Döblin, Alfred

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Döblin, Alfred

(1878-1957)

Escritor, médico neurologista e psiquiatra, Bruno Alfred Döblin nasceu em Stettin (à data na Pomerânia alemã, hoje Polónia) numa família da classe média de judeus assimilados. Com 10 anos, depois de o pai os ter subitamente abandonado, mudou-se com a mãe e irmãos para uma zona proletária de Berlim, onde viveu tempos difíceis, experimentando dificuldades económicas, desclassificação social e o antissemitismo já antes sentido em Stettin.  Durante os 45 anos seguintes, habitou praticamente sempre na capital alemã, que não só inspirou o seu romance de craveira internacional, Berlin Alexanderplatz. Die Geschichte vom Franz Biberkopf (1929) [Berlim Alexanderplatz: A história de Franz Biberkopf], mas também se tornou na sua verdadeira pátria. No início dos anos 30, atinge o auge da fama, quer pelo extraordinário êxito de 1929 – que já se anunciava desde a publicação do romance Die drei Sprünge des Wang-lun (1916) [Os três saltos de Wang-lun] –, quer pela posição crítica, de inspiração socialista (não comunista), em relação à política e à cultura da República de Weimar. Sucedem-se convites para palestras e sessões de leitura da sua obra. De destacar, num autor que não era um viajante, a deslocação de dois meses que, em 1924, empreendera pela Polónia na sequência dos pogroms antissemitas de 1923, interessado que estava em viver a religião judaica na sua expressão mais original e ortodoxa – e da qual resultou Reise in Polen (1924) [Viagem na Polónia] (Sander 2001: 34-35). No entanto, a tomada do poder por Hitler forçou-o, enquanto judeu e intelectual de esquerda, a um exílio de 12 anos – uma rutura de que nunca recuperará.

Um dia após o incêndio do Reichstag (fevereiro de 1933), Döblin emigra para a Suíça, depois Paris; na Alemanha, as suas obras são queimadas no auto-de-fé de maio de 1933, a cidadania é-lhe retirada. Adquirida a nacionalidade francesa (1936), colabora com o “Commissariat Général à l’Information”, à data sob direção de Jean Giraudoux, na elaboração de textos de propaganda contra o nacional-socialismo (1939-40). Em junho de 1940, quatro dias antes da ocupação de Paris, o autor inicia uma fuga caótica e traumática pelo sul da França, depois Barcelona e Madrid, chegando a Lisboa a 3 de agosto.  Semanas mais tarde, embarca com a mulher e o filho mais novo (a família desmembrara-se com a fuga) no navio “Nea Hellas” rumo aos EUA, vindo a radicar-se em Los Angeles – anos amargos, sempre com graves problemas económicos porque impedido de exercer medicina, dependente de subsídios do “Writers Fond” (idem: 68-69) e dos poucos guiões encomendados pela MGM, isolado de grande parte dos exilados devido à sua conversão ao catolicismo (1941). Regressa à Alemanha (1945) com patente e uniforme de oficial das forças de ocupação francesas que, no âmbito da reeducação dos alemães, lhe confiam a edição da revista Das goldene Tor (1946-51). Todavia, confrontado com a “amnésia” do país perante a catástrofe nazi, desiludido com a evolução política da RFA, num isolamento desolador, muito doente, esquecido enquanto escritor, sente-se “supérfluo” no seu país – assim escreve em carta aberta a Theodor Heuss (idem: 91). Retorna à França (1953-56), embora com deslocações frequentes à Alemanha para tratamentos, vindo a falecer em 1957.

Tornado celebridade literária sobretudo pelo “romance de metrópole” Berlin Alexanderplatz – cujo extraordinário êxito, lamentava, teria prejudicado a receção da restante obra (idem: 9) –, Döblin foi um escritor complexo e extraordinariamente produtivo, hoje considerado como figura-chave da modernidade clássica e um dos expoentes máximos da literatura alemã na primeira metade do século XX. Movendo-se desde os seus inícios literários em círculos de avantgarde (foi, p. ex., cofundador da revista expressionista Der Sturm (1910-1932)), escreveu romances, narrativas curtas, peças teatrais e radiofónicas, narrativas de viagem, críticas teatrais, textos teóricos e ensaios (estético-poetológicos, filosóficos e religiosos, médicos, políticos). Sem se prender a qualquer escola da época (Expressionismo, Futurismo, Dadaísmo, Nova Objetividade), mas delas aproveitando para construir a sua própria conceção literária, desenvolveu uma escrita inovadora, de modernidade radical, que veio a influenciar gerações seguintes de escritores pela multiplicidade temática e estilística da sua obra (p. ex., entrelaçamento de associações, técnica de montagem, corrente de consciência).

Membro da “Preußische Akademie der Künste” (1928-1933), repetidamente proposto para o Nobel de literatura (1953 e 1957), recebeu, entre outras distinções, oPrémio Fontane” (1916) e o “Grande Prémio Literário da ’Bayerische Akademie der schönen Künste’” (1957) (idem: 13-99).

Na última fase de produção do autor (a partir de 1933) inscreve-se a obra que integra o resultado literário da sua passagem por Portugal: Schicksalsreise. Bericht und Bekenntnis (1949) [Viagem ao destino. Relato e confissão]. Texto de caráter autobiográfico, marcado pelo choque do exílio, combina, ao longo dos três livros que o compõem, um relato objetivo desde a fuga de Paris até ao regresso à Alemanha com reflexões sobre a evolução da vida interior e religiosa de Döblin, que culminaria com o batismo católico. Com eco reduzido aquando da publicação – as vendas nos dois primeiros meses não ultrapassaram os 700 exemplares e a crítica, escassa, atendeu principalmente ao interesse confessional de SR –, apenas a partir dos anos 80, quando os estudos döblinianos conheceram um incremento internacional, a obra foi devidamente reconhecida, agora sobretudo enquanto documento da história da época. Desde então, tem vindo a ser consideravelmente estudada e encontra-se traduzida em várias línguas, não só europeias.

É no primeiro livro, intitulado “Europa, ich muß (sic) dich lassen” [“Europa, tenho de deixar-te”], que Döblin dedica a Portugal o 14.º capítulo – sobre o qual, aliás, já T. Gersão (1992) se debruçou. Condicionado pelo confessado desconhecimento quase total do país (SR, 253) e, sobretudo, pela situação extrema em que a família se encontrava – traumatizada, exausta, sem dinheiro, com roupa desapropriada para o calor meridional –, Döblin oferece-nos essencialmente uma imagem disfórica de Portugal. Muito embora enalteça a inesperada e inultrapassável solidariedade e solicitude dos portugueses que sentiu logo à chegada ao país (SR, 242) e reconheça a magnificência de Lisboa (sem esquecer a abundância de alimentos) (SR, 244, 245) – topoi muito frequentes na literatura de exílio –, o retrato global é dececionante. Como bem sublinha T. Gersão, é sempre o mundo nórdico, evoluído mas enlutado por uma guerra terrível, que serve de bitola para os juízos emitidos sobre o Outro, cujas manifestações “desviantes” incomodam e quase parecem ofender o narrador-autor, que não se exime a comentários, ora humorísticos, ora irónicos, mesmo sobranceiros – e nem sempre acertados (Gersão 1992: 60-61). Apesar de apreciar a paz que encontra (SR, 243), dói-lhe a vida despreocupada e a alegria dos portugueses que vê como alheados da realidade apocalíptica europeia; de modo geral, o barulho até altas horas das vozes, dos risos, da música, das cantigas, dos pregões, dos elétricos é-lhe insuportável (SR, 254-255), o calor abrasador (SR, 252-53, passim), a iluminação “infernal” (SR, 243).

Mesmo assim, flaneur e observador clinicamente treinado que era, interessa-se por aspetos, â data apreciados, do quotidiano pitoresco e multifacetado da cidade. Regista, p. ex., o movimento no mercado, a vida diária fervilhante das ruas, vazias e emudecidas ao domingo, as quais, especifica, se encontram divididas por ramos de comércio (SR, 245); apercebe-se da postura elegante das varinas e das vendedoras de figos (SR, 254). E embora não toque questões da política portuguesa da época, não deixa de criticar a crua miséria dos pequenos ardinas (SR, 255).

Estruturalmente um “viajante pela palavra”, focado na sua penosa situação de refugiado, não surpreende que, tal como muitos outros exilados, Döblin não tenha demonstrado grande disponibilidade para a cidade-trânsito que ansiava abandonar.

 

Passagens

 

Citações

“Wir fuhren in die Stadt herunter. Es war zwei Uhr nachts. Wir fuhren durch strahlend helle Straßen, auf denen sich Scharen fröhlicher Menschen bewegten, Ja, so mit Licht, Musik und Lachen empfing uns Lissabon.” (SR, 242)

[“Apanhámos um carro e fomos até à cidade. Eram duas da madrugada. Passámos ruas brilhantemente iluminadas, onde bandos de gente jovial se moviam de um lado para o outro. Foi assim, com luz, música e risos que Lisboa nos acolheu.”] (VD, 242)

“Wenn ich nun von einem ganz elementaren Ding in Lissabon sprechen soll, und nicht von der ungeheuerlichen, noch nicht erlebten Hitze, von der Feuerluft, so muß [sic] ich vom Lärm reden. […] Lissabon ist, industriell gesprochen, ein moderner Großbetrieb zur Erzeugung von Lärm.” (SR, 254-255)

[“Se há coisa entre todas elementar a referir sobre Lisboa, para além daquele calor monstruoso, nunca antes experimentado, aquele bafo de fornalha, é o ruído. […] Em linguagem industrial, Lisboa é uma grande fábrica moderna de produção de barulho.”] (VD, 238-239)

Während der Fahrt [der Elektrischen] hüpfen Straßenjungen auf die Wagen, nacktfüßig, in zerrissenen Jacken und Hosen, Zeitungsverkäufer. An einem Hügel kann man das originelle Denkmal eines solchen Jungen sehen. Sie verdienen ein Denkmal – vielleicht könnte man ihnen eines Tages auch Jacken und Hosen kaufen.” (SR, 255)

[“Com o carro [eléctrico] em movimento, garotos da rua saltam-lhe para cima, pés descalços, calças e casacos esfarrapados, ardinas. Numa das colinas pode ver-se a original estátua a um destes rapazes. E merecem um monumento – talvez um dia lhes pudessem comprar também casaco e calças…”] (VD, 239)

“In Lissabon ging ich an mancher Kirche vorbei, zweifellos, aber ich erkannte sie nicht. […] Man hat sie unkenntlich gemacht, und wer sie nicht sucht, findet sie nicht. Das ist kein schlechter Gedanke. Es sind Gebäude, die man von außen und von weitem für Turnhallen halten kann. Sie haben keinen Turm mit hoher Spitze, sie zeigen keine majestätischen Glasfenster. Sie könnten auch Verwaltungsgebäude sein.” (SR, 260-261)

[“Em Lisboa devo ter passado por algumas [igrejas], com certeza, só que não as reconheci. […] Disfarçaram-nas, e quem ande à procura delas não as encontra. O que não é mal pensado. São edifícios que, de fora e de longe, podem confundir-se com ginásios. Não têm torre com campanário afilado, nem ostentam vitrais majestosos. Poderiam ser repartições administrativas, inclusivamente.”] (VD, 244)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

Döblin, Alfred (1996), Schicksalsreise. Bericht und Bekenntnis. München, Deutscher Taschenbuch Verlag [¨11949]. [SR]

– – Viagem ao destino. Relato e confissão (1996), trad. de Sara Seruya, Lisboa, Asa. [VD]

Bibliografia Crítica Selecionada

Gersão, Teolinda (1992), “A passagem de Alfred Döblin por Lisboa”, Revista portuguesa de estudos germanísticos, n.º 17/18: 57-64.

Sander, Gabriele (2001), Alfred Döblin, Stuttgart, Reclam.

 

Maria Antónia Gaspar Teixeira