Nabokov, Vladimir

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Nabokov, Vladimir

(1899-1977)

Vladimir Nabokov nasceu em S. Petersburgo, em Abril de 1899, no seio de uma família aristocrática, de cariz liberal e anti czarista. O seu pai, Vladimir Dmitrievich Nabokov, foi chefe da oposição no Parlamento sob o regime czarista e membro do gabinete de Kerenski. O estatuto e riqueza da família permitiram a Nabokov usufruir de uma educação altamente refinada e culta, desde muito cedo. No entanto, a família Nabokov terá de abandonar a Rússia aquando da revolução socialista de 1917, país recordado pelo escritor com um grande sentimento de nostalgia.

A deslocação e o exílio em Nabokov serão aqui abordados a partir da sua autobiografia intitulada Na outra margem da memória uma autobiografia revisitada, publicada pela primeira vez no ano de 1955. No entanto, Nabokov publicou uma nova edição, em 1996,com o subtítulo “uma autobiografia revisitada”. A obra foi escrita, originalmente, em inglês e descreve episódios da sua infância na Rússia e depois o exílio na Europa, terminando com a ida para os Estados Unidos.

Nesta autobiografia há dois aspetos centrais que sobressaem: por um lado, uma forte presença das recordações da infância e adolescência, lado a lado com constantes referências aos pais e à sua educação, por outro lado, os anos de exílio evocados tanto através do humor como da crítica. No capítulo que dedica à sua educação, revela-se essencial o facto de Nabokov ter começado por aprender inglês e francês, antes de aprender russo. Esta questão leva-o a dedicar um capítulo (oitavo) às precetoras inglesas, francesas e russas, que habitaram a sua casa, “As preceptoras inglesas e francesas da nossa infância foram eventualmente assistidas, e depois suplantadas, por preceptoras de língua russa […] ” (Nabokov 1986:127). Ora, esta presença de diferentes línguas na sua educação, principalmente o inglês e o russo, marcam muito o seu processo de escrita, pois o autor começa por escrever em russo e depois em inglês. No início, escreve poesia em russo, mas, ao mesmo tempo, apresenta uma crítica ao vocabulário desta língua, “O vocabulário rico dos versos satíricos ou narrativos contrastava com a elegia russa, gravemente ferida de anemia verbal.” (ibidem:183) e, quando já se encontra em Inglaterra, a estudar na universidade, apresenta a seguinte reflexão, “ Nessa altura havia de horrorizar-me a tão clara consciência que agora sinto de ter feito poemas russos com estrutura influenciada por várias formas de versos ingleses contemporâneos […] ” (ibidem:222). O primeiro romance que Nabokov escreve em inglês é The real life of Sebastian Knight, publicado no início dos anos quarenta. Nabokov aperfeiçoa o inglês ao longo do seu crescimento como autor exilado, visto que a língua materna remete para a sua infância perdida na Rússia, o que o distanciava ainda mais da cultura europeia e americana.

A partida de Vladimir Nabokov para a Europa Ocidental compreende os anos de 1919-1940, atravessando três países, Inglaterra, Alemanha e França e, depois, a fixação nos Estados Unidos, onde lecionou literatura comparada e fundou o departamento russo, no Wellesley College e lecionou literatura russa e europeia na Universidade Cornell. Nas considerações que apresenta não se foca apenas na sua experiência pessoal, mas procura abarcar as dificuldades sentidas por todos os émigrés russos (expressão utilizada em toda a obra para designar os russos que abandonaram a Rússia e se instalaram na França ou na Alemanha). Vladimir Nabokov defende, também, um interessante confronto entre duas gerações de escritores russos émigrés. Por um lado, uma geração de escritores russos mais velhos que já tinham reconhecimento e renome antes da revolução socialista e que, devido à pouca tiragem que as suas obras tinham no estrangeiro, não podiam sobreviver da escrita. Por outro lado, tínhamos os escritores “mais jovens, menos conhecidos mas mais capazes de se adaptarem […] ” (Nabokov 1986:235). Nabokov pertencia a esta segunda geração. É interessante remeter para o estudo Vladimir Nabokov A critical study of the novels (Rampton, 1984), onde na introdução encontramos a seguinte reflexão, “In Speak, Memory, Nabokov sumarizes the critical reaction on the novels of his favourite émigré author, V. Sirin.” (Rampton, 1984). Ora, V. Sirin é um pseudónimo do próprio Vladimir Nabokov, que utiliza nas suas primeiras publicações e depois abandona. As cidades de Berlim e Paris são consideradas por Nabokov como as capitais do exílio, onde os russos intelectuais formavam colónias e se instalavam. Este abandona Berlim nos anos trinta devido à ascensão do nazismo, pois a sua mulher, Vera, era de origem judaica. Parte para Paris onde vive até emigrar para os Estados Unidos, em 1940. A autobiografia é dedicada, precisamente, a Vera e, ao longo da obra, encontramos, em vários momentos, uma interpelação direta a um leitor familiar a Nabokov, ou seja, a Vera, “Tu e eu fizemos quanto podíamos para rodear de ternura vigilante e de ternura confiante o nosso filho.” (ibidem,p.254).

Os anos que passa em Inglaterra compreendem o seu período como estudante universitário em Cambridge, onde se formou. Nabokov procura adaptar-se a uma nova cultura e vê, muitas vezes, as suas opiniões contrariadas e desprezadas. Apresenta, de forma crítica e irónica, um retrato dos seus colegas ingleses e de colegas russos émigrés, desprezando tanto socialistas como ultraconservadores e russos que apenas lamentam as suas perdas materiais. Este desprezo demonstra o estranhamento de Nabokov no convívio social universitário, não conseguindo estabelecer relações sólidas nem com os ingleses nem com os emigrados russos, pois algumas perspetivas políticas elitistas de Nabokov afastam-no dos ingleses socialistas, as preocupações fúteis e materialistas de russos émigrés não o permitem identificar-se com eles e o apoio dos ultraconservadores ingleses nas discussões coletivas deixa o autor desconfortável. Desta forma, Cambridge acentua em Nabokov a sua solidão e as suas perdas, “ Com os olhos doloridos meditei junto à lareira do meu quarto em Cambridge […]. E pus-me então a pensar em tudo o que eu perdera no meu país […] ” (Nabokov 1986,p.218).

O sentimento de perda de Nabokov não é tanto ao nível material ou de posse, mas de nostalgia por um país que deixou de ser o seu e que apenas existe em recordações da infância. Salienta-se, neste ponto, a obra Le Métier du poète en exil (Savova, 2012), onde encontramos uma reflexão diretamente ligada com o impacto do exílio em certas obras ficcionais de Nabokov e na sua autobiografia, destacando-se a seguinte passagem, “ Lorsque des milliers de Russes son jetés sur les chemins de l’exil, la douleur de Nabokov est decalée: il pleure la séparation avec l’élue de son coeur, et les lettres- perdues aux quatre vents – qu’il essaie sans espoir de lui faire parvenir.” (Savova 2012:137). Este excerto enquadra-se no momento em que Nabokov e a família abandonam a Rússia e se instalam na Crimeia, antes de partirem para a Europa e é, também, o momento em que Nabokov perde o contacto com Tamara (Tamara é o nome que usa na autobiografia para se referir a Valentina Choulguina), o seu amor de juventude. Ao perder o seu país e, ao mesmo tempo, perder o seu amor, Nabokov estabelece o seguinte paralelismo, “[…] perder o meu país foi como perder o meu amor.” (Nabokov 1986: 204).

A dimensão da deslocação e do exílio não se fica apenas pela autobiografia, dado que muitos romances de Nabokov incidem sobre estas problemáticas, apresentando enredos e personagens que se identificam com as situações que viveu. Nabokov foi, portanto, um autor que abordou a experiência exílica tanto na ficção como na autobiografia. Nas memórias encontramos uma revisitação do autor ao seu passado e da sua família, num tom mais pessoal e íntimo, onde apresenta pontos de vista desde a arte à política, defendendo que a arte, para si, era mais importante “Bem cedo me desviei da política e concentrei na literatura” (ibidem,p.221) e aos sentimentos de um jovem que se forma a nível pessoal e profissional no exílio. No romance, as experiências pessoais de Nabokov atravessam um processo criativo de construção de enredos e personagens que, devido ao distanciamento para com o autor, permite levantar novas questões ligadas mais diretamente com o exílio e não tanto com as vivências e opiniões de Nabokov. Assim, quer na autobiografia quer nos romances o exílio é um processo de construção, que se diferencia pelo tipo de abordagem. A memória e o exílio em Nabokov são, também, estudados de forma intercalada com o modernismo europeu do século XX, como parte integrante deste movimento, tal como propõe o estudo Nabokov’s Art of Memory and European modernism (Foster, 1993). Na sua obra ficcional, há vários trabalhos que cruzam aspetos biográficos com ficcionais, nomeadamente personagens. Destaca-se, aqui, o romance Dar (russo), traduzido para inglês com o título The Gift, e que é classificado pelo próprio Nabokov, na sua autobiografia, como o seu melhor romance russo “dos desalentos e da glória do exílio […] ” (ibidem:233).

Passagens

 

Citações

Em Berlim e Paris, as duas capitais do exílio, os russos formavam colónias densas, com um coeficiente de cultura que em muito ultrapassava a média cultural das comunidades estrangeiras mais diluídas que lá se encontravam. Nessas colónias, os russos mantinham-se unidos. (Nabokov 1966: 231)

 

Quando empresto às personagens dos romances determinados factos da minha vida, ciosamente guardados, muitas vezes reparo que definham no mundo artificial para onde os atiro assim, de forma tão abrupta. Sobrevivem-me no espírito mas acabam-se de calor pessoal e de interesse retrospectivo, passando a identificar-se mais estreitamente com o meu romance e menos com a matriz do meu ego, onde pareciam estar protegidos contra as introduções do artista. (ibidem:79)

 

Não tardou que eu visse como as minhas opiniões (…) eram recebidas com surpresa magoada pelos democratas ingleses in situ. A par comigo ia outro grupo, de ultraconservadores ingleses, mas fazia-o por razões tão cruelmente reaccionárias que só me embaraçava o seu desprezível apoio. (ibidem:220).

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Nabokov, Vladimir (1986), Na outra margem da memória, Lisboa, DIEFEL.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

Brust, J. (1993), Nabokov’s art of memory and european moderninsm, Princeton, University Press.

Lioubov, S. (2012), Le métier du poète en exil, Paris: Honoré champion éditeur.

Rampton, D. (1984), Vladimir Nabokov A critical study of the novels, Cambridge: Cambridge University Press.

 

Maria Miguel Flor dos Reis – 1º Ano MELCI 2017/2018