Nobre, António

: : print

Nobre, António

(1867-1900)

Frequentou a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra entre 1888 e 1890, que não chegou a concluir. Em finais de 1890, segue para Paris onde teria frequentado a licenciatura em Ciências Políticas, na Sorbonne. Em Paris editaria a sua obra maior, , em 1892. O agravamento dos sintomas da tuberculose em finais de 1895, levariam A. Nobre a procurar tratamento na Suíça, e depois na ilha da Madeira e até nos Estados Unidos. À primeira vista, a poesia de António Nobre parece impermeável a qualquer contacto com esse exterior mutável que é a viagem. A sua poesia é rotulada de “neogarrettiana”, por muitos nele verem a recuperação de um romantismo local, umas “viagens na minha terra” cujas fronteiras pouco além vão do espaço que medeia entre as praias de Leça da Palmeira e os ambientes rurais de Penafiel, e raramente vai a Sul de Coimbra. Este umbicalismo da sua vida social parece acentuar-se (ou reproduzir-se) num egotismo lírico. E todavia a poesia de António Nobre merece uma reflexão especial num dicionário de viajantes.

Desde logo porque oferece uma visão atormentada da deslocalização, pelo menos tão real, ou verosímil, quanto a do viajante que aprecia a viagem. Quando António Nobre descreve a “Lusitânia no Bairro Latino”, há uma clara tensão entre a topofilia do espaço (e tempo) da infância (em Portugal), e a topofobia do espaço (e tempo) da autonomia (longe da casa ou asa paterna). O sentimento da Saudade, evocado pela Menina e moça de Bernardim Ribeiro ou pelas composições de Garrett no exílio em Londres, é incindível da evocação heroica dos Lusíadas, de Luís de Camões, inverosímil e invisível na Europa, no Bairro Latino. Deve interessar-nos o sentimento do Estrangeiro que António Nobre tão bem descreve. Nele não é possível distinguir a auto- da hétero-comiseração. Ao descrever o seu nascimento, Nobre mitifica-se como Estrangeiro: “Dizem as nossas mães, e diz também a lenda,/ que os babies virginais, a mística encomenda,/ é um comboio que a traz do Norte, do Estrangeiro,/ Eu baby rapazito, ando hoje de babeiro” (Nobre, 2000: 44). Tal como não é possível distinguir esse Estrangeiro-Georges dos nacionais a quem o eu-poético deseja mostrar o seu “País de marinheiros”, espaço em que os vencedores da História se misturam com os vencidos: “Sou neto de Navegadores,/ Heróis, Lobos-d’água, Senhores/ da Índia, d’Aquém e d’Além-mar! […] E o Vento mia! E o vento mia!/ Que ira no Mar!” (Nobre, 2000: 167). Esse estrangeiro bicéfalo fala uma língua que ninguém conhece. Tudo nele é fraco: apresenta-se coberto de pó, sem dinheiro, sem afetos, não tendo sequer a alternativa das armas do império decadente: “Só!/ Ai do Lusíada, coitado,/ que vem de tão longe, coberto de pó,/ que não ama, nem é amado,/ […] Antes fosse pra soldado,/ Antes fosse pró Brasil…” (Nobre, 2000: 181). O próprio tempo e clima são para ele irreconhecíveis: parece Outono sendo já Primavera: “Lúgubre Outono, no mês de Abril!” (Ibidem).

Em segundo lugar, deve interessar-nos também esta viagem num microcosmos que reproduz afinal todas as viagens do macrocosmos. A medição da distância (espacial ou temporal) verdadeiramente não importa: é sempre de um espaço (e tempo) mítico que se trata. O Cabo do Mundo é simultaneamente o nome de uma praia de Leça da Palmeira e o limite do jardim onde um baby passou a infância. Coimbra, que Nobre despreza na sua correspondência, é tão cheia de tédio quanto a que exalta nos seus poemas. Paris fascina-o no mesmo grau que o enfastia. Quase só na “Torre de leite” é coerente a causalidade das coisas: “Oliveiras que davam azeite,/ Searas que davam linho de fiar./ Moinhos de velas, como latinas,/ Que São Lourenço fazia andar…/ Formosas cabras, ainda pequeninas,/ E loiras vacas de maternas ancas/ que me davam o leite de manhã./ Lindo rebanho de ovelhas brancas,/ Meus bibes eram da sua lã. […] Um dia os castelos caíram do ar!/ As oliveiras secaram,/ Morreram as vacas, perdi as ovelhas,/ Saíram-me os ladrões, só me deixaram/ as velas do moinho… mas rotas e velhas!” (Ibidem). O que o poeta evoca em Paris é já o que em Portugal deixou de existir, ou permanece invisível de tão simples que é: daí um constante emaravilhamento, na terra encantada de fadas: “Ó minha/ terra encantada, cheia de Sol,/ Ó campanários, ó Luas Cheias,/ lavadeiras [sic] que lavas o lençol,/ ermidas, sinos das aldeias,/ Ó ceifeira que segas cantando,/ Ó moleiro das estradas,/ carros de bois, chiando…/ Flores dos campos, beiços de fadas/ […] Que é feito de vocês? Onde estais, onde estais?” (Nobre, 2000: 183). Significativamente, o livro , começa com um prólogo, que anuncia um conto fantástico: “Num berço de prata, dormia deitado, / três moiras vieram dizer-lhe o seu fado” (Nobre, 2000: 163). O que o cativa na Suíça é ainda o reencontro com uma solicitude limpa, simples e maternal. Diante da poesia de António Nobre, pode-se assim ter uma ou duas perspetivas, conforme a quantidade e qualidade das viagens que ela possibilita. A aparente viagem, explicitada pelo autor, que daria origem ao “livro mais triste que há em Portugal” (Nobre, 2000: 164). E uma outra viagem, implícita, aquela que Mário Cláudio provocantemente anuncia como o “livro mais alegre que há em Portugal” (pref. Nobre, 2000: 24), única reconstituição possível desse paraíso original da infância, composto afinal no Outono, que noutro poema é afinal “o melhor dos meses” (Nobre, 2000: 164). Devemos sempre desconfiar das viagens na minha terra. Também Garrett afiançava que, na brevidade da viagem, queria criar um mito.

 

Passagens

Portugal Continental, Madeira, Espanha, França, Holanda, Bélgica, Inglaterra, Suíça, Alemanha, Estados Unidos.

 

Citações

“Olhei-te, a sorrir da ideia,/ Eu olhei-te, sim! E tu/ escreveste á flor da areia:/ ‘I love you.’” (Nobre, 2000: 49)

 

“Ah, as viagens têm isto de mau, vão-nos desiludindo, desenrolando a nossos olhos o mapa da miséria humana e da sua igualdade” (A bordo do Britannia, 23/10/1890, Nobre, 1982: 112)

 

Poentes de França: “- Ó Sol!, ó Sol! Poente de vinho velho!/ Enche meu copo de S. Graal (deu-mo a balada…)/ Ó Sol da Normandia! Ocidente vermelho,/ tal o circo andaluz depois duma toirada!/ – Vós sois estrangeiros, vós sois estrangeiros” (Nobre, 2000: 259)

 

“Oiço um apito. O trem que se vai… Engatar-te/ quem me dera o vagão dos sonhos meus!/ Lá passa ao longe. Adeus! Quisera acompanhar-te/ – Boa viagem! Feliz de quem vai, de quem parte!/ Coitado de quem fica… Adeus! Adeus!/ – Que ilusão viajar! Todo o planeta é zero./ Por toda a parte é mau o Homem e bom o Céu./ – Américas! Japão! Índias: Calvário!… Quero/ mas é ir à ilha orar sobre a cova de Antero/ e a Águeda beber água do Botaréu…/ Vi a Ilha loira, o Mar! Pisei terras de Espanha,/ países raros, Neves, Areais;/ Cantando, ao luar, errei nas ruas da Alemanha,/ Armei na França minha tenda de campanha…/ E tédio, tédio, tédio e nada mais!” (Nobre, 2000: 268)

 

Por uma tempestade na costa de Inglaterra: “Adeus! Paquete, que vais fugindo/ com um poeta lá dentro a orar!/ Ai que destino tão parecido,/ Andar aos ventos, ó Mar, ó Mar!/ […] Adeus! (Piloto, que nuvens essas,/ Façamos juntos o p’lo sinal)/ Menina e Moça, nunca me esqueças,/ que eu tenho os olhos em Portugal!/ […] Adeus! Ai triste de quem embarca/ Sem ver a sorte que o espera ao fim!/ Façamos vela p’rá Dinamarca,/ Que Hamlet espera no cais por mim.” (Nobre, 2000: 281-6)

 

“Neste instante verto o último gole de café au lait que bebo todas as tardes a esta hora, com o meu pensamento todo em ti, e portanto na Pátria, enquanto, a meu lado, de outras mesas chegam até mim línguas do mundo inteiro: franceses, lusitanos, espanhóis, gregos, romaicos, eu sei lá – toda essa humanidade que, embora talhada em perfis diferentes, é em si uma só, a mesma – a cambada!” (carta a Alberto de Oliveira, 1890, Nobre, 1982: 30).

 

“Passo os dias metido no meu moinho,/ e mói que mói saudades e tristezas,/ moleiro que no mundo está sozinho./ Os lavradores destas redondezas/ queixam-se até que a farinha à data/ tanta é que ‘está de rastos de barata’” (St. Johann Ann-Platza, Nobre, 2000: 374)

 

“E se ganha a Paz com sofrimento,/ deixai-me entrar enfim n’esse Convento…/ pois há quem tenha, assim como eu, sofrido!” (Berna, Maio de 1896, Nobre, 2000: 375)

 

“Todas as tardes, vou Léman acima/ (e leve o tempo passa nessas tardes)/ a pensar em Coimbra. Que saudades!/ Diogo Bernardes deste meigo Lima./ […] Freirinhas de Tentúgal, passos lentos!/ E o chá com bolos dentro dos conventos!/ Meu Deus! Meu Deus! E eu sempre a errar no Mundo!” (Lausanne, Junho de 1896, Nobre, 2000: 377)

 

“Léman, azul, que, mudo e morto, jazes,/ Quanto és feliz! Assim pudesse eu sê-lo” (Nobre, 2000: 378)

 

“Em St. Maurice (aqui perto) há um convento/ de Franciscanos. Fui-me lá há dias./ Quando eu entrei, tocava a Ave-Marias./ Iam cear. Fora mugia o vento./ […] ‘Meu irmão…’ disseram, ao verem-me à porta./ Vontade, Senhor, tive eu de chorar!/ Tão só me sentia, pela noite morta…” (Bex, Junho de 1896, Nobre, 2000: 379)

 

“Feliz! Feliz de ti, doce Constança!/ reza por mim, na tua voz quimérica,/ Uma Ave-Maria de Esperança!/ Por minha saúde e glória (Deus m’a dê),/ por essa viagem que vou dar à América…/ Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!” (Ilha da Madeira, Maio de 1898, Nobre, 2000: 384)

 

“Vários poetas vieram à Madeira/ (pela fama que tem) a ares do Mar:/ uns p’ra, breve, voltarem à lareira,/ outros, ai d’eles!, para aqui ficar./ Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,/ morrer n’esta ilha não deve custar,/ mas para mim sempre é terra estrangeira,/ à minha pátria quero, enfim, voltar.” (Ilha da Madeira, Fevereiro de 1899, Nobre, 2000: 394)

 

“Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo/ pelas ruas, vendo-me passar:/ – Vem tão doentinho, olhai! E é ainda tão novo…/ E assim sozinho, sem ninguém para o tratar! (Que boa a Suíça! Que bom é este povo!)” (Lausana 1896, Nobre, 2000: 401)

 

“Ó formosa Andaluzia!/ Terra de Nossa Senhora!/ […] Ó meninas de sevilha/ deixai-me a vossa mantilha/ que eu não quero constipar-me!” (Nobre, 2000: 407-8)

 

“Os comboios relâmpagos voando,/ pela cidade de Baltimore,/ levam uns sinos que de quando em quando/ ferem os ares, o coração magoando/ e os sinos clamam ‘Never-more, never-more’” (Nobre, 2000: 415)

 

“Ó Paris de Baudelaire! Paris da minha pena/ Que em tempos já molhei nas águas do teu Sena/ Que mistérios eu leio, Paris, no teu folgar!/ que mistérios eu vejo no teu folgar!/ Que mistérios eu vejo, passando os Boulevards!/ Ó vede a palidez da luz d’aquele gás,/ vede a cor mortuária, que aos rostos ele traz!/ […] Ó Paris de Verlaine e poetas sonhadores! Mais de mendigos ricos, de fidalgos salteadores” (Nobre, 2000: 442)

 

“Ah que dia triste hoje! Começo de inverno parisiense, chuvisquento de pontinhas de alfinete, apetece-me ir a Notre-Dame ouvir matinas ou fugir, fugir, fugir…” (Carta a Silva Gaio, Paris a 1/10/1892, Nobre, 1982: 174)

 

“Conheces a Bélgica? É muito doce, muito simples.” (Nobre, 1982: 220)

 

“Disse-me o Tomar que a análise da expetoração custa em Portugal 5000 rs., pois aqui custa apenas 5 frs. – vale a pena mandar-se daí os frascos. […] Todos aqui sabem [que estão tísicos] e parece que faz parte do clima a resignação. Os mais doentes estão de cama, de modo que cá fora nem se dirá que é uma terra de tísicos. Há até quem se divirta com a própria desgraça e ponha nomes àsa ruas assim – boulevard dos Tuberculosos, Praça das Cavernas, Rua dos Bacilos.” (Davos-Platz, Carta a Augusto Nobre, 29/11/1895, Nobre, 1982: 281)

 

“Paz, numa terra dela, cheia de moinhos, por toda a parte leite e manteiga, era indispensável recordá-lo, paz! E, por isso, lho venho dizer e abraçar.” (Bilhete-postal com imagens de Bruxelas, 26/3/1894, Nobre, 1982: 220)

 

“A minha jornada na Suíça tem sido um encanto. Saio de cá conhecendo-a toda. Só me falta Genebra que irei ver também, depois de deixar Bex. […] A minha jornada na Suíça está toda cheia de recordações de Byron, Mme de Stäel, Rousseau, Hugo e agora de mim, não é verdade? (Bilhete-postal a J. de Montalvão, 22/5/1896, Nobre, 1982: 309)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Nobre, António (2000). Poesia Completa, pref. Mário Cláudio, Lisboa, Publ. Dom Quixote.

—– (1982). Correspondência, ed. Guilherme de Castilho, 2.ª ed. ampliada e revista, Lisboa, IN-CM.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Castilho, Augusto de (1979). Vida e Obra de António Nobre, 3.ª ed., Lisboa, Bertrand.

Fischer, Béat de (1960). Dialogue Luso-Suisse. Essai d’une histoire des relations ntre la Suisse et le Portugal du XVe siècle à la Convention de Stockholm de 1960, Lisbonne, s.n., max. 38, 49-52.

Morão, Paula (2004). Retratos com sombra: António Nobre e os seus contemporâneos, Porto, Caixotim.

Simões, João Gaspar (1939). António Nobre, percursor da poesia portuguesa, Lisboa, Inquérito.

Vouga, Vera (2008). António Nobre : cem anos de gratidão, org. Francisco Topa, Revista da Faculdade de Letras, Série Línguas e Literaturas, Anexo XIII, Porto, FLUP.

 

Maria Luísa Malato