentro do segredo, uma viagem na Coreia do Norte: 236)

Porque escrevo? Escrevo porque quero que os meus filhos saibam quem sou. Tenho esperança de que estas palavras, misturadas com o que lhes mostro, sejam suficientes, sejam o máximo possível. Quero que me conheçam porque quero que se conheçam a si próprios. Quando eu já não possuir palavras, espero que regressem a estas e lhes encontrem significados que, agora, são inacessíveis. Espero que estas palavras os abracem. Escrever é a minha maneira de ser pai deles para sempre. (…) Porque viajo? Viajo por causa desses sonhos, viajo pelo meu pai. (O Caminho imperfeito: 114-115)

Não sou o meu corpo, não sou o meu nome, não sou esta idade, não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou. (…) Sou um caminho. Sou alguma coisa que vem de antes, que me foi entregue pelo meu pai. Também ele a recebeu. (…) Sou alguma coisa que avança. Sou alguma coisa que continuará depois de mim, que entrego aos meus filhos. (…) Sou este caminho. Já vivi muito. Quando viajo na minha memória, tenho lugares incríveis onde ir. As ruas da minha terra são infinitas, caminho nelas para sempre. (…) Aonde quer que vá, levo tudo isto comigo. Chego a Banguecoque e, num copo de água, encontro os copos de água da minha madrinha (…). Chego a Las Vegas e, numa sombra, encontro as sombras do quintal da nossa casa, a minha mãe em algum lugar, o meu pai em algum lugar, as minhas irmãs em algum lugar. (O Caminho imperfeito: 185-186)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

PEIXOTO, José Luís (2008), Uma casa na escuridão, Lisboa, Bertrand, 6ª ed.

— (2008), Cemitério de pianos, Lisboa, Bertrand, 4ª ed.

— (2009), Morreste-me, Lisboa, Quetzal, 8ª ed.

— (2010), Nenhum olhar, Lisboa, Bertrand, 8ª ed.

— (2010), Livro, Lisboa, Quetzal.

— (2012), Dentro do segredo, uma viagem na Coreia do Norte, Lisboa, Quetzal.

— (2014), Galveias, Lisboa, Quetzal.

— (2017), O Caminho imperfeito, Lisboa, Quetzal.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

CARMELO, Luís (2012), A luz da intensidade. Figuração e estesia na literatura contemporânea, Lisboa, Quetzal.

DIREITINHO, José Riço (2012), “O que faço eu aqui?”, in Revista Ler, 1 de dezembro de 2012.

HALPERN, Manuel (2017), “O caminho também é um lugar”, in Jornal de Letras, 8-21 de novembro, p. 7.

REAL, Miguel (2017), “Viagem iniciática”, in Jornal de Letras, 8-21 de novembro, pp. 8-10.

REGO, V. (2017), “O invisível Hotel Ryugyong, representações do Outro no romance Dentro do segredo, uma viagem na Coreia do Norte, de José Luís Peixoto”, in De volta ao futuro da língua portuguesa. Atas do V SIMELP – Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa, Gian Luigi De Rosa, Katia de Abreu Chulata, Francesca Degli Atti, Francesco Morleo (orgs.), Lecce, Itália, pp. 1409-1432. (http://siba-ese.unisalento.it/index.php/dvaf/issue/view/1483)

— (2016), “L’écriture de soi au service de la construction du mythe de l’écrivain : le cas de José Luís Peixoto”, in Self-Narratives and social criticism, Christophe Ippolito (org.),  Revista Lublin Studies in Modern Languages and Literature, vol. 40, nº2, pp. 37-56. (https://journals.umcs.pl/lsmll/article/view/4597)

SUELOTTO, Kátia (2014), O narrador e seus duplos em Nenhum olhar e Cemitério de pianos de José Luís Peixoto, Lisboa, Chiado.

 

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Vânia Rego – Docente do Instituto Politécnico de Macau