Al Berto

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Al Berto

(1948-1997)

Etéreo habitante da noite e delicado hospedeiro de abismos, Alberto Raposo Pidwell Tavares nasce em Coimbra, em 1948, e vai, no ano seguinte, para Sines, onde passa a infância e parte da adolescência. Já em Lisboa, aos dezassete anos, frequenta o curso de Pintura da Escola António Arroio e o curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes. A 14 de abril de 1967 parte para Bruxelas, onde se exila como refugiado político, para escapar à incorporação militar e à consequente ida para a Guerra Colonial, e como estudante, ingressando no curso de Pintura Monumental na École Nationale Supérieure d’Architecture et des Arts Visuels (La Cambre). Funda, com alguns amigos (artistas plásticos, fotógrafos, escritores), a associação Montfaucon Research Center. Nesses anos, viaja por França, Países Baixos, Itália e Espanha, e nessas viagens começa a fazer diários (com escritos e anotações, desenhos, materiais que encontrava pelo caminho, como fotografias, postais, mapas de cidades, etc.). Escreve, por essa altura, em francês, ainda que procure “reinventar uma terceira língua” (JL, 1997): um francês inteligível onde usasse parte da sintaxe portuguesa – “eu escrevia numa outra língua: fruonticólili acádémémiliutre viertrasena pror cravilhofro pinovertsiloqúulito inhôkerterm, qualquer coisa que cortasse de vez com o cordão umbilical” (O Medo, 2005: 27).

Em 1971, insatisfeito com o rumo do seu trabalho nas artes plásticas, entusiasmado com os diários de viagem e com o facto de à escrita bastar “o papel e a caneta” (sendo, portanto, menos dispendiosa, e também menos exigente do que pintura, em termos de espaço e de ritmo), decide abandonar a pintura, assumindo-se cada vez mais como “autor de textos literários”. É uma transição natural, e nasce Al Berto: “Senti necessidade de abrir a brecha com uma coisa que era muito minha e abri o nome ao meio, uma cisão num determinado percurso. Foi a maneira de não esquecer abismo” (Diário Popular, 1987).

Não esquece. Outrando-se, continua a colecionar lugares, paisagens, a palmilhar o deserto, corpo à prova em todas as frentes desse ofício de viajante – “a viagem está segundo a segundo a ser registada” (O Medo, 2005: 15). A fenda gravada define a ordem do tempo e, no espaço, a cruzada prossegue. Viaja com frenesi: Grécia, Málaga, Amesterdão, Londres. A 17 de novembro de 1975 regressa a Portugal e instala-se em Sines, onde cria a livraria/editora “Tanto Mar”, que vem a fechar um ano mais tarde, rumando então a Lisboa. Em 1981 volta a Sines e por aí permanece, ainda que, em razão da sua atividade literária, se divida também por Lisboa. Al Berto publica, entre as décadas de 70 e 90, cerca de uma vintena de livros, multiplicando-se em colaborações com revistas e jornais, catálogos de exposições, edições e traduções; participa em inúmeros debates, encontros de poesia e sessões de leitura. Reconhecido enquanto personalidade literária, é galardoado, em 1987, com o prémio de poesia do Pen Clube Português.

Os anos de retiro belga tê-lo-ão marcado “pela imensa solidão em que se vivia, pelas histórias do exílio (…), pela violência, pelo racismo” (JL, 1997). E, no regresso a Sines, Al Berto procurará reencontrar a infância e a adolescência, talvez o mar que o viu partir – e que, aprende, existirá apenas dentro de si, “como um vestígio qualquer a que nos agarramos para suportar a melancólica travessia do mundo” (Vigílias, 2004b: 59). Mas na sua interna geografia de poeta, todos os lugares e paisagens que atravessou naturalmente se inscreveram – a marca a depender da intensidade do viver nessas paragens. É nesta deriva, assinada pela “grande solidão” (O Medo, 2005: 133) e um desalentado cansaço, quase descrença, que se aguça e vocação nómada de Al Berto: “o sentido da viagem e da vida como espaço de viagem” (JL, 1997).

Em toda a sua escrita, límpida a errância, contínuo o apelo do longe, a sedução de “itinerários, peregrinações, travessias, transumâncias” (O Medo, 2005: 20), o ímpeto da fuga, a avidez de mundo, a sede de ir (ainda que sem destino), a busca, infatigável, pelo que há-de vir – eterno horizonte que o olhar tinge de plenitude. Na “vontade sempre urgente de partir” (idem: 302), Al Berto atravessará o mundo com o próprio corpo e fará do nomadismo um lugar a salvo. É colecionando deslocações (e deambulações) que enfrenta “o desamparo dos dias” (O Anjo Mudo, 2001: 38), e é esta desterritorialização sem fronteira de qualquer espécie que o conduzirá a múltiplas manifestações de um eu cuja voz se converte, também ela, em plena epopeia, calcorreando mares sem fim, cidades noturnas, desertos em fogo.

E, no fim de tudo, “a viagem é interior; o exílio é um caminhar debaixo da pele” (Anghel, 2013: 14). Qualquer porto serve o embarque e pouco importa o cais onde se chega, se a algum lugar se chega. Por mar ou terra, a urgência é sentir, nesse desenraizar-se alheio a geografias: ir, regressar, tornar a partir – tatuar mapas no vaivém das marés, inventar cartografias no relâmpago do leme, vertigem e naufrágio, voo e queda. Um abismo cuja única redenção é a escrita.

Al Berto morre em Lisboa a 13 de junho de 1997, vítima de um linfoma, mas não cessa de regressar, a dar de beber ao eterno viajante: “prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me” (O Medo, 2005: 143). Pernoita ao rés do silêncio, senta-se a escutar o marulhar das ondas, e, de olhos firmemente pousados nos nossos, rasga a pele, a revelar o sangue, fogoso incendiário de todas as suas palavras. Incita-nos ainda, sempre, à vida que encontrou – “finge a vida / mesmo que permaneças morto” (idem: 496) – e deixa-nos, no seu vasto espólio – “o espólio daquele cuja vida / é cintilação de lugares nítidos” (idem: 317) –, enfim corpo, “o indispensável para a travessia do deserto” (idem: 236).

 

Passagens

Portugal, Bélgica, Espanha, Itália, França, Inglaterra, Países Baixos, Grécia

Citações

desejos, miragens, um pequeno cartucho com rebuçados embrulhados em celofane (…). estávamos em Málaga: calor mucho calor niño white light lumière blanche que opera a explosão do desejo luces blancos (…) (O Medo, p. 17)

PANORAMICA sur la villeseringue en ciel d’écailles transparentes opiacées le port humide est à droite de la gare
en bas l’avenue qui nous mène au-delà des boulevards périphériques ce n’est pas une sortie
une arbre un pont un autre bosquet de musc mouillé de plus en plus étroit la ville s’égare (O Medo, p. 71)

lá fora… talvez em Delfos
os cascos dourados dos cavalos enterravam-se na poeira
os carros estavam prontos
das ilhas chegava o silêncio perturbador dos sonhos (O Medo, p. 284)

pintava a cara e as mãos como as putas
em Bousbir ou em Alexandria vagueava
no calor das ruas comprava nozes queijo fresco
pão algum mel
falava com os mercadores de tapetes (O Medo, p. 531)

Saí do harém a correr. Saltei para o cavalo, levando a espada por única arma. (…)
Defendi Sevilha até se me esgotarem as forças do corpo e da alma; e, ao defendê-la, defendia a minha família e o meu povo – por eles daria a vida. (Degredo no Sul, p. 117)

vivi em Roma
no tempo em que ali chegavam os trigos da Sicília e os vinhos raros
das ilhas
a fama remota dos ladrões de Nuoro (Vigílias, p. 37)

Corri de lés-a-lés as ilhas gregas, as baleares, e fui à Sardenha. Andei pelos mares fechados, de porto em porto, como O Marinheiro de Gibraltar (…).
(…)
Estávamos no La Mort Subite, em Bruxelas, eu e D. – falávamos de viagens, bebíamos cerveja, e o calor peganhento colava-nos a roupa ao corpo. Era o início do Verão.
(O Anjo Mudo, “O que resta de uma viagem / 1. De Bruxelas a Civitavecchia”, pp. 12-13)

Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. (…) E talvez não haja melhor sítio para entender esse movimento do que esta ilha, onde mal cresce a erva – e tudo parece morto. (O Anjo Mudo, “O que resta de uma viagem / 5. Baunei / Dórgalo / Nuoro”, p. 22)

A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite… Avancei sempre, sem destino certo.
(…) E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim. (O Anjo Mudo, “Aprendiz de viajante”, pp. 9-10)

o melhor viajante, é aquele que vampiriza tudo por onde passa – e regressa sem dor a casa. (…) mas, de regresso a casa, ele prepara mais uma viagem e sabe esta mentira: a viagem que se prepara nunca tem regresso. (Diários, p. 350)

 

Bibliografia Ativa Selecionada

AL BERTO (2000), Horto de incêndio, Lisboa, Assírio & Alvim, 3ª ed. [1997].

— (2001), O anjo mudo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2ª ed. [1993].

— (2004a), Lunário, Lisboa, Assírio & Alvim, 3ª ed. [1993].

— (2004b), Vigílias, Antologia, seleção e prólogo de José Agostinho Batista, Lisboa, Assírio & Alvim.

— (2005), O medo, Lisboa, Assírio & Alvim, 3ª ed., revista e aumentada [1987].

— (2006), O último coração do sonho, Antologia, org. de Jorge Reis-Sá, V. N. Famalicão, Quasi, 2ª ed. [2000].

— (2007), Degredo no Sul, Antologia, seleção e prefácio de Paulo Barriga, Lisboa, Assírio & Alvim.

— (2012), Diários, Lisboa, Assírio & Alvim.

 

Bibliografia Crítica Selecionada

AMARAL, Fernando Pinto do (1991), “Al Berto: Um lirismo do excesso e da melancolia”, O mosaico fluido. Modernidade e pós-modernidade na poesia portuguesa mais recente, Lisboa, Assírio & Alvim, pp. 119-130.

ANGHEL, Golgona (2006), Eis-me acordado muito tempo depois de mim. Uma biografia de Al Berto, V. N. Famalicão, Quasi.

— (2008), A metafísica do medo. Leituras da obra de Al Berto, Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Tese de Doutoramento.

— (2013), Cronos decide morrer. Leituras do tempo em Al Berto, Lisboa, Língua Morta.

DIÁRIO POPULAR, 12 de agosto de 1987, “A cicatriz da escrita”, Entrevista de Rodrigues da Silva.

FREITAS, Manuel de (1999), A noite dos espelhos – Modelos e desvios culturais na poesia de Al Berto, Lisboa, Frenesi.

— (2005), Me, myself and I. Autobiografia e imobilidade na poesia de Al Berto, Lisboa, Assírio & Alvim.

JORNAL DE LETRAS, 10 de maio de 1988, “Al Berto, a secreta cartola do poeta”, Entrevista de António Cabrita.

–, 23 de abril de 1997, “O poeta como viajante”, Entrevista de Maria João Martins (com Ricardo de Araújo Pereira).

MAGALHÃES, Joaquim Manuel (1989), “Al Berto”, Um pouco da morte, Lisboa, Editorial Presença, pp. 243-245.

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Ana Sofia Arqueiro – 1º Ano MELCI 2017/2018